TC réu por feminicídio intimidou PMs e culpou-os por mexer na cena

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Tenente-coronel réu por feminicídio intimidou PMs e tentou culpar a tropa por mexer na cena do crime

Agentes acompanharam o apartamento onde a soldado Gisele Alves morava com Geraldo Neto logo após a vítima ser encontrada. Ele contrariou orientação para não se lavar: “Vou tomar banho, irmão”. Defesa sustenta ausência de autoria.

No desenrolar de um caso que mobiliza a Polícia Civil e a Justiça, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, aparece nos registros como investigado por feminicídio e fraude processual. As imagens de câmeras corporais, registradas pela equipe que atendeu à ocorrência da soldado Gisele Alves Santana, revelam um cenário tenso, com desconfianças explícitas sobre o comportamento do oficial naquele momento crucial. Em meio a instruções para preservar a cena, Neto chegou a questionar e a desrespeitar orientações, inclusive quando a equipe pressionava para evitar qualquer ação que pudesse comprometer as provas, como o banho que poderia eliminar vestígios de pólvora.

O episódio, já descrito pela investigação, envolve a ida dos agentes ao apartamento onde a vítima residia com o militar logo após a morte, em circunstâncias que as apurações tentam esclarecer. Além de a defesa negar que o suspeito tenha assassinado a mulher, as cenas captadas mostram uma série de atitudes que alimentaram as “fortes desconfianças” entre os PMs presentes. O relatório de análise das imagens descreveu o comportamento do tenente como “suspeito” e apontou curiosidades na condução da apuração, como a proximidade do militar com um desembargador amigo e a sua insistência em cobrar decisões rápidas.

No dia a dia da investigação, o comandante envolvido pediu que ninguém mexesse no local e, ao mesmo tempo, Neto voltou a inserir a dúvida sobre quem poderia ter alterado o cenário. Em uma de várias passagens gravadas, o cabo Fernandes questiona: “Quem fez isso? A cena está preservada.” E o tenente-coronel não acomodou a leitura e, em vez disso, insistiu: “Isso aqui não estava assim, não fui eu.”

Chega-se a uma passagem marcante: o anúncio da suposta intenção de tomar banho por parte de Neto. A mulher dele havia sido encaminhada ao hospital, e o episódio de defesa da preservação da cena ganhou contornos dramáticos. Os agentes tentaram impedir que o militar entrasse no banho, temendo que os vestígios fossem eliminados, mas o diálogo registrado indica que o homem manteve sua versão inicial — de que estava tomando banho quando soube da situação — mesmo diante da insistência policial de que o local precisava seguir preservado.

O cabo Fernandes, em tom firme, reforça a necessidade de preservar as evidências. Um trecho do inquérito registra o fervor com que os presentes tentavam manter a cena intacta. O relato de Lucas, o outro policial envolvido, aponta desconfianças “fortes” em relação ao comportamento de Neto. Segundo o oficial, o militar não apresentava marcas de sangue no corpo, algo considerado atípico para quem está envolvido em uma situação violenta, o que alimentou ainda mais a linha de investigação de que poderia haver inconsistência na versão apresentada.

Entre as questões levantadas pela polícia, está a atitude de Neto de comunicar, imediatamente, a um desembargador — um amigo próximo — para acompanhar a ocorrência. O desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan foi ouvido pela Polícia Civil e afirmou ter atuado, segundo o relatório, como alguém leal ao amigo, sem qualquer intenção de influenciar o rumo da apuração. Ainda assim, a presença de um magistrado próximo entre os contatos do suspeito gerou uma leitura de que havia uma tentativa de blindagem ou de manejo da narrativa para respaldar a versão apresentadda pelo tenente.

Conforme o relatório final, as investigações indicam que a postura do magistrado manteve-se alinhada com a lealdade pessoal ao amigo, sem demonstração de intuito de direcionar a investigação. E, ainda que o depoimento do desembargador tenha sido considerado compatível com esse relacionamento, a análise concluiu que não houve indício de manobra para influenciar o caso de forma indevida.

Além disso, as câmeras corporais registraram trechos em que Neto descreveria detalhes do cenário: a arma, o local onde se encontrava, e informações que, para a polícia, indicaram uma narrativa que não batia com a cena do crime. A divergência entre o que ele dizia ter feito, e o que as imagens mostravam, ficou evidente para os investigadores, reforçando a linha de apuração que aponta para inconsistências na história apresentada pelo militar.

O conjunto de informações também destaca que, no momento em que a equipe tentava manter a cena preservada, Neto repetia que o local estaria preservado e que não fugiria. Em meio à tensão, o diálogo com o cabo Fernandes ganhou contornos de tensão acumulada, com o militar defendendo a própria versão, afirmando que precisava agir de acordo com o protocolo de serviço, enquanto o restante do grupo tentava assegurar as evidências para não comprometer as investigações.

Em síntese, a apuração descreve um quadro em que as atitudes do tenente-coronel são interpretadas pela corporação como sinais de conduta suspeita, especialmente em relação à preservação da cena, à comunicação com autoridades de fora da polícia e à coerência de suas declarações com o que foi registrado pelas câmeras. No fim das contas, a investigação permanece aberta, e a defesa sustenta que não houve prova suficiente de autoria, enquanto a Justiça continua acompanhando o desfecho do caso.

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Jornalista

Sarah Martins

Jornalista especializada em lifestyle e decoração. Responsável por criar guias, tutoriais e reviews que realmente ajudam nas escolhas.

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