Quem governa a Venezuela agora após a detenção de Nicolás Maduro?
Delcy Rodríguez, Vladimir Padrino López e Diosdado Cabello aparecem como as vozes mais fortes dentro do madurismo, compondo o núcleo que manteve o governo próximo do mandatário, mesmo em meio à tensão com Washington e à incerteza sobre o desfecho.
Em meio à volatilidade do cenário venezuelano, três nomes do chavismo sobem ao centro do poder potencial. A declaração de que Maduro foi detido, acompanhada de afirmações sobre a necessidade de uma transição, coloca essas figuras sob os holofotes. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou ter detido o líder venezuelano e sua esposa, Cilia Flores, após um ataque considerado de grande escala, e disse que a gestão do país ficaria nas mãos americanas até que uma transição segura fosse concluída. Segundo ele, não há um prazo definido para a devolução do controle ao governo venezuelano; caberia aos EUA decidir quando a nação voltaria a ficar sob a autoridade venezuelana.
Enquanto isso, a vice-presidente Delcy Rodríguez acionou o discurso institucional ao exigir do governo dos EUA uma prova de vida de Maduro e da primeira-dama. Em meio às narrativas em disputa, Trump postou, em sua rede Truth Social, uma imagem que, segundo ele, mostrava Maduro a bordo do USS Iwo Jima, com a foto trazendo indícios de máscara, fones de ouvido e casaco cinza. A resposta venezuelana não tardou: o governo denunciou a agressão militar como uma ação gravíssima, e o conflito escalou com declarações de bastidores sobre lealdade e linha de comando.
Delcy Rodríguez, a atual vice-presidente executiva do país, é apontada como peça-chave que o governo de Maduro tem utilizado para articulação interna e internacional. Em consultorias de bastidores e trajetórias públicas, ela já ocupou o gabinete do Despacho da Presidência, além de ministérios de Comunicação e Informação, Economia e, recentemente, o Ministério do Petróleo. Formada em Direito pela Universidade Central da Venezuela, Rodríguez acumula estudos de Direito do Trabalho e Sindical na França. Sua trajetória também inclui a presidência da polêmica Assembleia Nacional Constituinte eleita em 2017. Não à toa, ela figura entre as figuras que, em diferentes momentos, estiveram entre as primeiras fileiras do poder. Foi sancionada pela União Europeia e, posteriormente, por outros países, o que reforça seu papel como ponte entre o chavismo tradicional e as pressões internacionais. Em declarações divulgadas pela imprensa estatal, Rodríguez afirmou que o paradeiro de Maduro e da primeira-dama é desconhecido e reiterou a necessidade de provas de vida, em linha com as exigências do governo venezuelano.
Outro nome central é Vladimir Padrino López, chefe do Ministério da Defesa desde 2014, uma das figuras mais estáveis do aparelho militar. Ele é lembrado como um dos ministros que passaram mais tempo no cargo, sustentando uma linha de fidelidade ao chavismo ao longo de mudanças políticas. Padrino López emerge como a chave para manter a coesão das Forças Armadas, especialmente em momentos de crise. Ao longo dos anos, sua atuação o aproximou de decisões estratégicas que moldaram o papel das forças no governo, inclusive em momentos de instabilidade. A construção de estruturas como a empresa estatal voltada ao setor militar — Camimpeg — e o controle de áreas estratégicamente sensíveis, como o Arco Mineiro, consolidaram a influência militar na economia do país. Embora haja debates sobre o alcance real de sua influência, especialistas costumam dizer que, no discurso e na prática, “a força armada hoje é Padrino López”, o que explica a presença constante dele nos desdobramentos do poder.
Já Diosdado Cabello figura entre os nomes mais antigos e temidos do chavismo. Enquanto ministro do Interior, ele foi visto nas ruas de Caracas, cercado por forças de segurança, simbolizando a presença de uma liderança que não depende apenas de cargos de destaque, mas de uma mente que sabe operar nos bastidores. Cabello é lembrado como parte do “chavismo originário” e uma peça fundamental para manter uma linha dura dentro do poder, ainda que não esteja necessariamente ligado à facção que chegou ao poder com Maduro. A trajetória dele o levou a ocupar cargos estratégicos desde a época em que Chávez esteve à frente do país, incluindo o período de transição após 2002, além de ter comandado a maior plataforma de propaganda do chavismo: o programa de televisão Con el mazo dando, veiculado pelo canal estatal desde 2014. Sanções internacionais, incluindo as dos Estados Unidos e da União Europeia, reforçam o mosaico de poder em torno de Cabello, que continua sendo uma voz influente na condução da agenda política e institucional do chavismo, com peso considerável sobre a estrutura de decisão, mesmo diante dos olhos de sanções e críticas.
Ao final das contas, o cenário aponta para uma liderança que se apoia em três pilares: Delcy Rodríguez, com influência institucional e capacidade de articular políticas; Vladimir Padrino López, com a força das Forças Armadas a serviço do governo; e Diosdado Cabello, com a experiência de bastidores, comunicação e estratégia política que moldam o jogo. Juntos, eles formam o eixo que hoje define as decisões do madurismo, especialmente se os desdobramentos internacionais não exigirem uma mudança mais profunda de regime. No dia a dia, a dúvida persiste: o que realmente muda para a população comum quando o poder se reorganiza nesse cenário de incerteza e tensão?