Slowjamastan: a mais nova ‘nação’ do mundo que você talvez não conheça

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Slowjamastan: a mais nova ‘nação’ do mundo, da qual você nunca ouviu falar

Com território pouco maior do que seis campos de futebol, a República de Slowjamastan conta com 25 mil ‘cidadãos’, que buscam no micropaís um refúgio das divisões políticas atuais ou simplesmente se divertir.

Entre as fazendas de tâmaras do vale de Coachella, na Califórnia, e a linha da fronteira com o México, surge uma faixa de deserto de tom cáqui que parece não ter dono. É ali que fica Slowjamastan, a mais jovem micronação do mundo. O território, com pouco mais de 4,5 hectares, costuma passar despercebido pelos motoristas, mas basta atravessar a fronteira improvisada para que o mundo real se dissolva em uma espécie de fantasia organizada. No coração do território, surgem símbolos, placas e uma ideia: e se um país inteiro pudesse nascer de uma brincadeira criativa?

No texto que apresenta esse cenário, o país brinca com símbolos e regras curiosas. A constituição proíbe o uso de crocs e, surpreendentemente, impede que mensagens distribuídas por toda a equipe de e-mail (em “responder a todos”) saiam de forma automática – tudo por lei. No dia a dia, ultrapassar a velocidade não é crime, desde que seja para chegar em casa com tacos de basquete, uma licença divertida para o humor local. O animal símbolo é o guaxinim, que decide em grande parte o visual da bandeira. E o centro de tudo está no Sultão Randy Williams, figura pública da região, conhecido no rádio como R Dub.

Além de administrar audaciosas apostas de identidade, Williams é uma espécie de viajante inspirado. Desde 1994, ele comanda o programa Sunday Night Slow Jams, que já é retransmitido por centenas de emissoras ao redor do mundo. Apaixonado por jornadas e por conhecer na prática o mapa mundial, ele sonhava em visitar cada país reconhecido pela ONU. Quando o mundo entrou em lockdown, no início de 2020, a vontade de viajar ganhou um novo formato: por que não criar um país?

Foi nessa faísca que tudo começou, com um amigo próximo, Mark Corona, rindo da ideia no início. A dupla começou a transformar a fantasia em projeto: buscou um terreno acessível, com mais de dois hectares, próximo a uma estrada de asfalto e a uma distância viável de San Diego. O terreno escolhido era uma mesa de rocha vazia, coberta de areia, que acabou sendo adquirido por US$ 19,5 mil (aproximadamente R$ 100 mil). O passo seguinte foi simples e simbólico: uma mesa presidencial foi trasladada de Phoenix até o deserto, e o território ganhou placas, postos de fronteira e a linguagem de uma nação nascente.

Logo, o que era brincadeira ganhou contornos reais. As placas foram reposicionadas para respeitar as normas de trânsito, e o nome Slowjamastan entrou no vocabulário. Em pouco tempo, cruzou-se a linha entre curiosidade local e instituição satírica: passaram a existir passaportes, moedas locais e guichês de imigração, além de uma cerimônia de hasteamento da bandeira. Williams então se proclamou Sultão e passou a vestir roupas que lembram a teatralidade de outras lideranças históricas, com um sotaque escolhido para a ocasião. Não foi exagero: ele investiu em uma persona que, no palco do deserto, dava vida a uma verdadeira identidade nacional.

Para organizar o território, Slowjamastan passou a ser estruturada em estados, incluindo Dublândia, Bucksylvania e o Reino de Hotdamnastan. E até a criação de uma peça musical que funciona como hino nacional, com direito a letra em versão adaptada da melodia de Rocket Man, de Elton John. O que antes era brincadeira ganhou um convite aberto a quem quisesse se envolver: a cidadania é gratuita, e também há títulos para quem quiser ocupar cargos no parlamento ou representar a nação em outras funções. Em contrapartida, cargos oficiais cobram taxas, variando de US$ 10 a US$ 25 mensais, mas a cidadania permanece aberta para todos.

Hoje, a micronação afirma ter cerca de 25 mil cidadãos registrados, vindos de 120 países. Embora muitos mantenham vínculos distantes, o interesse aparece quando as cerimônias nacionais são abertas a visitantes e o território recebe símbolos da curiosidade global. A primeira embarcação de Slowjamastan, batizada de SS Badassin, funciona mais como símbolo do espírito: de qualquer forma, o objetivo é “proteger” a terra do contrabando e, quem sabe, entreter.

Outro elemento da mitologia local são as cerimônias de aceitação de novos cidadãos, que pode acontecer pela simples decisão de participar de um formulário on-line, conectando pessoas à experiência única de Slowjamastan. O Sultão faz questão de esclarecer que o território não é dele; Slowjamastan não me pertence, ele diz, antes de reconhecer que, na prática, ele é o ditador, e o país, mais do que uma liderança, pertence a todos. Para muitos, a força está na comunidade — um lugar onde políticas reais não competem com a fantasia conectada a viagens.

Para além do deserto, a história ganha contornos ainda mais globais: o país já organiza o MicroCon 2027, uma conferência que reúne micronações de várias regiões, com a promessa de reunir delegações de mais de 40 entidades autoproclamadas. Entre os nomes que aparecem nas expectativas, estão iniciativas como a República de Bomber ou a Ilha do Dragão. Nas palavras do próprio site da conferência, é ali que “o cosplay encontra a diplomacia”.

Enquanto Slowjamastan constrói Philias de fronteiras imaginárias, o Sultão não esconde o desejo de que o território seja um espaço de encontro entre culturas. O visitante é bem-vindo, diz ele, e as visitas podem se tornar parte de uma experiência de viagem que une pessoas ao redor do mundo, seja de modo lúdico ou com o interesse de entender o fenômeno das micronações como expressão cultural recente. E, em maio de 2023, Williams completou a sua lista de países visitados com o Turcomenistão, fechando um ciclo que começou na infância com o sonho de ver o mundo de perto.

No fim das contas, Slowjamastan aparece como um território que foge das convenções, mas que também afirma uma verdade simples: às vezes, a curiosidade humana e o desejo de ver o mundo de formas inusitadas criam pontes reais entre pessoas, sem a pretensão de governar de verdade. O que parecia uma brincadeira nasceu como experiência de vida, conectando histórias, viagens e a imaginação de quem sempre quis ver o planeta com outros olhos.

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Jornalista

Carlos Ribeiro

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