Um ano após o tarifazo de Trump, impactos na economia global

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Um ano depois, como o tarifaço de Trump mudou a economia global

As tarifas dos Estados Unidos estão no nível mais alto em décadas. Mas qual tem sido o impacto?

Um ano após a adoção de tarifas agressivas, o cenário econômico dos Estados Unidos está marcado por um patamar histórico: a taxa efetiva média ficou em cerca de 10%, bem acima dos 2,5% registrados no começo de 2025. O movimento, que ficou conhecido como “Dia da Libertação”, prometia reacender a indústria interna, ampliar a arrecadação governamental e abrir novos mercados. No dia a dia, porém, os efeitos foram muito mais amplos: mudanças nas cadeias de suprimento, pressões sobre preços e um redesenho das relações comerciais globais. Entenda em quatro pontos como essas tarifas reverberaram pelo comércio global.

  • 1. A separação entre EUA e China se acelera. O anúncio de uma tarifa mínima de 10% sobre uma ampla gama de produtos importados abriu uma escalada que atingiu, por semanas, níveis de três dígitos em alguns itens. A resposta chinesa refletiu o padrão: tarifas próprias que, ao longo de 2025, deixaram o comércio entre as duas potências em terreno mais contido. No fechamento do ano, os produtos chineses enfrentavam tarifas cerca de 20% acima do que vinham cobrando no início do período. O resultado direto foi uma queda expressiva nas trocas: as importações dos EUA vindas da China recuaram por volta de 30%, e as exportações americanas para o país asiático recalaram em mais de 25%. Ao final de 2025, a participação da China nas importações norte-americanas caiu para menos de 10%, nível próximo ao observado em 2000 e muito aquém dos 20% de 2016. Mesmo assim, há sinais de que o desacoplamento não foi total, com aumentos de compras vindas de Vietnã e México. Para muitos analistas, a ruptura já está consolidada, mesmo que as tarifas não voltem a subir de forma tão agressiva. “Não se deve esperar um retorno ao normal”, afirma Davin Chor, professor da Tuck School of Business.
  • 2. Parceiros comerciais buscam alternativas. O conjunto de medidas foi mais amplo do que a simples cobrança de tarifas sobre automóveis, aço e madeira. Também houve o fim de regras que permitiam entrada de encomendas de até US$ 800 sem impostos. Mesmo com o salto tarifário, as importações dos EUA cresceram, ainda que a um ritmo mais modesto — acima de 4% no ano anterior, mas menor do que o registrado em 2024. O efeito prático foi uma corrida de vários países para diversificar clientes e mercados, levando a uma reconfiguração de parcerias. Países como Reino Unido, Alemanha, França e Polônia ganharam espaço, ao mesmo tempo em que os EUA buscaram manter sua remuneração para produtores, como agricultores, para vender no exterior. Em paralelo, o Canadá acabou liberando uma parte expressiva de produtos da tarifa, e reduziu drasticamente os impostos sobre milhares de veículos elétricos fabricados na China, de 100% para cerca de 6,1% — movimento que mexe com o equilíbrio de competitividade das montadoras norte-americanas. Como aponta Petros Mavroidis, professor de direito na Universidade de Columbia, o problema maior não é o nível das tarifas, mas o unilateralismo da abordagem.
  • 3. Tensões com aliados aumentam. O uso de tarifas também atingiu relações com parceiros próximos. A redução de viagens de canadenses aos EUA — em torno de 20% no ano anterior — gerou perdas estimadas em bilhões de dólares para a economia norte-americana. Além disso, a pressão tarifária complicou esforços para alinhavar cooperação em temas que vão desde a política internacional até questões de transações digitais. Economistas alertam que o poder de influência dos EUA pode ter ficado enfraquecido, abrindo espaço para que retaliações ou protecionismo sejam sentidos em outras frentes. O risco é que, com o tempo, a retaliação comercial se desdobre em outras formas de fricção entre países.
  • 4. Preços sobem nos EUA. A expectativa de grande choque de preços não se materializou completamente, porque muitas tarifas foram postas em prática com isenções ou ajustes com parceiros de acordo. Ainda assim, o impacto foi sentido: a inflação elevada ficou em volta de 3%, com parte significativa das novas tarifas — estimada em cerca de 55% pela Goldman Sachs — repassada aos consumidores. A economia does recuperou, com crescimento em torno de 2,1% e desemprego próximo de 4,4% no fim de 2025. A Suprema Corte dos EUA derrubou integralmente as tarifas do Dia da Libertação, abrindo caminho para devolução de parte da arrecadação, estimada em mais de US$ 260 bilhões. O governo sinaliza que as políticas serão retomadas, mas não nos moldes do ponto de partida. Enquanto isso, especialistas como Erica York, da Tax Foundation, lembram que não devemos esperar um retorno rápido aos níveis anteriores do período de 2017-2021.

Em síntese, o panorama é de transformação definitiva: as tarifas mudaram o ritmo do comércio global, forçaram empresas a repensarem cadeias de suprimento e colocaram o custo de vida dos consumidores em evidência. No dia a dia, cada leitor pode perceber impactos na inflação, nos preços de produtos que consomem e até na hora de planejar viagens ou compras internacionais. No fim das contas, o que muda para você e para a economia como um todo é a ideia de que a globalização precisa se redesenhar para conviver com mais proteção, menos dependência externa e uma nova ordem de alianças comerciais.

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Jornalista

Sarah Martins

Jornalista especializada em lifestyle e decoração. Responsável por criar guias, tutoriais e reviews que realmente ajudam nas escolhas.

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