Origens da ‘relação especial’ Cuba-México, testada por Trump

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Qual a origem da ‘relação especial’ entre Cuba e México, que vem sendo colocada à prova por Trump

Apesar das pressões dos EUA e da alternância de governos no México, os dois países nunca romperam relações. As ameaças de Trump, porém, testam essa parceria histórica como nunca antes.

A relação entre Cuba e México tem raízes profundas que atravessaram décadas, mesmo quando a ilha passou por momentos de tensão com os Estados Unidos. Desde a Revolução Cubana, em 1959, o país caribenho enfrentou o embargo norte‑americano, uma política que buscava isolar o governo de Havana. No meio dessa equação, o México sempre ocupou um papel singular: não rompeu laços com Cuba e, ao longo dos anos, os dois vizinhos construíram uma ponte que mistura cooperação técnica, cultural e de solidariedade humana. Agora, diante das ações dos EUA para conter o petróleo que chega a Cuba, o México é posto à prova como nunca antes. Há um embargo. Não há petróleo, não há dinheiro, não há nada, repetiu o tom do debate público americano, projetando um cenário em que o México precisa recalibrar sua posição externa para manter o que avançou ao longo de décadas.

Do lado mexicano, a agenda não foi simples. Em meio à decisão de aumentar a ajuda humanitária à população cubana, a presidente Claudia Sheinbaum já sinalizou que não concorda com sanções que afetam diretamente a ilha, classificando‑as como injustas. Ao mesmo tempo, o governo busca equilíbrio entre manter cooperação com Cuba e preservar as relações com os Estados Unidos. Na prática, o país tem aumentado a solidariedade, ao mesmo tempo em que tem suspendido novos envios de combustível destinado à ilha, buscando uma via de diálogo que possa desfazer o empasse sem punição à população cubana.

Para entender o que está em jogo, vale revisitar por que essa parceria resistiu por tanto tempo. Após a Revolução Cubana, Cuba e México traçaram uma rota comum que combinava parceria política com intercâmbios culturais intensos. O México, então sob o governo do PRI, ofereceu a Cuba um canal de diálogo e, de certa forma, atuou como mediador entre Havana e Washington. Nesse arranjo, havia uma troca de apoio diplomático e cooperação em áreas técnicas, científicas e educacionais — um “olho por olho” que permitia manter independencia de política externa cubana sem ir ao choque com os EUA. A ideia era simples, ainda que estratégica: manter Cuba afastada de influências que pudessem incentivar movimentos revolucionários no México, em troca de apoio cubano nos temas internacionais. Foi uma via de mão dupla que também consolidou um intercâmbio cultural rico entre os dois países.

Ao longo das décadas, a relação não foi isenta de atritos. Em diferentes momentos, os governos mexicanos de direita e de esquerda mantiveram contatos com Cuba, sem romper o vínculo diplomático. Durante o período pós‑Guerra Fria, com a queda da União Soviética, Cuba viu seu apoio amparado pelo México — e o comércio de energia ganhou peso: o país sul‑americano passou a enviar óleo para a ilha, fortalecendo uma cooperação econômica que ajudava ambas as partes a atravessar períodos de aperto.

No entanto, a dinâmica mudou com o tempo. A partir do retorno do PRI ao poder, no início dos anos 2010, houve reabrir de diálogo, com gestos simbólicos que sinalizavam uma aproximação maior entre os dois governos. O México chegou, por exemplo, a perdoar uma dívida considerável relacionada aos envios de petróleo para Cuba, reforçando o objetivo de manter aquele capital político acumulado ao longo de décadas. Ainda assim, o país buscava manter o equilíbrio entre soberania nacional e cooperação com a ilha, reconhecendo Cuba como uma referência regional no Caribe para a política externa mexicana, independentemente do governo que estivesse no poder.

A mudança de rumo com a chegada de Andrés Manuel López Obrador, em 2018, abriu uma nova etapa. O governo de esquerda trouxe uma visão mais direta de relação com Cuba: López Obrador elogiou a experiência cubana de resistência às pressões externas e, em termos práticos, acelerou retomada de cooperação — incluindo a presença de médicos cubanos em clínicas em áreas remotas do México, além de acordos para o fornecimento de vacinas durante a pandemia de covid‑19 e até a impressão de materiais didáticos cubanos em gráficas mexicanas. Segundo analistas, a partir de então ficou claro que a cooperação tinha ganhado um tom mais horizontal: havia intercâmbio com ambos os lados contribuindo, e não apenas assistência de uma parte para a outra.

Ainda assim, com a ascensão de Sheinbaum e a continuidade de políticas de AMLO, o relacionamento ganhou novas camadas. A relação de Cuba com o México ganhou um formato de assistência que alguns analistas descrevem como paternalista, em que o México ampliou sua ajuda de maneira mais direta, sem exigir contrapartidas proporcionais em várias frentes. A Pemex passou a vender petróleo para Cuba em condições favoráveis, de modo que o montante comercializado, segundo autoridades mexicanas, chegou a cifras próximas de meio bilhão de dólares, com contratos vigentes desde 2023. Embora o volume exato e os usos do combustível não tenham sido detalhados publicamente, fala‑se em que esse volume representa uma parcela pequena da produção mexicana, ainda que seja material do ponto de vista político e estratégico.

Com o agravamento da pressão norte‑americana, o México se viu diante de uma encruzilhada sem precedentes: manter a cooperação de forma livre acabou se tornando inviável, e o governo passou a observar com cautela as sanções previstas pelo governo dos Estados Unidos. Em fevereiro, Sheinbaum reiterou sua posição de que as medidas contra Cuba afetam a população e que o México não pode permitir que isso continue sem reação diplomática. Enquanto as conversas com Washington seguem, o México já enviou dois navios com alimentos e itens de higiene para a ilha, mas interrompeu temporariamente novos embarques de combustível, tentando manter a pressão para que haja um acordo que preserve o bem‑estar da população cubana.

De forma geral, a narrativa atual aponta para uma nova natureza da relação: não mais apenas uma cooperação entre estados, mas um equilíbrio cuidadoso entre manter a influência histórica do México na região caribenha e responder a um cenário geopolítico mais tenso. O que está claro é que o México não está disposto a abandonar Cuba, nem a pé diante do peso político de manter essa relação. A linha vermelha, como diz o debate entre especialistas, seria abandonar a política externa em relação a Cuba — um movimento que, segundo observadores, o México não pretende cruzar.

No fim das contas, o que guia essa relação é a percepção de que Cuba continua sendo uma peça-chave para a estabilidade regional, para a geopolítica da região e para o peso político do México no Caribe. A proximidade geográfica, a memória histórica compartilhada e os laços humanos — de amizade, cultura e solidariedade — mantêm viva uma parceria que parece estar mais complexa do que nunca, mas ainda assim essencial para quem olha para o mapa do hemisfério com olhos de quem sabe que a cooperação pode, sim, ser uma saída prática em tempos de adversidade.

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Jornalista

Mariana Silva

Personal organizer que adora soluções práticas para casa. Especialista em maximizar espaços pequenos com produtos inteligentes.

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