Quais mudanças na postura da Venezuela após a captura de Maduro?

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Pessoas comemoram em Santiago após ataque dos EUA à Venezuela em que presidente Nicolás Maduro foi capturado 03/01/2026. REUTERS/Pablo Sanhueza/File Photo

Quais foram as mudanças no posicionamento da Venezuela após a captura de Maduro?

Governo interino de Delcy Rodríguez inicia anistia a presos políticos e abre setor de petróleo ao capital estrangeiro enquanto o ex-líder aguarda julgamento em Nova York

Há pouco mais de um mês, a capital venezuelana ficou no centro de um marco que alterou o curso da política interna do país. Uma operação militar aérea encerrou meses de expectativa sobre um conflito possível e, pouco tempo depois, o mundo tomou conhecimento de uma sequência de decisões que mudaram o eixo de poder. Donald Trump recorreu às redes sociais para anunciar o desfecho da operação e a captura da cúpula do governo, incluindo o presidente Nicolás Maduro e a primeira-dama Cilia Flores, com a transferência do casal para Nova York. Com a aparente queda do comando, a então vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu a presidência interina dois dias após a ação. Hoje, Maduro e Flores estão sob custódia no Centro de Detenção Metropolitano do Brooklyn, com a primeira audiência federal já marcada para prestar esclarecimentos sobre denúncias ligadas a narcoterrorismo e tráfico de entorpecentes.

No dia a dia, o novo governo não perdeu tempo e emergiu com um pacote de mudanças que ganharam o foco político local e internacional. Entre as primeiras medidas, a anistia de diversos opositores ganhou contornos que vão além da soltura de críticos; jornalistas, ativistas, líderes sindicais e críticos do regime passaram a deixar as celas, em um processo que o governo qualificou como parte da “consolidação da paz” da República. Ainda que o Executivo tenha informado a libertação de mais de 600 detidos, organizações independentes apontam números diferentes: o Fórum Penal Venezuelano validou 344 libertações entre aqueles casos ligados a motivações políticas. Para dar celeridade, Delcy Rodríguez anunciou, em 30 de janeiro, a criação de uma legislação de perdão amplo, com a pretensão de “promover uma lei de anistia geral que cubra todo o período de violência política desde 1999 até o presente”. Além disso, o anúncio incluiu o encerramento das atividades do Helicoide, lendário prédio da inteligência venezuelana usado como centro de detenção. Entidades como a CIDH e a ONU já haviam classificado o espaço como um “centro de tortura” voltado à repressão de dissidentes. No dia a dia, esse movimento de solturas foi celebrado de várias formas, inclusive por vozes internacionais.

Quem acompanhava as redes também viu o momento ser usado para reforçar mudanças aparente na linha de frente diplomática. Em meio às liberações, Trump voltou a comentar o tema pela Truth Social, afirmando que a Venezuela está libertando seus presos políticos com ritmo acelerado e que esse movimento tende a se intensificar nas próximas semanas. Esses desdobramentos indicam uma ruptura em relação à postura anterior do aparato chavista, marcada por um controle mais firme de dissidências e críticas. Dados do Ministério Público venezuelano apontavam um histórico de prisões que já não combinava com os ânimos do momento, enquanto a nova gestão sinalizava um caminho de reconciliação.

  • Anistia a críticos e presos políticos, com debate sobre a abrangência e o tempo de violência política coberta pela lei.
  • Abertura do setor de petróleo a capitais estrangeiros, com a ideia de transformar reservas em investimentos públicos e sociais.
  • Reformulação legal na indústria de hidrocarbonetos para atrair investimentos e flexibilizar a nacionalização iniciada em 2007.
  • Relações diplomáticas com os EUA em processo de reaproximação, com reuniões, nomeação de embaixadores e visitas de órgãos de inteligência.

