Relato de ativista preso por mais de 4 anos na Venezuela

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O relato de ativista que passou mais de 4 anos preso na Venezuela: ‘Fazíamos as necessidades onde nos serviam a comida’

Após anos de cárcere, Javier Tarazona relembra a desumanização vivida no Helicoide e o marco de sua libertação, em meio a tensões políticas que abalaram o país

Entre os relatos mais impactantes sobre violação de direitos humanos na Venezuela, o testemunho de Javier Tarazona ocupa lugar de destaque. O ativista de direitos humanos ficou mais de quatro anos e sete meses detido, em condições que ele descreve como extremamente desumanas, no Helicoide, a prisão mais conhecida de Caracas. Ao recontar o período, ele afirma que a imagem de cada dia ficou gravada na memória e que não hesita em mencionar os 1.675 dias que passou atrás das grades. Poucos dias após deixar a prisão, Tarazona abriu um depoimento que mistura perdão e esperança de que a história não se repita em um país que, na leitura dele, parece atravessar uma fase de mudanças.

Tarazona lidera a Fundaredes, ONG venezuelana dedicada à defesa de direitos humanos. Por décadas, ele foi uma figura pública que confrontou publicamente o governo de Nicolás Maduro. No centro de sua atuação, ele documentou e denunciou, sobretudo, supostos abusos de grupos armados não estatais em áreas fronteiriças com a Colômbia—região com controle institucional frágil. Em junho de 2021, ele apresentou ao Ministério Público uma denúncia sobre possíveis vínculos entre o ex-ministro do Interior Ramón Rodríguez Chacín e a guerrilha ELN, apontando coordenadas de “casas seguras” e fazendas que, segundo sua denúncia, funcionariam como centros de operações da guerrilha com algum amparo estatal em Barinas e Guárico. Na prática, ele buscava evidências que, segundo ele, indicavam uma rede de apoio que merecia apuração.

  • 1.675 dias de detenção
  • Condições de cárcere descritas como “tigritos” (celas pequenas, sujas e escuras)
  • Relevância do episódio para o fechamento definitivo do Helicoide
  • Libertação associada a eventos políticos ocorridos em janeiro de 2026

Os desdobramentos começaram lá atrás: poucos dias depois de sua denúncia, Tarazona diz ter sido chamado ao Ministério Público na cidade de Coro, buscando proteção após receber ameaças de órgãos de segurança do Estado. A situação evoluiu de forma brutal quando um grupo de homens encapuzados invadiu o gabinete, com relatos de agressões e ofensas enquanto o prendiam. Nesse momento, Tarazona já não estava apenas lutando pela verdade: ele passava a enfrentar a máquina de repressão que lhe foi imposta.

Após esse episódio, ele ficou desaparecido por 33 horas antes de ser apresentado a um tribunal em Caracas, sob acusações de traição à pátria, terrorismo e incitação ao ódio. Seu destino definitivo foi o Helicoide, sede do Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional, onde ficou sob condições descritas por organizações internacionais como isolamento prolongado e tortura psicológica. Em fevereiro de 2026, Tarazona ganharia a liberdade num contexto de solturas anunciadas pela autoridade venezuelana, que também informou o fechamento definitivo do Helicoide como prisão, para se transformar em um complexo esportivo e de serviços sociais.

O relato de Tarazona é também um relato de bastidores: ele descreve um aparato penitenciário marcado por espaços de punição conhecidos como “tigritos”, onde a violência psicológica é tão presente quanto a física. Ele divide as primeiras semanas com o irmão, José Rafael Tarazona, e com outro ativista, Omar de Dios García. O ambiente era descrito como uma jaula, fechada, suja e extremamente pequeno, onde as refeições significavam compartilhar espaço com urina e fezes, em situações que o ativista compara a um regime de tortura velada. “Nós dormíamos no chão, e as nossas necessidades eram feitas no mesmo local em que recebíamos a comida”, lembra Tarazona, descrevendo uma bandeja de isopor que, segundo ele, ficou conhecida como Wendy’s, em alusão a uma rede de fast food.

