Série mostra cidade em bunker — mas isso seria possível?
Engenheiros explicam os desafios de energia, água e estrutura para manter uma cidade subterrânea como a mostrada na série Paradise
Na trama de Paradise, que ganhou sequência no Disney+, o enredo se volta para uma metrópole escondida debaixo da terra. A vida ocorre em um grande bunker concebido para proteger milhares de pessoas após uma previsão de catástrofe global. A ideia não é apenas ficção: estima-se que cerca de 25 mil pessoas passem a viver ali, em um ecossistema fechado que precisa funcionar sem contato com o exterior. Mas será que uma cidade subterrânea como essa seria viável na prática?
Especialistas ouvidos pela Virginia Tech ajudam a separar técnica de ficção. Segundo Ali Mehrizi-Sani, professor de engenharia elétrica e de computação, a série parte de princípios realmente conhecidos, ainda que extrapole em várias frentes. “Grande parte do que Paradise mostra tem base na engenharia, mas vai muito além do que está disponível hoje”, avalia. Em outras palavras: há fundamentos reais, porém a escala e o detalhamento ultrapassam o que é tecnicamente viável hoje.
Já as instalações subterrâneas de fato existem em diferentes contextos. Nessa linha, Mehrizi-Sani cita projetos e estruturas reais como referências: bunkers capazes de abrigar pessoas por longos períodos já existiram em diversos países. “O que a série acerta é que um empreendimento dessa magnitude exigiria planejamento prolongado e investimentos elevados”, comenta. E completa: para chegar a uma cidade subterrânea com dezenas de milhares de habitantes, só com recursos financeiros bem acima da média — ou, como ele brinca, dinheiro sobrando, para usar as palavras dele.
No campo da energia, a produção elétrica continua sendo um dos maiores obstáculos. O Aspectus Group aponta várias possibilidades, dependendo do desenho do projeto. Dentre as opções, a energia geotérmica surge como candidata central para fornecer eletricidade, aquecimento e refrigeração sem depender de estruturas na superfície. Em cenários de catástrofe global, em que sistemas solares ou eólicos poderiam falhar, a geotérmica aparece como uma aposta mais estável. Além disso, fontes fósseis com captura de carbono também poderiam manter o sistema de filtragem ambiental dentro de um bunker. E há ainda a ideia de gerar energia a partir de resíduos, o que ajudaria tanto a produção de energia quanto o tratamento do lixo. Por fim, reatores nucleares modulares aparecem como opção, ainda que com maturidade tecnológica menor em relação às demais.
Reservatórios de água, circulação de ar e infraestrutura de suporte exigem controle rigoroso. Para manter um ecossistema fechado, é essencial tratar e filtrar água com cuidado e garantir ventilação adequada para evitar contaminações. Mehrizi-Sani aponta que, já hoje, algumas estruturas autossuficientes funcionam bem — especialmente em escala menor. Ele cita instalações militares nos EUA, como Cheyenne Mountain, no Colorado, e Raven Rock Mountain Complex, na Pensilvânia, que já operam com sistemas internos de apoio. Além disso, radares remotos nos EUA e Canadá funcionam como microrredes autossuficientes, enquanto submarinos nucleares podem operar por 20 a 30 anos sem reabastecimento. No dia a dia, isso mostra que autossuficiência não é impossível; é apenas uma questão de escala e planejamento.
Mas onde a série inventa demais? De forma marcante, a parte estrutural é um ponto sensível na prática. Segundo o geólogo Nino Ripepi, tornar viável uma área subterrânea tão ampla e aberta exigiria reforços constantes: pilares, parafusos de ancoragem no teto e tecnologias para impedir o colapso da caverna. “Um espaço aberto tão grande com 25 mil habitantes seria uma construção instável do ponto de vista geológico e do controle do solo”, ele aponta. Além disso, a ambientação subterrânea tende a ser menos organizada e mais suja na vida real, e a iluminação não seria idêntica à luz solar; o uso de LEDs é mais provável, com a necessidade de remover o calor gerado pelos sistemas para evitar superaquecimento.
Ainda que as dificuldades de engenharia sejam imensas, não faltam exemplos reais de comunidades criadas sob a superfície. A BBC destaca Derinkuyu, na Turquia, uma antiga cidade subterrânea com muitos níveis de túneis e profundidade superior a 85 metros, que abrigou milhares de pessoas por séculos. Há também Coober Pedy, na Austrália, cidade mineradora onde grande parte das construções fica debaixo do solo para escapar do calor extremo. Em geral, casas subterrâneas costumam ficar a pelo menos quatro metros de profundidade, mantendo temperaturas estáveis ao longo do ano — mas, claro, viver assim de forma autossuficiente e com dezenas de milhares de habitantes ainda é um enorme desafio técnico e financeiro.
No fim das contas, a ideia de uma cidade subterrânea autossuficiente desperta fascínio e curiosidade. Em termos práticos, o conceito envolve vencer barreiras de energia, água e estruturas profundas, sem perder a qualidade de vida dos moradores. As possibilidades tecnológicas existentes ajudam a reduzir alguns entraves, porém a escala — pensar em dezenas de milhares de pessoas vivendo sob a terra — transforma o desafio em um projeto de longa gestação, com custos astronômicos e planejamento que se estende por décadas. Ainda assim, a conversa entre ficção e engenharia continua rendendo debates saborosos para quem gosta de pensar o futuro de perto.
- Energia: geotérmica, carbono na queima de fósseis com captura, energia de resíduos ou reatores modulares
- Água e ventilação: tratamento, filtragem e controle ambiental de um ecossistema fechado
- Estrutura geológica: estabilidade de grandes cavernas exige pilares e ancoragens robustas
- Custo e tempo: décadas de planejamento e investimentos significativos são inevitáveis
- Conforto e operação: manter condições estáveis e hábitos de vida equilibrados para os habitantes