Trump aposta na Copa para conquistar conservadores que evitam o futebol
Base eleitoral do presidente americano não se interessa pelo esporte. Estados Unidos, Canadá e México vão sediar a Copa do Mundo neste ano.
Não é mais novidade que o futebol deixou de ser assunto exclusivo de nichos nos Estados Unidos. Ao longo dos últimos anos, o esporte se tornou um verdadeiro para-raios das guerras culturais no país. De um lado, a direita costuma dizer que nos EUA não há grande interesse pelo futebol; de outro, fãs, atletas e comentaristas veem o futebol como espaço de inclusão e diálogo entre diferentes comunidades. Nesse cenário, a aproximação entre o presidente Donald Trump e a próxima Copa do Mundo ganhou contornos políticos relevantes.
Nesta edição, com Estados Unidos, Canadá e México dividindo as sedes, Trump passou a promover o torneio com mais afinco, tentando associá-lo à agenda pública e à imagem do país no exterior. A relação entre o líder e o evento ganhou ainda mais significado com a proximidade entre a administração americana e a federação que organiza a competição, fortalecida por alianças estratégicas que ampliam o alcance da competição pelo continente.
Para muitos observadores, não se trata apenas de esportes. Jeffrey Kraus, cientista político do Wagner College, aponta que, embora o futebol universalmente seja visto como menos político nos EUA do que em outras partes do mundo, a próxima Copa trouxe um tom fortemente político. Existe uma percepção de que a FIFA abriu espaço para Trump, o que, por consequência, pode vincular o torneio ao presidente de maneira mais explícita.
Essa percepção se vê reforçada pela relação entre a federação e o novo Conselho de Paz do governo americano, que ajuda a alinhar a parceria entre esporte e política de um jeito que facilite a aproximação com o público. Enquanto isso, para alguns conservadores, a empolgação de Trump com o futebol parece natural justamente por ele ser uma figura ligada ao entretenimento e aos esportes de grande alcance.
“Ele sempre esteve ligado ao esporte, basta ver a rede de contatos com o UFC e a luta profissional”, comenta Chris Vance, eleito presidente dos Young Republicans da UCLA. “Faz sentido, ele está nesse universo há anos.”
A cultura do futebol nos EUA não é mais a mesma. O público que consome o esporte hoje é mais jovem, em grande parte formado por imigrantes, o que influencia o debate sobre políticas migratórias, direitos humanos e inclusão. Protestos envolvendo temas ligados à imigração tapam o noticiário das arquibancadas e mexem nos bastidores da liga, em especial desde a reeleição de Trump.
Para Ryan Shirah, membro do grupo de torcedores American Outlaws, o clima dentro dos estádios ainda evita políticas públicas, mas aponta que o público tende a se alinhar com posições mais progressistas, principalmente em temas de direitos humanos. “Existe um elemento humanista ali. A torcida tende a inclinar-se para o lado mais aberto, mesmo que o estádio seja palco de paixões acaloradas”, afirma.
No entanto, a expansão do futebol nos Estados Unidos pode mudar esse mapa. Se a campanha de Trump tiver sucesso em vender a ideia da Copa para seus eleitores, a base conservadora pode se aproximar ainda mais do esporte. Em termos históricos, desde a Copa de 1994, os EUA passaram a levar o futebol a uma parcela maior da população, impulsionada pela imigração e pela difusão de novas referências culturais no país.
Além disso, o crescimento do apoio republicano entre latinos na eleição de 2024 mostra que as visões políticas de comunidades imigrantes podem evoluir, levando a uma transformação da cultura do futebol no país. Ainda assim, a chegada de estrelas como Lionel Messi a Miami aumentou a visibilidade do esporte e alimentou expectativas de que a Copa possa, de fato, ganhar o público conservador ao longo do tempo. A transição para o centro do espetáculo ajuda a tornar o futebol menos marginal e mais presente no cotidiano do torcedor comum.
O momento é visto como uma oportunidade geracional. JD Vance, vice-presidente dos EUA, admite que o interesse pelo futebol o coloca numa posição particular entre colegas, descrevendo o esporte como “conservador, por nascer da vida comunitária” — uma leitura que se conecta com quem valoriza a ideia de comunidade nos estádios. Os torcedores organizados, como Shirah, destacam a importância de manter o ambiente acolhedor, sem agressões, para que o futebol permaneça um espaço de convivência, não de confronto.
No fim das contas, o desafio é simples em voz alta e complexo na prática: transformar a Copa numa oportunidade de diálogo entre conservadores e fãs do futebol, sem que o torneio perca sua essência esportiva. Do jeito que as forças políticas se articulam hoje, o torneio pode, sim, ganhar contornos mais amplos do que o campo de jogo balança. E a grande pergunta que fica é: até onde essa estratégia pode mudar a percepção do futebol na vida cotidiana dos torcedores?
- Trama política — o Festival esportivo assume papel de palco para a relação entre Trump e a comunidade de fãs.
- Base imigrante — o público jovem e migrante mantém o esporte vivo e crescente no país.
- Influência internacional — a parceria da FIFA com a gestão americana amplifica o alcance regional.
- Messi em Miami — o astro cria visibilidade que pode atrair novos fãs entre conservadores.
- Oportunidade geracional — a Copa pode mudar hábitos de consumo esportivo entre diferentes gerações.