As condições de higiene, a falta de contato com o mundo exterior e a incerteza do tempo passaram a moldar o cotidiano da cela. Tarazona relembra ainda os interrogatórios constantes, em que supostos tratamentos cruéis, desumanos e degradantes eram usados como parte do dia a dia do cativeiro. O peso dessas lembranças não é apenas emocional: o ativista conta que, no período inicial, as infecções urinárias foram frequentes, consequência de um regime de higiene que forçou ele, o irmão e outros companheiros a recorrer a um único galão de água mineral de cinco litros para urinar, o que provocava desconfortos e infecções. A alimentação e a convivência também eram marcadas pela precariedade: “defecávamos na mesma vasilha de comida e esperávamos que alguém viesse retirar os dejetos”, ele descreve em tom de desabafo, reforçando que aquele era um espaço onde os cheiros e o desconforto pareciam não ter fim.

Ao longo dos meses, Tarazona também teve de lidar com a pressão psicológica que o cercava. Segundo ele, a contínua cobrança de interrogatórios incluía, em alguns momentos, técnicas para desestabilizá-lo. Ainda assim, ele afirma ter encontrado força para resistir, mesmo vendo a saúde se deteriorar pela sujeira, pela solidão e pela privação de contato com quem lhe era caro. Em meio a tudo isso, houve um momento de choque familiar: a mãe, octogenária, foi detida em julho de 2021 durante uma operação ligada à busca de Tarazona. O procurador-geral contou com vídeos da operação para pressioná-lo durante os interrogatórios, o que Tarazona descreve como uma prática de intimidação cruel. A mãe foi libertada dias depois, mas o episódio deixou marcas profundas na memória do ativista. Ele também aponta que não teve defesa privada durante grande parte de sua detenção, tendo acesso apenas a um advogado após sete meses de cárcere.

O período de cativeiro de Tarazona terminou em meio a uma sequência de acontecimentos que atingiram o mapa político do país. No dia 3 de janeiro de 2026, uma operação internacional causou abalos que foram sentidos dentro da Venezuela: o regime de Nicolás Maduro e a primeira-dama Cilia Flores teriam sido detidos em uma intervenção militar que, segundo relatos, envolveu forças dos Estados Unidos. Tarazona aponta que esse episódio foi o catalisador de sua libertação, refletindo uma leitura pessoal de que mudanças revelam aquilo que a prática penal não consegue esconder. A notícia de sua soltura chegou em 8 de janeiro, quando ele já vivia momentos de transição física e emocional no pátio da prisão, onde praticava meditação e observava uma arara colorida que se tornou, para ele, símbolo de uma nova fase de vida. Ainda assim, os dias que se seguiram foram particularmente desafiadores: Tarazona descreve-os como os “22 dias mais difíceis”, marcados por ansiedade, incerteza e problemas de pele provocados pelo estresse.

No dia 1º de fevereiro, às 8h, uma voz de autoridade finalmente deu a ordem que ele tanto aguardava: “Prepare-se, você vai embora”. Tarazona recorda que, ao deixar o Helicoide, sentiu o peso de anos de tensão se desfazer num instante, ao testemunhar o abraço com a mãe e pisar pela primeira vez no chão livre. Embora não haja garantia de impunidade para eventuais represálias, ele afirma ter encontrado, no silêncio do perdão, uma transformação que moldou uma nova visão de combate aos abusos. “Consegui perdoar no cativeiro, e isso mudou minha vida”, confessa, olhando para trás com um misto de dor e serenidade. Se olhar para fotografias dele de 2021 e 2026, aponta, verá uma transformação clara, resultado de um trabalho interior que o levou a crer na possibilidade de reconciliação nacional.

Para Tarazona, a reparação não se limita ao candidato jurídico: é também ética. “Me atrevo a conceder esta entrevista para que não se repita o que vivemos”, afirma, sublinhando que o objetivo de sua coragem é humano, não político. No fim das contas, ele ressalta a importância de caminhar rumo ao reencontro, para que os venezuelanos possam, juntos, trilhar um caminho de reconciliação e responsabilidade pública, longe do ciclo de violência que o país conheceu em anos recentes.

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Jornalista

Lucas Almeida

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