O que sobrou do programa nuclear do Irã — e ele é uma ameaça como alega Trump?
Entre ataques, fiscalização internacional e incertezas, o debate sobre o Irã nuclear permanece no centro das atenções.
O programa nuclear iraniano voltou a ganhar destaque internacional, com sinais de tensão no cenário regional e movimentos de potências globais. Nos últimos dias, as informações sugerem que Teerã mantém o foco civil da energia e da medicina, enquanto a comunidade internacional acompanha de perto qualquer passo que possa indicar retomada de atividades mais sensíveis. Do lado de fora, há quem sustente que o Irã não pode dispor de uma arma; do outro, as perguntas sobre quanto ele avançou permanecem em aberto. Além disso, a região continua observando de perto cada gesto de Washington, Tel Aviv e aliados estratégicos.
Como está o panorama atual? Em meio a uma briga que já envolve alianças regionais, histórias de ataques e avaliações de inspeção, o Irã viu instalações nucleares-chave alvo de ações militares durante um conflito que ficou conhecido como a guerra de 12 dias entre Israel e o Irã, ocorrida em junho do ano passado. O que se sabe é que, nesse episódio, os Estados Unidos chegaram a atacar três alvos nucleares iranianos — incluindo o maior complexo de pesquisa nuclear do país, em Isfahan, bem como instalações em Natanz e Fordo, usadas para o enriquecimento de urânio. Naquele momento, Trump afirmou que as instalações haviam sido “destruídas”. Já no campo técnico, a Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA) indicou que os danos foram severos, mas não totais, o que manteve a possibilidade de retomada de atividades de enriquecimento em um futuro próximo.
Em termos quantitativos, a agência estimou que, no momento do ataque, o Irã possuía um estoque de 440 quilos de urânio enriquecido até 60% de pureza, um patamar que, com etapas adicionais, pode aproximar-se do nível ideal para armas nucleares. Segundo Rafael Grossi, na época, esse volume, manipulado de forma adequada, poderia sustentar a produção de aproximadamente dez bombas caso o enriquecimento fosse elevado ainda mais. Esses números ajudam a entender por que a comunidade internacional mantém o tema na agenda mesmo diante de diferentes interpretações sobre o que significa, na prática, “estar longe de uma arma”.
As leituras mais recentes apontam incertezas significativas. Em novembro, Abbas Araghchi, então ministro das Relações Exteriores do Irã, afirmou que o enriquecimento de urânio havia sido paralisado. Já no mês seguinte, em entrevista à Fox News, o próprio governo iraniano ressaltou que, embora tenha destruído instalações e máquinas, a tecnologia não é passível de bombardeio, e que a determinação política não pode ser destruída. Por outro lado, a avaliação de organizações internacionais indicou que inspeções limitaram-se a um conjunto de instalações controladas, e que ainda havia lacunas em termos de estoque e do estado dos locais de enriquecimento. Em janeiro, a IAEA comunicou que havia inspecionado 13 instalações não atingidas por ataques, mas não as três principais, além de ter passado sete meses desde a última verificação abrangente do estoque de urânio enriquecido do Irã.
Como chegamos a essa situação? O Irã mantém a justificativa de que suas atividades nucleares são estritamente civis, em linha com o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), que permite usos pacíficos da tecnologia. No entanto, a IAEA publicou, ao longo das décadas, registros de atividades relevantes para o desenvolvimento de um dispositivo explosivo nuclear entre o fim dos anos 1980 e 2003, associadas ao histórico conhecido como Projeto Amad. Esse marco foi considerado encerrado pela própria agência em 2015, quando o Irã assinou um acordo com as grandes potências que estabeleceu limites rigorosos, incluindo o enriquecimento a até 3,67% — nível adequado para geração de energia — e a suspensão de atividades em Fordo sob monitoramento reforçado. Em 2018, a saída dos Estados Unidos do acordo complicou o cenário: o Irã acabou violando os limites ao enriquecer urânio a 60%, introduzir centrífugas avançadas e trazer de volta o enriquecimento em Fordo. Em 12 de junho de 2025, o Conselho de Governadores da IAEA reconheceu oficialmente a violação das obrigações de não proliferação pela primeira vez em duas décadas; no dia seguinte, Israel lançou ataques aéreos contra alvos iranianos. A partir daí, o Irã tem mostrado sinais de continuidade de trabalhos em instalações nucleares.
