Sobreviventes do ataque com míssil em bombardeio dos EUA à Venezuela

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‘Nunca pensei que fossem me atacar’: os sobreviventes de ataque com míssil durante bombardeios dos EUA à Venezuela

Um míssil atingiu um edifício no litoral da Venezuela durante o ataque dos EUA que resultou na captura de Nicolás Maduro, matando uma moradora idosa. Os sobreviventes contam o que aconteceu.

Foi no 2h da manhã que o impacto chegou ao Bloco 12, um antigo conjunto residencial próximo à Academia da Marinha Bolivariana, em Catia La Mar, a cerca de 35 km de Caracas. O disparo, parte de uma ofensiva que mirava instalações militares e de comunicações, deixou um rastro de destroços que mudou a vida de quem ali mora. Entre os civis afetados, muitos se viram, de repente, no meio de uma madrugada que se transformou em pesadelo.

Entre os moradores, estava Wilman González, um eletricista de 54 anos, que descreve a noite como um abrir de olhos para uma nova realidade. “A onda explosiva me arremessou contra a parede”, relembra, ainda surpreso por ter conseguido se pôr de pé para socorrer os irmãos que ficaram atordoados com o golpe. No momento imediatamente seguinte, o prédio inteiro parecia ruir ao redor.

A tragédia não poupou quem morava ao lado. A tia Rosa, 79 anos, dormia no quarto ao lado e, apesar de os familiares terem tentado, não houve tempo para salvá-la. Ela foi atingida pelo colapso de parte da estrutura e, mesmo com a tentativa de remoção para um hospital, acabou não resistindo. A cada passo, a violência do choque parecia ganhar contorno na memória de quem viu tudo acontecer.

As autoridades venezuelanas mencionaram um saldo de cerca de 100 mortes, entre civis e militares, em meio a uma operação que se estendeu a várias áreas próximas à base militar. Enquanto o país encara as consequências, o cenário político ao redor de Nicolás Maduro também teve desdobramentos: ele permanece detido em Nova York, enquanto Delcy Rodríguez assumiu a condução do governo, sob supervisão internacional.

O relato de González mostra o que se acredita ser o lado humano de uma situação extrema. O próprio Bloco 12, que ficou visivelmente reduzido, tornou-se símbolo de um dos episódios mais marcantes da história recente da Venezuela. O governo informou ainda que restos do míssil foram recolhidos, enquanto as famílias tentam reconstruir o que foi perdido.

Outro morador, Jorge Cardona, 70 anos, descreveu a sensação de estar no ambiente quando o teto parece desabar. Ele foi arremessado para o corredor, e a parede do vizinho acabou atingindo a sala onde ele estava. “Estamos vivos por milagre”, resume, lembrando que a explosão destroçou móveis e espalhou destroços por toda parte.

Jesús Linares, de 48 anos, foi despertado por um zumbido intenso que ele acreditou ser fogos de artifício. A presença da filha de 16 anos no quarto ao lado fez com que ele agisse rapidamente, retirando-a da cama, antes de os impactos seguintes destruírem a entrada da casa. “Para o chão, jogue-se no chão” tornou-se o seu verbo de comando, enquanto ele, com a ajuda de um lençol, improvisou curativos para conter uma hemorragia em uma vizinha, ao mesmo tempo em que protegeu sua mãe de 85 anos. A família se manteve unida e com vida graças ao instinto de sobrevivência e à atuação de profissionais de resgate, incluindo um coronel dos bombeiros com 28 anos de serviço, que agiu para salvar a vizinha ferida e manter a calma em meio à tragédia.

Hoje, Linares participa ativamente das tarefas de reconstrução do Bloco 12 e permanece abrigado em casa de parentes, junto da filha e da mãe. Ele diz que, apesar das dificuldades, há uma determinação para reconstruir o que foi perdido e retomar a vida o mais rápido possível. Contudo, o trauma permanece: a lembrança de que, naquela madrugada, o relógio despertou os moradores exatamente no momento em que o ataque atingia suas casas, reavivando lembranças que ninguém quer reviver.

No fim das contas, os relatos mostram que as consequências de um conflito vão muito além das fronteiras oficiais: chegam às paredes de apartamentos, às camas de quem dorme, às histórias de famílias que precisam se reorganizar. E levantam uma pergunta prática para o dia a dia de quem lê: como viver com a possibilidade constante de que eventos de grande escala possam virar o cotidiano de pessoas comuns?

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Jornalista

Renata Oliveira

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