Na prática econômica, o cenário ganhou novo impulso com o setor petrolífero. Logo após a captura, foi informado que a Venezuela concordou em exportar até 50 milhões de barris para os EUA, com o objetivo de uso de mercado, sob supervisão para assegurar que a receita beneficie os povos de ambas as nações. A estatal Petróleos de Venezuela (Pdvsa) confirmou estar em negociações com os EUA para venda de volumes de petróleo, em meio a indagações sobre o impacto desses movimentos no balanço energético do país. O presidente americano, por sua vez, detalhou que o faturamento dessas transações ficaria sob sua supervisão direta, sob a justificativa de direcionar os recursos ao benefício do povo venezuelano e dos Estados Unidos. Em paralelo, o governo venezuelano enfrentou críticas internas, com vozes de membros do chavismo apontando que a mudança na condução do petróleo foi recebida com ceticismo, especialmente entre quem defendia uma linha mais rígida de nacionalização. Um dos críticos célebres, Andrés Izarra, chegou a afirmar que o controle público do petróleo seria perdido, independentemente da visão que se tenha sobre o uso desses recursos.

Quanto ao câmbio, a instabilidade provocada pela intervenção militar afetou fortemente a taxa de câmbio e o dia a dia da população. Em janeiro, o BCV registrou uma queda importante no valor do bolívar frente ao dólar, aproximando-se de uma posição oficial de 367,30 bolívares por US$ 1, após ter estado em 301,37. O mercado paralelo, que funciona como termômetro da economia real, mostrou uma volatilidade ainda maior: momentos após o ataque, a divisa chegou a superar a casa dos 800 bolívares, recuando posteriormente para faixas próximas de 400 bolívares. Especialistas consultados pela imprensa destacaram que a incerteza foi o fator que mais pesou sobre o câmbio, ainda que intervenções cambiais, como a injeção de US$ 300 milhões vindos da exportação de petróleo, tenham buscado conter a distância entre as cotações oficiais e as paralelas. No dia a dia, o custo de vida seguiu pressionado: carnes, ovos e itens básicos subiram, com relatos de preços que variavam de forma sensível conforme o mercado. O FMI, em dados disponíveis até outubro, apontou inflação de cerca de 548% no país ao final de 2025, configurando um desafio econômico que não se resolve apenas com ajustes pontuais.

Por fim, o capítulo diplomático ganhou protagonismo. As previsões feitas no fim de 2025, de uma ofensiva americana que paralisaria o país com uma greve revolucionária, não se materializaram, abrindo espaço para uma estratégia de entendimento com Washington. Sob a liderança de Delcy Rodríguez, o governo venezuelano indicou abertura para a retomada de laços diplomáticos, incluindo a vinda de uma diplomata para reabrir a embaixada dos EUA em Caracas e visitas de alto nível, como a de John Ratcliffe, diretor da CIA. Ainda assim, vozes internas do governo manteram críticas, ressaltando que a presença de uma “ocupação militar tecnológica, naval e aérea” já se fazia sentir, ainda que sem tropas terrestres visíveis, e que a autonomia do país para manter parcerias com nações como Rússia, China, Irã e Cuba seria fundamental para lidar com as pressões externas. Em contrapartida, Delcy Rodríguez procurou destacar que a Venezuela tem independência para conduzir suas parcerias, ao mesmo tempo em que pediu que Washington pare de interferir nos assuntos domésticos para que as divergências locais possam ser resolvidas internamente. O conjunto de mudanças, segundo analistas, mostra que as decisões receberam influência externa, ainda que o governo venezuelano tente desenhar um caminho próprio para estabilizar a economia e a política após o episódio marcante.

No fim das contas, a leitura que fica é de um momento de transição: de um regime sob forte controle para uma etapa em que há espaço para reformas, negociação e uma tentativa de reconciliação internacional, sempre com o desafio de manter a estabilidade interna. A pergunta que fica para o leitor é simples: quais impactos práticos essas mudanças vão trazer para o dia a dia de quem acompanha a volatilidade venezuelana, especialmente em um país que atravessa dificuldades econômicas históricas e um contorno geopolítico ainda instável?

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Jornalista

Mariana Silva

Personal organizer que adora soluções práticas para casa. Especialista em maximizar espaços pequenos com produtos inteligentes.

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