Sangue oculto derruba versão do ten-coronel suspeito de feminicídio

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Como evidências de sangue ocultas desmentiram versão de feminicídio atribuída a tenente-coronel em SP

Manchas foram identificadas com uso de luminol na roupa e no apartamento onde soldado foi morta. Laudo aponta que a cena do crime foi alterada para forjar suicídio. Geraldo Neto nega ter matado a mulher

Em meio a uma investigação de alta tensão, a Polícia Civil aponta um desfecho que muda completamente o tom do caso: as evidências de sangue, detectadas por luminol, sugerem que o corpo da vítima foi movido após o disparo e que a cena foi manipulada para simular um suicídio. No centro da controvérsia está o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, que hoje responde por feminicídio e fraude processual. A prisão ocorreu em 18 de março de 2026.

No dia a dia, o caso ganhou contornos de intriga familiar: Gisele Alves Santana, soldado da Polícia Militar, foi encontrada morta, e inicialmente o registro oficial apontava suicídio. Contudo, relatos de familiares da vítima, com histórico de comportamento considerado agressivo por Neto, levaram as autoridades a reclassificar o episódio. Em relatório ampliado, a perícia detalha uma dinâmica de crime que não condiz com a versão apresentada pelo investigado.

Segundo o laudo, o disparo ocorreu de baixo para cima e do lado direito da têmpora de Gisele. Ainda assim, a análise de imagens feitas por socorristas aponta uma trajetória de sangue que desce diagonalmente pelo corpo, sugerindo que a posição da vítima foi alterada depois do disparo. Essa inconsistência é descrita pela própria polícia como uma prova técnica direta de que houve manipulação da cena e reposicionamento da vítima antes da intervenção de socorro.

Além disso, o documento aponta que o sangramento não condiz com a posição encontrada pela equipe de resgate, indicando que o corpo pode ter sido reposicionado para ocultar a dinâmica real do crime. A polícia destaca que a análise hemodinâmica demonstra, de forma objetiva, que a cena foi alterada, com a remoção de elementos da vítima e reposicionamento antes da chegada dos socorristas. No conjunto de evidências, fica evidente que o investigado teve contato físico com o sangue e, em seguida, lavou-se para eliminar vestígios, o que contrasta com as alegações de que não teria tocado na vítima nem na arma.

Entre as evidências mais contundentes, destacam-se as marcas de sangue na bermuda do suspeito, consideradas decisivas para entender a sequência do evento. As manchas apresentam padrão de gotas e não de simples respingos pelo contato com superfícies, o que sustenta a hipótese de uma atuação durante o sangramento ativo da vítima. A investigação sustenta que a única explicação tecnicamente compatível com o conjunto de provas é a presença física do investigado no raio imediato do corpo no momento do sangramento, o que contraria a versão de que ele não manteria qualquer contato com a vítima.

O relatório também aponta que o policial não apenas teria estado próximo da vítima, como, supostamente, entrou no banheiro já impregnado de sangue e lavou-se no chuveiro antes de acionar o socorro. Com isso, o documento sugere uma conduta deliberada de destruição de evidências. Em síntese, essa linha de raciocínio técnico aponta para uma conduta dual: a prática de feminicídio associada à fraude processual, pois deslocaria a cena para esconder a verdadeira dinâmica do fato.

Para a polícia, as evidências não deixam dúvidas sobre o padrão das manchas na bermuda de Geraldo Neto: o formato e o fluxo do sangue sugerem que o investigado esteve perto da fonte de sangramento durante o momento crucial. A avaliação conclui que o sangue, com características morfológicas de gotejamento, indica uma trajetória descendente compatível com a presença física do acusado no momento do ferimento, o que é incompatível com a narrativa de que não houve qualquer contato.

No fim das contas, os peritos ressaltam que os vestígios de sangue encontrados no interior do box, na parede, no piso, em registros de água e até em uma toalha, reforçam a tese de adulteração da cena. A leitura técnica aponta que o investigado provavelmente entrou no ambiente já com sangue no corpo e, diante da necessidade de apagar evidências, lavou-se como etapa de destruição de vestígios. Com esse conjunto de informações, a polícia reitera que o caso não pode ser entendido apenas pela primeira versão apresentada, pois a dinâmica do crime aponta para uma sequência distinta do que foi narrado inicialmente pelo acusado.

O desfecho jornalístico desta história envolve, portanto, uma combinação de elementos que vão além do crime em si. Trata-se de como as evidências, quando bem analisadas, revelam camadas que nem sempre aparecem de imediato na versão oficial. No dia a dia, fica a dúvida sobre como essas descobertas devem impactar a condução de casos semelhantes e a forma como a sociedade entende a atuação de autoridades em situações de violência contra a mulher. E você, o que pensa sobre a importância de uma investigação minuciosa que vai além do relato inicial?

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Jornalista

Fernanda Costa

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