As teias de Vorcaro no poder: quem aparece nas mensagens do banqueiro nas mãos da CPMI
Conversas com a namorada revelam relações e encontros com figuras como Ciro Nogueira, Alexandre de Moraes, Lula e Hugo Motta
As mensagens do banqueiro Daniel Vorcaro que chegaram às mãos da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS revelam, de modo mais claro, o entrelaçamento entre o dono do Banco Master e autoridades de alto escalão. O material integra a investigação da Polícia Federal que resultou na prisão de Vorcaro, na quarta-feira (4/3), com a decisão de envios de documentos — incluindo conversas encontradas no celular do empresário — para a CPMI, que acompanha a atuação do Master no mercado de empréstimos consignados a aposentados e pensionistas. A BBC News Brasil teve acesso a trechos privados das conversas entre Vorcaro e sua então namorada, a influenciadora Martha Graeff. Nelas, o banqueiro comenta encontros e relações com figuras públicas, sugerindo uma rede de relações próximo aos corredores do poder.
Entre os desdobramentos das mensagens está a alegação de que Vorcaro integrava uma “organização criminosa” que agia de forma estruturada, com divisão de tarefas, conforme apontado pela PF. Os investigadores citam nomes de familiares, assessores e figuras públicas que, segundo o material apreendido, converteriam as conversas em pistas sobre como Vorcaro conduzia seus negócios e como buscava ter contato com autoridades para avançar seus interesses. Entre os mencionados, estão Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro, e Luiz Phillipi Mourão, apontado como responsável por monitorar adversários. Também aparecem o policial federal Marilson Roseno da Silva, além de referências a Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de fiscalização do BC, e Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária, que teriam exercido algum papel de consultoria para Vorcaro.
No dia a dia das conversas, a namorada Graeff surge como uma espécie de síndico das mensagens, com Vorcaro descrevendo encontros, visitas e encontros com autoridades. No conjunto de diálogos, o banqueiro fala de uma relação próxima com o senador Ciro Nogueira (PP-PI), descrevendo-o como “grande amigo” e mencionando planos de apresentá-lo a Graeff. Em outra passagem, Vorcaro comenta um “projeto de lei” apresentado pelo senador, descrevendo-o como uma medida que impacta o mercado financeiro — “uma bomba atômica” para os bancos médios e para diminuir o poder dos grandes. Graeff, por sua vez, registra entusiasmo com a repercussão, enquanto Vorcaro comenta que recebeu várias ligações e “sentiu o golpe”.
As tratativas com Ciro Nogueira não ficaram apenas nesse tom: as mensagens também relatam discussões sobre a autonomia do Banco Central e uma emenda apresentada pela própria figura política para ampliar o FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Embora a proposta não tenha avançado, as conversas revelam como o assunto financeiro e regulatório atravessava o dia a dia de Vorcaro e de seu círculo. Em paralelo, Graeff e Vorcaro conversam sobre convites para o casamento da filha de Nogueira, Duda, além de mencionar planos de participação em eventos familiares do político. O tom é, muitas vezes, de intimidade e proximidade com a esfera política.
Outro eixo relevante envolve Valorações a encontros com autoridades. As mensagens indicam que Vorcaro encontrou o ministro Alexandre de Moraes, do STF, em 19 de abril de 2025, descrevendo o encontro como algo próximo de casa. Graeff pergunta se Moraes estava no local, e Vorcaro confirma o encontro, citando que se encontraram em Campos do Jordão. As conversas mostram a existência de outros trechos em que o nome de Alexandre pode se referir a Moraes, ainda que sem confirmar se se tratava do ministro.
Nas mensagens, houve também menção a um contrato entre Vorcaro e o escritório de advocacia da esposa de Moraes, Viviane Barci de Moraes, registrado com valor de R$ 129 milhões e com pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões por três anos. O documento foi encontrado no celular do empresário no diagnóstico da Operação Compliance Zero, realizada em novembro, e aponta que o escritório prestava serviços jurídicos de forma recorrente. A relação com Moraes não foi alvo de pronunciamento pela assessoria do STF e o escritório não se manifestou publicamente sobre o contrato. Em resposta, a defesa de Vorcaro negou qualquer privilégio, afirmando que houve prisão preventiva sem que ele tivesse acesso prévio aos elementos que justificariam a medida.
Entre os encontros já publicizados, a troca de mensagens também aponta para uma reunião no Palácio do Planalto, com Vorcaro descrevendo o momento como “ótimo” e “forte” ao lado de Lula. A narrativa registra que o presidente recebeu Vorcaro e outros presentes após uma sequência de reuniões entre Mantega, o então ministro da Fazenda, e o chefe de gabinete da Presidência. Segundo as mensagens, o encontro teria ocorrido em dezembro de 2024, com a presença de ministros da Fazenda e de outros cargos próximos à gestão.
Outro capítulo envolve o vereador e político Hugo Motta, recém-eleito presidente da Câmara, citado em fevereiro de 2025 em Brasília. Vorcaro descreve estar num jantar na residência oficial com Hugo e seis empresários. Em março, ele menciona novos encontros com Hugo, além de citar a presença de Ciro em conversas com Alexandre, o que sugere a tentativa de articular interlocutores para abrir portas junto ao entorno do governo. Motta não respondeu aos contatos quando procurado pela reportagem.
Além das figuras de maior peso, as mensagens também mencionam o ex-presidente Jair Bolsonaro. Em julho de 2024, Vorcaro comenta sobre a repercussão de uma postagem de Bolsonaro ligada a gerentes da Caixa, descrevendo o tom do dia com termos contundentes e comentando que recebeu milhares de mensagens de apoio, o que ajuda a entender a pressão que se criava ao redor do tema. Em meio a essas conversas, surgem também referências a avaliações sobre o estado do mercado financeiro e críticas a movimentos de atores da política que aparecem repetidamente no conteúdo das mensagens.
Na visão da defesa, a prisão ocorreu sem que Vorcaro tivesse acesso prévio aos elementos que fundamentaram a medida, o que gerou questionamentos sobre a condução do processo. O advogado Roberto Podval cobrou transparência do STF sobre as datas das mensagens citadas na investigação, ressaltando a invasão de privacidade em dados tão sensíveis. Ainda assim, a reportagem destacou que Vorcaro continua colaborando com as investigações, mesmo diante do cenário de apuração em curso. Em paralelo, a PF manteve o foco na relação entre Vorcaro e o Master, que, segundo as informações disponíveis, atuava de forma relevante no setor de crédito consignado, área sob vigilância de órgãos reguladores e do Ministério Público.
Na prática, o conjunto de mensagens mostra como a vida pessoal, os vínculos familiares, as relações com figuras públicas e a atuação no universo financeiro podem entrelaçar-se de modo complexo. Entre encontros, planejamentos e avaliações sobre decisões políticas, fica evidente que Vorcaro operava em um ambiente onde o poder, o dinheiro e as redes de influência se cruzavam de modo próximo e, por vezes, ambíguo. Mas o que isso muda na prática para o cotidiano do cidadão comum? No fim das contas, trata-se de uma janela para compreender como dilemas de poder e regulação podem impactar, direta ou indiretamente, o ambiente em que milhares de aposentados e pensionistas dependem de crédito e de supervisão para a vida financeira diária.
Principais nomes citados: Ciro Nogueira, Alexandre de Moraes, Lula, Hugo Motta, Viviane Barci de Moraes, Fabiano Zettel, Luiz Phillipi Mourão, Marilson Roseno da Silva, Paulo Sérgio Neves de Souza, Belline Santana, Martha Graeff, Roberto Podval, Mantega.