O que tem sido observado nos bastidores? Imagens de satélite sugerem atividade recente nas instalações de Natanz e Isfahan. Em Isfahan, por exemplo, entradas para o complexo de túneis parecem ter sido seladas com terra, e um novo teto foi erigido. Em Natanz, o mesmo tipo de reforço aparece nas estruturas, além de reforços em uma fortificação subterrânea conhecida como Monte Kolang Gaz La, ou Montanha da Picareta, localizada a cerca de dois quilômetros ao sul da instalação de Natanz. Esses sinais levantam a hipótese de que, mesmo sob pressão externa, o Irã continua fortalecendo suas defesas e infraestrutura, mantendo a capacidade de retomar atividades com maior velocidade quando quiser.
Mas quanto tempo levaria, na prática, para transformar urânio enriquecido em uma arma? A leitura não é simples. Uma avaliação da Agência de Inteligência de Defesa dos Estados Unidos, realizada em maio do ano anterior, sugeriu que o país poderia produzir urânio enriquecido com fins bélicos em provavelmente menos de uma semana, se decidisse avançar por esse caminho. No entanto, há divergências sobre a viabilidade de converter esse material em ogivas prontas para uso. Enquanto alguns analistas afirmam que o Irã já demonstrou, ao longo dos anos, capacidades técnicas relevantes, outros destacam que não há consenso sobre o momento exato em que o país poderia chegar a uma arma efetiva. E mesmo entre as informações mais repetidas, existem vozes que ressaltam que o Irã pode ter retornado a uma rota de desenvolvimento de componentes de armas, especialmente após o esfriamento das negociações desde o acordo de 2015.
Por que tudo isso traz preocupação? Para muitos líderes ocidentais, a presença de uma arma nuclear iraniana seria um marco de instabilidade regional. Em seus discursos, Trump já repetiu que um Irã com arma nuclear poderia “destruir o mundo” ou, na prática, mudar drasticamente o equilíbrio de forças no Oriente Médio. O primeiro-ministro britânico da época enfatizou que esse cenário elevaria a tensão na região e dificultaria qualquer tentativa de gestão de crises. Para analistas como H. A. Hellyer, do Royal United Services Institute, o efeito mais provável seria uma dissuasão mútua entre potências, em vez de uma escalada imediata; ainda assim, o rosto de segurança regional continuaria vulnerável a mal-entendidos e erros de cálculo. Em resumo, o maior risco envolve pequenas decisões que, no calor de confrontos, podem desencadear consequências imprevisíveis.
No fim das contas, o que fica para o leitor comum é a sensação de que a história do Irã nuclear não é um enredo fechado. Há avanços técnicos, intervenções políticas, inspeções diferentes e uma leitura em que não há vencedores fáceis. A cada nova checagem de dados, o debate se renova: é possível manter o uso civil da energia sem abrir portas para uma arma? E, mais importante, como o mundo pode se manter estável diante de potenciais mudanças de curso tão sensíveis à geopolítica? Enquanto isso, a região observa, acompanha o ritmo de cada passo e espera por sinais mais claros de uma trajetória que reduza as incertezas sem abrir mão da segurança de todos.
- Pontos-chave: o estoque de urânio enriquecido, o nível de pureza, a situação de Fordo, Natanz e Isfahan, as avaliações da IAEA e as leituras dos serviços de inteligência sobre o ritmo de desenvolvimento.