Trump descartou Bolsonaro porque não suporta perdedores, diz ex-embaixador dos EUA
Para John Feeley, Lula ‘deu sorte’ em negociações sobre tarifas e sanções com Donald Trump.
O recuo recente da política externa americana em relação ao Brasil tem ganhado leitura de bastidores: segundo John Feeley, ex-embaixador dos EUA no Panamá e hoje diretor executivo do Centro para a Integridade da Mídia das Américas, o comportamento volátil de Donald Trump e a percepção sobre o antigo aliado Jair Bolsonaro pesaram mais do que qualquer avanço do governo de Lula nas negociações com Washington.
Em entrevista à BBC News Brasil, Feeley sustenta que, após a prisão de Bolsonaro, o presidente americano viu o aliado político como um risco de derrota, o que o levou a descartar a parceria. “Assim que Bolsonaro foi condenado e afastado da política com base na lei, Trump deixou de vê-lo como uma referência”, afirma o diplomata. Para ele, é raro que Trump pense diariamente em assuntos brasileiros, e quando o Brasil se tornou menos relevante no mapa político dos EUA, as decisões em relação a tarifas e sanções seguiram esse novo eixo, quase que por acaso.
No dia a dia, o cenário fica menos previsível do que parece. Feeley descreve Trump como alguém que muda de posição com rapidez, o que torna difícil negociar com ele ou prever o que virá a seguir. “A visão de Lula naquele momento foi mais uma questão de sorte do que de uma estratégia bem definida”, diz o ex-diplomata, sugerindo que a conclusão de que houve talento diplomático brasileiro pode ser mais fruto do acaso do que de planejamento intenso.
O capítulo das tarifas e sanções chegou a abrir uma janela de leitura sobre o peso de influências de Washington: tarifas de até 40% sobre várias exportações brasileiras foram impostas em meio a pressões norte-americanas para conter o que se enxergava como riscos de instabilidade regional. Em 20 de novembro, porém, um decreto suspendeu essas tarifas, e, nas semanas seguintes, Moraes e a esposa foram retirados da lista de sanções. A mudança, segundo Feeley, parece ter sido resultado de um momento produtivo de diálogo entre Lula e Trump, uma espécie de recalibragem que evitou um desgaste maior.
Para o diplomata, o papel de atores da Casa Branca é determinante, especialmente quando nomes como Eduardo Bolsonaro aparecem nos bastidores. “O lobbying em Washington pode influenciar decisões que afetam o Brasil”, aponta, destacando a importância de não subestimar o peso do lobby na condução de políticas externas — uma dinâmica que, segundo ele, ficou evidente nos últimos meses, com ou sem uma estratégia formal da Administração.
Sobre o episódio da prisão de Bolsonaro, Feeley observa uma linha de atuação que não tem o Brasil como eixo único, mas que, ainda assim, traça um retrato da relação bilateral. “Trump não é fã de explicações elaboradas; ele funciona mais por impulso e por readaptações rápidas”, resume. O resultado? Uma leitura de que o governo brasileiro, ao conseguir contornar as sanções de forma pragmática, teve de lidar com um cenário em que o líder americano tende a reagir de modo imprevisível, não necessariamente alinhado a um plano previsível com o Brasil.
Na análise sobre a dinâmica regional, Feeley aponta que a relação Brasil-EUA continua estratégica para ambos, independentemente de quem está no Planalto. “O Brasil, com sua democracia robusta e diversidade, pode servir de referência para o entendimento de freios democráticos e limites institucionais”, afirma o ex-diplomata, destacando que a presença de instituições fortes, como o judiciário, é um ponto de referência para o público norte-americano.
No campo da Venezuela, o bloqueio naval imposto aos navios petroleiros sancionados foi apresentado por Washington como ferramenta eficaz para pressionar Nicolás Maduro. Ainda assim, Feeley frisa que as sanções, apesar de impactantes sobre o comércio, acarretam efeitos colaterais para a população civil, algo que não pode ser ignorado. “Não podemos atribuir toda a miséria venezuelana às medidas punitivas: o alvo principal continua sendo o modelo econômico mal conduzido por Maduro”, afirma. O recado é claro: as ações têm impactos, mas não devem ser vistas como a única explicação para a crise humanitária.
Sobre o que acontece na prática, Feeley mantém uma crítica consistente: a estratégia norte-americana na Venezuela não tem um objetivo declarado com clareza. Ele lembra que, em setembro, a narrativa girava em torno de uma operação de combate ao narcotráfico, mas que não houve autorização de uso da força equivalente àquela adotada contra organizações terroristas no passado. E, diante de mais de um século de intervenções na região, o diplomata aponta que a via militar direta não parece ser o caminho desejável para os EUA — especialmente se houver risco de impactos políticos internos relevantes, como as eleições de meio de mandato.
Um ponto que merece atenção é o que Feeley descreve como uma “democracia exemplar” que o Brasil pode oferecer aos Estados Unidos. Mesmo diante de tensões com o governo de Maduro, o País vizinho não deve perder de vista que a convivência institucional e o respeito aos limites democráticos são lições que podem guiar a relação bilateral. “O Brasil pode inspirar, mostrando que instituições fortes podem impor limites ao poder executivo sem abandonar a diplomacia e o diálogo”, afirma.
Quanto ao futuro, o ex-embaixador não vê uma virada rápida para uma mudança de regime na Venezuela, apesar de elogiar a coragem de nomes como María Corina Machado. Ele reconhece a importância de vozes democráticas que defendem a transição, ao mesmo tempo em que alerta para a tentação de recorrer a justificativas que poderiam atrair apoio externo para ações militares. “É fundamental que os Estados Unidos não se deixem levar por discursos que sirvam apenas para inflamar uma intervenção, sob pena de colocar em risco interesses americanos e a própria população venezuelana”, aponta.
Entre as linhas que costuram o depoimento de Feeley, fica a impressão de que a relação Brasil-EUA é, acima de tudo, uma construção de equilíbrio entre interesses estratégicos, democracia e relações públicas. O atual momento aponta para uma leitura simples, mas potente: a estabilidade regional depende da capacidade de cada país manter seus freios democráticos em funcionamento, mesmo quando o improviso parece dominar as manchetes.
No fim das contas, o que fica para o leitor comum é uma provocação: como as tensões entre Brasil e EUA se refletem no dia a dia, nos preços, nos empregos e na própria percepção de democracia? A resposta não é única, mas passa pela ideia de que decisões internacionais, mesmo quando aparentemente distantes, cruzam o cotidiano de cada um — seja na hora de escolher produtos importados, entender medidas de governo ou acompanhar as leituras sobre o que acontece na Venezuela e na região.