O que o fenômeno da cultura coreana, com BTS, Guerreiras do K-Pop e doramas, pode ensinar ao Brasil
A cultura sul-coreana, hoje grande motor econômico, desponta com números que chegam a US$ 15 bilhões em 2025, segundo estimativas
Em pleno aquecimento da presença sul-coreana, o Brasil recebe bts pela primeira vez desde 2019, com shows marcados para 28, 30 e 31 de outubro no Morumbi, em São Paulo. A venda de ingressos começa nesta sexta-feira, e a organização da bilheteria chama a atenção com um esquema da Ticketmaster que une reserva online prévia, retirada e pagamento presenciais no local, justamente para evitar sobrecarga de sistemas nos dias de pico.
A força da paixão brasileira pela Coreia já aparece nas pesquisas. Segundo levantamento de 2022 da Fundação para Intercâmbio de Cultura Internacional da Coreia do Sul, 35,6% dos brasileiros consultados disseram que o BTS é o artista coreano de que mais gostam. Além disso, o Brasil figura entre os maiores públicos do k-pop, e a plataforma Spotify aponta que o país é o quinto maior consumidor do gênero no mundo. Ou seja, estamos, de fato, no centro da onda hallyu, a popularização da cultura coreana.
Do lado econômico, a Coreia do Sul vem apresentando números impressionantes: em 2024, as exportações do setor cultural atingiram US$ 14,1 bilhões, o maior patamar já registrado. As projeções para 2025 indicavam que esse total pudesse chegar a US$ 15 bilhões, consolidando o turismo cultural, a música, o audiovisual, a edição, os jogos e a animação como um dos motores da economia do país. O conjunto dessas exportações também gerou um superávit comercial superior a US$ 13 bilhões no ano anterior. Na prática, a cultura deixa de ser apenas entretenimento para se tornar ativo econômico de longo prazo.
No dia a dia, o ecossistema cultural brasileiro já sente o impacto: playlists com riqueza de conteúdos sul-coreanos, livrarias, cardápios temáticos, moda, beleza e até escolhas de estilo de vida passam a dialogar com inspirações estéticas do outro lado do planeta. Um caso emblemático é o de Adriana Milene Rodovalho, 38 anos, que saiu de Goiânia para morar em São Paulo buscando se aproximar do universo pop coreano; ela passou a frequentar eventos ligados ao k-pop, trabalhou em restaurantes para entender melhor a culinária asiática e, durante a pandemia, as canções do BTS serviram como abrigo emocional. “Parecia uma conversa direta comigo”, ela lembra.
Outra história de fãs que simboliza esse enlace é a de Igor Ribeiro Braga, 18 anos, de Conchal (SP). Desde a infância ele já curtia animes japoneses, mas com o tempo ampliou o interesse para grupos coreanos e doramas; hoje, afirma que a maior parte de suas músicas é de origem asiática e que coleciona álbuns de k-pop, tendo sido ao show do BTS em 2019. Mesmo na vida adulta, o universo de fã permanece vivo.
Para consolidar esse vínculo de fãs com conteúdo coreano, o Centro Cultural Coreano do Brasil está lançando, neste mês, o Clube de K-Drama, com encontros mensais na biblioteca da avenida Paulista, em São Paulo. Em abril, o título escolhido é “Bon Appétit, Vossa Majestade” (2025), e em maio será a vez de “Uma Advogada Extraordinária”. O centro já havia inaugurado, no ano anterior, um Clube do Livro para explorar obras relevantes da literatura sul-coreana. Além das séries, o êxito da produção audiovisual coreana — coroado com o Oscar de melhor filme em 2020 para Parasita — continua a moldar novas tendências, como a série de prêmios e o desempenho histórico de filmes da indústria.
Enquanto isso, o cinema e a televisão coreanos avançam no streaming: quando o longa Guerreiras do K-Pop chegou à Netflix, tornou-se título mais visto da plataforma por meses; e títulos como Golden valeram novos recordes em paradas globais. Na literatura, Han Kang, em 2024, tornou-se a primeira autora sul-coreana a vencer o Prêmio Nobel, uma conquista que dialoga com a presença de editoras como Todavia, Intrínseca e Rocco no Brasil. Esse mosaico de conteúdos reforça a noção de que o fenômeno coreano está se tornando um ecossistema cultural estável por aqui, de ficção premiada a histórias contemporâneas com apelo emocional.
O movimento também está alinhado a um impulso de moda, gastronomia e tecnologia. Em São Paulo, espaços dedicados à culinária sul-coreana se multiplicam em zonas como Bom Retiro e Liberdade, enquanto marcas vindas do país asiático chegam com propostas que mesclam alfaiataria italiana e referência streetwear, mantendo um toque brasileiro. Como exemplo, o empresário Bruno Choi lançou, em 2024, a Cohí, que abriu loja física na Vila Olímpia. “O público busca referências novas e, ao mesmo tempo, valoriza qualidade de design”, ele resume, destacando a ideia de integrar heranças culturais com o tom local.
Essa expansão cultural é discutida também sob a ótica da política pública. Um estudo da Fundação Getulio Vargas aponta que a cultura sul-coreana desenvolveu um ecossistema de cooperação entre governo, mercado e público, criando condições para a internacionalização de artistas e empresas criativas. Para Leonardo Neves, pesquisador da FGV, esse conjunto funciona como um “ecossistema integrado” que atravessa governos, oferecendo previsibilidade para investimentos em música, cinema, moda e educação. Ainda segundo ele, a circulação internacional do conteúdo coreano se intensificou com o amadurecimento das plataformas de streaming, que ajudam a abrir mercados na Ásia, na Europa e na América Latina. O estudo também aponta que conteúdos podem circular entre artes, criando vínculos entre fãs, produtores e instituições.
O papel das agências públicas também é citado como fundamental. A Kocca (Korea Creative Content Agency) tem trabalhado para facilitar exportações, promover coproduções e facilitar a entrada de conteúdos coreanos em novos mercados. No Brasil, a presença dessa atuação foi fortalecida com a abertura de um escritório local em 2025. O Centro Cultural Coreano no Brasil, por sua vez, amplia a difusão por meio de mostras, cursos, exposições e iniciativas educacionais. Para Cheul Hong Kim, diretor, o interesse brasileiro não decorre apenas de influências institucionais, mas encontra terreno fértil no público, que demonstra abertura para aprender também sobre língua, gastronomia e artes.
Além disso, o diálogo entre Brasil e Coreia do Sul se estende ao campo regulatório. Em fevereiro, autoridades de ambos os países reuniram-se no Ministério da Cultura para tratar de cooperação em temas como inteligência artificial e direitos autorais, incluindo estratégias de proteção de conteúdos digitais e adaptação de políticas aos desafios tecnológicos. O olhar estratégico da Coreia para a cultura não é apenas estética: serve como referência para políticas públicas que conectem produção criativa, dados setoriais e planejamento de longo prazo. E o Brasil, por sua vez, busca transformar esse aprendizado em oportunidades reais para artistas, empresas e público em geral.
No fim das contas, o momento atual aponta para uma janela de oportunidade rara: alinhar políticas, mercado e formação profissional para ampliar a presença brasileira no cenário criativo global. O case de BTS e do mosaico cultural sul-coreano mostra que talento, planejamento público e engajamento do público podem estimular uma indústria criativa capaz de sustentar ciclos de produção, exportação e consumo — beneficiando leitores, fãs e pessoas comuns que consumem cultura com prazer e curiosidade.