Ozempic: patente cai em março, mas genérico deve demorar
Patente da semaglutida cai em março no Brasil, mas versões similares do Ozempic devem chegar apenas no segundo semestre
A patente da semaglutida, ativo do Ozempic, perde a proteção no Brasil em 20 de março, abrindo espaço para que outras farmacêuticas desenvolvam versões semelhantes. Na prática, porém, não se espera uma queda rápida de preços nem a chegada de mudanças imediatas nas prateleiras. A expectativa é de que as canetas injetáveis cheguem às farmácias apenas no segundo semestre, e o atraso aparece como uma soma de questões regulatórias, industriais e comerciais. Além disso, o mercado brasileiro representa um papel estratégico para a empresa detentora da fórmula, já que o Brasil figura entre os principais mercados globais da companhia, com peso importante na receita mundial.
No dia a dia, o avanço regulatório tem sido um desafio a ser vencido. Atualmente, 14 pedidos de autorização para produção de semaglutida tramitam na Anvisa, e a expectativa é de que novas aprovações comecem a sair nas próximas semanas. No entanto, o ritmo será gradual: a agência informou que pretende conceder no máximo 3 autorizações por semestre, o que pode estender o cronograma até 2028. A EMS, uma das primeiras a pleitear a autorização, estima que suas canetas cheguem ao mercado aproximadamente três meses após o registro. Em tom conservador, Marcus Sanchez, vice-presidente da EMS, destacou que, mesmo com a queda de patente, o caminho para a produção não se acelera de imediato, lembrando que medicamentos de menor complexidade poderiam sair em 30 a 45 dias, mas, neste caso, dificilmente seria possível em menos de 90 dias.
Já uma análise do Itaú BBA aponta que as primeiras versões locais poderiam demorar ainda mais, com previsão de lançamento apenas em agosto. Enquanto isso, a configuração dos produtos que chegarão ao Brasil tende a influenciar o ritmo de redução de preços nos primeiros meses. A maior parte das versões brasileiras deverá ser classificada como medicamento similar em vez de genérico. E aqui está o X da questão: enquanto os genéricos precisam oferecer, pelo menos, 35% de desconto em relação ao original, os similares costumam ter descontos iniciais mais modestos, por volta de 20%. Com o Ozempic cotado hoje a R$ 1.299,70, a conta prática aponta para preços de lançamento na casa de R$ 1.039,76, ainda que as redes de varejo avaliem promoções adicionais. Em contrapartida, já é comum ver a caneta da Novo Nordisk vendida por algo próximo de R$ 999 em determinadas redes.
Além disso, o cenário de preços pode se mover ao longo do tempo. O estudo do Itaú BBA aponta uma queda média de até 50% ao longo de cinco anos, mas, nos estágios iniciais, a retração tende a ficar abaixo de 30%, com valores mais próximos de R$ 900 no comparativo de curto prazo. Tudo isso acontece num contexto em que o custo de produção envolve investimentos vultosos, biossegurança rigorosa e logística de transporte com refrigeração constante, fatores que impactam diretamente a precificação e o tempo de entrada no mercado.
Do ponto de vista da produção, o desafio é enorme. Ao contrário de comprimidos ou cápsulas, as canetas injetáveis exigem instalações industriais de ponta, controle rígido de esterilidade e monitoramento microbiológico. Além disso, a logística de transporte demanda cadeia de frio estável para manter a eficácia do medicamento. Entre os players que já sinalizam disponibilidade para esse tipo de operação, destacam-se EMS e Biomm. A EMS informa ter investido R$ 1,2 bilhão na construção de sua fábrica em Hortolândia (SP). Por outro lado, a Novo Nordisk também vem ampliando sua presença no Brasil e já está desenvolvendo uma unidade em Montes Claros (MG), com investimento estimado em R$ 6,4 bilhões — empresa que, no entanto, ainda não iniciou a produção de canetas emagrecedoras na capacidade ainda planejada.
- Autorização regulatória: 14 pedidos em análise; até 3 aprovações por semestre; possível extensão até 2028.
- Custos de produção e logística: instalações especiais, estéreis, transporte refrigerado.
- Estratégia de mercado: expectativa de manter competitividade frente às novas opções nacionais.
Mesmo com esses desafios regulatórios e industriais, o setor de canetas emagrecedoras segue em ritmo de crescimento acelerado no Brasil. Em 2025, o faturamento do segmento chegou a cerca de R$ 12 bilhões, e, apenas em janeiro de 2026, as vendas já registraram alta de 34% frente à média mensal de 2025, segundo dados de mercado. As projeções do Itaú BBA indicam que o mercado pode alcançar R$ 24,6 bilhões em 2026 e alcançar até R$ 50,8 bilhões até 2030, impulsionado pelo uso não apenas no tratamento da obesidade, mas também em outras condições de saúde. No dia a dia, esse cenário reforça a previsibilidade de continuidade do movimento de expansão, mesmo diante de obstáculos regulatórios e competitivos.
No fim das contas, a queda da patente não garante alterações imediatas no cenário de preços, nem apenas na prática de consumo. A combinação de aprovação regulatória gradual, custos de produção específicos e a condução estratégica de empresas como Novo Nordisk sinalizam uma trajetória de entrada mais demorada, porém com potencial de transformação de um mercado que já se mostra bilionário e em contínua expansão.