Pesquisas: Flávio Bolsonaro surpreende, mas mercado quer proposta econômica
Pesquisas mostram liderança de Lula e mercado ainda à espera da direita
No olhar de quem observa economia e comportamento do consumidor, a mais recente leitura do levantamento Meio/Idea chegou com uma combinação de números que acende o debate: Lula aparece na dianteira no 1º turno, enquanto a direita — representada por Flávio Bolsonaro, Michelle Bolsonaro e Tarcísio de Freitas — fica na faixa de 32% a 35%. No 2º turno, a vantagem de Lula se mantém, embora o duelo se aperte apenas frente a Tarcísio. No entanto, o mercado permanece com pé atrás: a eleição ainda não é precificada como gatilho de movimentos expressivos nos ativos.
Na prática, o que acompanha o investidor é outra história: o mercado está mais atento aos dados macro e à clareza de propostas econômicas da oposição, do que às intenções de voto em si. Do ponto de vista de quem lida com investimentos, não basta a leitura de enquetes; é essencial entender o que cada lado pretende fazer com o cenário fiscal e monetário. E isso faz diferença na hora de avaliar risco e oportunidades.
Para o executivo Marcelo Mello, CEO da SulAmérica Investimentos, o cenário macro atual é “muito favorável para quem hoje lidera o país”, citando medidas populares e a possibilidade de juros menores. Ainda assim, ele avisa: “a eleição não entrou no radar da bolsa nem do câmbio”. Em outras palavras, o que move o mercado é o contexto econômico, não apenas o favoritismo de um candidato. O que fica claro é que, sem um conteúdo sólido, as preferências de voto podem se manter como desejo, não como aposta concreta.
O grande ponto de atenção, segundo o mercado, é que não basta ter um nome da direita para reverter o quadro se não houver um programa econômico crível. O discurso precisa de eixo: programa econômico claro, política fiscal sustentável e uma visão de política monetária que tranque a inflação sem frear o crescimento. Enquanto isso, investidores mantêm o olhar nos indicadores de atividade e inflação, menos suscetíveis a variações na sondagem de intenção de voto.
A falta de unidade na direita é destacada por Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating. Ele afirma que a verdadeira barreira é a coesão interna: “Antes de prometer, eles precisam ter unidade”, reforça, lembrando que o eleitorado de direita é fiel, mas disperso. O desafio real, completa, é superar os 50% no segundo turno, o que exige mais do que retórica — exige um caminho fiscal que agrade aos mercados. No radar, Lula colhe vantagens objetivas: desemprego em baixa, crescimento econômico sustentável e menor tensão externa, especialmente com os Estados Unidos. Para Agostini, a oposição precisa reconhecer o que funciona hoje e apresentar um roteiro fiscal mais convincente, capaz de sustentar juros mais baixos.
No fim das contas, o que fica é claro para quem observa o dia a dia do mercado: até que haja uma proposta econômica convincente da direita e uma agenda de governo com unidade visível, o cenário continuará sendo definido por dados macro, não por slogans políticos. O leitor comum pode se perguntar: até onde essa combinação de números e planos pode mudar o bolso do dia a dia? A resposta pode depender justamente de quem conseguir traduzir discurso em ações, com foco em orçamento, reformas e previsibilidade.
Do lado institucional, há um movimento que repercute de forma prática: penduricalhos — benefícios extras fora do teto — entraram no radar público. O ministro Flávio Dino, do STF, determinou a suspensão desses penduricalhos que não constam em lei federal ou estadual, confiando em um reexame pelos Três Poderes em 60 dias. Em resumo, mesmo em meio a debates acalorados, há espaço para decisões que impactam o equilíbrio das contas públicas, e isso interessa diretamente ao humor do mercado.