Trump precisa bombardear alvos na Venezuela ou parecerá fraco

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Para não parecer fraco, Trump precisaria mirar em alvos na Venezuela, diz ex-embaixador dos EUA

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Para o diplomata, a confirmação de uma operação terrestre anunciada recentemente poderia representar uma escalada real das hostilidades; por outro lado, a comunicação pouco clara do governo alimenta dúvidas sobre a estratégia norte-americana.

Depois de meses de demonstrações de força e de ameaças públicas sobre a Venezuela, Trump é visto por alguns especialistas como pressionado a demonstrar resultados, mesmo sob o peso do calendário eleitoral. Segundo John Feeley, ex-embaixador dos EUA na América Central, o presidente precisaria “explodir alguns alvos” no território venezuelano para não soar fraco diante do público interno. A ideia, diz ele, é simples na prática: se não demonstrar força, a narrativa de vulnerabilidade tende a prevalecer. E, no fundo, o próprio Trump detestaria transmitir fraqueza.

Feeley, reconhecido por sua experiência em América Latina dentro do Departamento de Estado, ocupou o posto de embaixador nos Estados Unidos no Panamá e deixou o governo em 2018, em discordância com algumas decisões do então presidente. Para ele, caso o ataque terrestre anunciado na última segunda-feira (29/12) venha a se confirmar, haverá uma escalada significativa das hostilidades entre Washington e Caracas. No entanto, segundo o diplomata, a natureza ambígua e a própria divulgação contraditória da operação prejudicam sua eficácia estratégica.

Sobre a resposta do governo, a imprensa informou que, em resposta aos questionamentos, o republicano afirmou que os EUA destruíram instalações usadas para armazenar drogas na Venezuela. Se esse fato for comprovado, significaria a primeira intervenção terrestre estadunidense naquele país desde o início da atual série de operações militares na região. Ainda assim, Trump não detalhou o plano, limitando-se a mencionar apenas “uma grande explosão na área do cais onde as drogas são carregadas nos navios”.

Entre as leituras que circulam no noticiário, veículos de referência nos EUA como The New York Times e a CNN citam fontes do governo para confirmar o ataque com drones atribuídos à CIA. Mesmo assim, nem as Forças Armadas, nem a CIA, nem a Casa Branca se manifestaram oficialmente sobre essa linha de investigação. O governo venezuelano, por sua vez, não confirmou qualquer ataque de Washington ao seu território.

Para Feeley, tornar públicas informações sobre a suposta operação poderia colocar agentes norte-americanos em território venezuelano em risco. “A revelação confusa e contraditória do próprio presidente sobre a suposta operação clandestina, aliada à ausência de verificação independente, já prejudicou a eficácia dessa ação”, afirma o diplomata. Por outro lado, ele não exclui a possibilidade de uma situação em que, se o ataque não ocorreu, Trump acabaria parecendo apenas um líder confuso falando sem clareza.

No radar político, o ex-embaixador lembra que, se a ofensiva continuar, o presidente tem, na prática, três opções à mesa. As possibilidades, descritas com cautela por Feeley, vão desde ações de maior imposição militar até uma redução de ritmo ou comando de casa. A leitura dele é clara: “o governo americano tem todas as cartas na manga”, mas a forma de usá-las pode alterar drasticamente o curso da crise.

Entre os atores venezuelanos, Feeley citou María Corina Machado, apontando-a como uma líder da oposição a quem descreveu como uma “democrata com d minúsculo”. O diplomata reconheceu a relevância do Prêmio Nobel da Paz recebido pela oposicionista, mas comentou que o momento poderia estar sendo explorado para justificar intervencionismo. A comparação com Ahmed Chalabi, figura que apoiou a impulso de invasão ao Iraque, foi usada por Feeley para ilustrar como o uso de justificativas pode influenciar decisões externas. Segundo ele, Machado estaria, em sua leitura, recorrendo a pretextos como arma de destruição em massa — neste caso, associada ao fentanol — para pressionar o presidente Trump a agir contra o governo venezuelano.

Ao longo dos meses, Washington tem intensificado ações no Caribe e no Atlântico, alegando enfrentar o tráfico de drogas. Diversas embarcações foram alvo de ataques atribuídos a operações americanas, e milhares de vidas foram impactadas. Críticos do esforço têm descrito as ações como controversas e com questionamentos legais elevados. O governo de Nicolás Maduro, por sua vez, sustenta que não houve agressões comprovadas por parte dos EUA.

Entre as avaliações de Feeley, fica a observação de que a estratégia norte-americana carece de uma linha clara. “Não parece haver uma política desenhada com fim específico em mente”, disse o ex-embaixador, recomendando que, se o objetivo final é mudança de regime, essa finalidade deveria ser explicitamente declarada. Caso contrário, o risco de escalada descontrolada aumenta, e a credibilidade dos EUA diante da comunidade internacional fica em xeque.

Já em termos práticos, o diplomata aponta que, se o objetivo for manter pressão, o mais sensato parece ser uma combinação de demonstração de força e alinhamento de estratégias, sem abrir espaço a surpresas que possam colocar militares ou agentes no corredor de risco. “O que não se pode é caminhar para uma escalada sem uma justificativa sólida e verificável”, finalizou Feeley, sugerindo que o uso de força deve vir acompanhada de clareza estratégica para evitar danos colaterais e ampliar a segurança regional.

No âmbito das consequências para o leitor comum, a reportagem aponta que o debate não se resume a uma crise de alto nível entre governos. A tensão entre Washington e Caracas pode, no dia a dia, impactar a economia, o comércio e a vida de comunidades que vivem na fronteira e em áreas estratégicas do Caribe. Em meio ao ruído das informações conflitantes, a pergunta que fica é: o que isso muda na prática para quem está lendo ou assistindo às notícias sem estar diretamente envolvido?

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Jornalista

Sarah Martins

Jornalista especializada em lifestyle e decoração. Responsável por criar guias, tutoriais e reviews que realmente ajudam nas escolhas.

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