O planejamento por trás da escolha da vice de Eduardo Paes

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A estratégia por trás da escolha da vice de Eduardo Paes

Pré-candidato a governador do Rio amplia seu arco de alianças com o embarque de clã da Baixada Fluminense ligado à família Bolsonaro e ao mundo evangélico

O prefeito do Rio, Eduardo Paes (PSD), anunciou nesta quinta-feira a composição da sua chapa na corrida ao Palácio Guanabara. A escolhida foi a advogada Jane Reis (MDB), irmã de Washington Reis, um dos nomes históricos da política de Duque de Caxias. O ato ocorreu na sede do MDB, onde Washington Reis recebeu o cargo de presidente estadual da legenda, sinalizando o tom da estratégia: ampliar o campo de alianças para além do núcleo tradicional.

Entre os movimentos marcantes, Paes deixou claro que o vínculo com o presidente Luiz Inácio Lula da Política permanece firme, mesmo com a aproximação de lideranças associadas a outros espectros ideológicos. O próprio Paes afirmou que Lula já havia sido informado da decisão e manifestou apoio à parceria, reforçando a ideia de um arco que reúne vozes distintas. Nesse cenário, a aposta é pela unidade entre gente com previsões nacionais diferentes, com o objetivo de atrair eleitores conservadores que orbitam o bolsonarismo, sem abrir mão de uma agenda moderada no cotidiano da capital.

Para entender a propósito, vale notar o que está por trás da chegada de Jane Reis. Ela traz consigo uma ligação direta com a comunidade evangélica da Baixada Fluminense por meio do marido, o pastor Rafael Corato, ligado à Assembleia de Deus. Essa sinergia entre a vida pública e a fé é apresentada como um ativo que pode ampliar a capilaridade do grupo, especialmente em áreas onde o eleitorado é historicamente mais conservador. Além disso, a presença feminina na chapa aparece como um elemento simbólico de renovação para Paes, que quer mostrar abrangência sem perder a essência de mobilização de base.

O cenário de alianças já era marcado por movimentos de realinhamento entre siglas. O PSD, mirando a vaga de vice na Baixada, viu a possibilidade se transformar com a parceria ao MDB. Por outro lado, o PP, que já teve o ex-prefeito Rogério Lisboa indicado como figura próxima a Paes, caminha para manter espaço na área central-direita ao ser parte de uma federação com a União Brasil. Isso abre caminho para que Lisboa se torne uma figura-chave na Baixada, atuando fora de uma coalizão formal, o que pode desequilibrar o jogo político local em favor de Paes.

Na prática, a aposta de Paes envolve construir uma ampla frente que não se declare de esquerda apenas por manter laços com Lula e o PT, mas que abrace outras legendas que, no dia a dia, podem sustentar políticas públicas com foco em governabilidade. A ideia é transformar a campanha em uma “frente ampla” capaz de dialogar com diferentes frentes da política, incluindo nomes que representam o centro e parte da centro-direita, especialmente entre prefeitos influentes de áreas estratégicas do estado.

Além de Jane Reis, o jופו de liderança aponta para outros nomes que Paes vem sondando desde o ano anterior. Entre eles, aparecem os prefeitos de São Gonçalo, Capitão Nelson (PL), e o de Campos, Wladimir Garotinho (PP). A estratégia, contudo, não é simples: Nelson é pai de Douglas Ruas, hoje secretário da gestão Castro, e Garotinho é filho do ex-governador que sempre esteve em oposição ao atual governo. Nesse jogo de gerações e laços familiares, Paes busca manter uma linha de diálogo que permita avançar sem criar custos políticos significativos para a sua base.

Do ponto de vista do eleitor, a aposta carrega várias implicações no cotidiano. A presença de uma vice com laços evangélicos, aliada a uma figura de vanguarda política da Baixada, pode ampliar o alcance de apoiadores que, de outra forma, estariam fora do radar de Paes. Ao mesmo tempo, o discurso de “frente ampla” serve para driblar rótulos que poderiam dificultar alianças nacionais, abrindo espaço para uma coalizão que, no papel, parece moldada para enfrentar uma eleição com várias frentes. E no dia a dia, isso pode significar compras de tempo de televisão, apoio de prefeitos regionais e uma agenda de governo que negocia entre a continuidade da gestão municipal e a necessidade de ampliar o eleitorado.\n

Qual o impacto disso na cidade e no estado? No fim das contas, a leitura que fica é de planejamento estratégico para ampliar o cabo de alianças sem perder a identidade municipal. A composição com Jane Reis, associada a uma base evangélica consolidada, aparece como uma tentativa de conectar a alta política a redes locais de poder, sem perder o foco na mobilização de eleitores que, na prática, costumam priorizar estabilidade, segurança e serviços de qualidade. E, para o eleitor comum, a pergunta permanece: até que ponto essa “frente ampla” vai se traduzir em propostas reais para melhorar a vida no Rio?

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Jornalista

Renata Oliveira

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