Motivo do apoio de Trump ao vice de Maduro, em vez do líder opositor

Ouvir esta notícia

Por que Trump apoiou vice de Maduro em vez de líder da oposição na Venezuela

Tanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, quanto o secretário de Estado, Marco Rubio, negaram inicialmente a possibilidade de que Corina Machado esteja à frente de uma eventual transição.

No último fim de semana, as declarações de Donald Trump sobre a venezuelação da crise surpreenderam aliados e opositores. Ele tocou em pontos-chave, detalhou a prisão de Nicolás Maduro e deixou claro que os EUA pretendem conduzir o que chamou de transição no país — sem, ainda, sacrificar a discussão sobre eleições. O tom foi de pragmatismo duro: uma transição ordenada para evitar o caos, e com foco especial no petróleo venezuelano como alicerce dessa nova fase.

A imprensa venezuelana já havia colocado na mesa um cenário alternativo: uma possível volta de Edmundo González Urrutia à liderança do país, com Corina Machado assumindo a vice-presidência. A oposição dizia ter obtido uma parte expressiva das atas de votação — cerca de 85% — que comprovariam a vitória, após o conselho eleitoral proclamar Maduro vitorioso sem apresentar os registros oficiais. A narrativa não avançou para uma troca de governo, ainda que as tensões entre as partes persistissem após o ataque americano ao território venezuelano.

Logo após, na segunda-feira, Delcy Rodríguez assumiu a presidência interina, conforme a Constituição venezuelana previa em casos de ausência de presidente. Ela é vista, nas palavras de analistas, como uma figura fiel a Maduro e integrada ao círculo de poder. Enquanto isso, Corina Machado passou a se posicionar mais explicitamente em tom de apoio às ações de Trump, chegando a dizer que dedicou o Prêmio Nobel da Paz ao presidente americano e admitiu que gostaria de voltar à Venezuela assim que possível.

Quem realmente parece sustentar o fio da meada, no entanto, não é Machado. De acordo com Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, o elo decisivo não seria a líder da oposição, mas um canal diplomático direto com realpolitik — ou seja, uma política centrada nos interesses nacionais. Em entrevista à CBS, Rubio descreveu a situação como menos ideal para a oposição no momento: grande parte de seus integrantes estaria fora do país, o que dificulta qualquer operação de substituição do governo por meio de pressão externa. Essa leitura ajuda a entender por que, segundo ele, a liderança de Corina Machado não mostrava caminho claro para a transição pretendida pelos EUA.

  • Corina Machado — líder da oposição venezuelana, reconhecida internacionalmente e citada pela imprensa como potencial biviral em um cenário de transição, mas apontada por analistas como com menor capacidade de conduzir mudanças imediatas.
  • Delcy Rodríguez — aliada de Maduro, assumiu o comando interinamente e é vista como elo entre o governo e as instituições.
  • Edmundo González Urrutia — figura mencionada como possível presidente eleito por alguns setores da oposição, na prática, uma peça ainda sem desfecho definitivo.
  • Marco Rubio — aliado-chave dos EUA, o interlocutor de referência nas conversas com a oposição venezuelana e no desenho da estratégia de transição.
  • Nicolás Maduro — presidente que permanece no centro do embate político, com o país ainda em processo de definição institucional.

Para a analista Carmen Beatriz Fernández, da Universidade de Navarra, os cenários que colocavam González e Machado na linha de frente de uma transição parecem ter perdido força. O que se consolidou, diz ela, é a leitura de que o maior peso político continua nas mãos de Delcy Rodríguez e de outros operadores internos. A ideia de que realpolitik envolve assegurar uma transição estável e evitar uma escalada de violência parece guiar as ações dos EUA neste momento. Além disso, o foco de Washington estaria, segundo a analista, no aproveitamento do potencial petrolífero venezuelano — com contratos que poderiam favorecer empresas americanas e facilitar a retomada da produção.

Reportagens norte-americanas, entre elas a do New York Times, apontam que o respaldo de Trump a Machado não passa de uma leitura estratégica de isolamento. O jornal indica que a oposição não detém planos claros para tomar o poder de imediato, o que aumenta a possibilidade de que uma mudança de governo seja conduzida por atores dentro da Venezuela. Nessa linha, a sugestão é de que a principal aposta de Trump seria evitar uma crise maior, mantendo a transmissão de poder sob supervisão de agentes locais e favorecendo um ambiente onde interesses energéticos predominem.

Fernández observa ainda que, mesmo com o movimento de Maduro e as pressões de fora, Machado continua sendo a líder política indiscutível entre muitos venezuelanos, com grande aceitação popular e uma base de apoio que não ficou menor diante dos recentes desdobramentos. Por outro lado, ela aponta que o custo político para os EUA pode recair sobre quem está no poder, caso haja danos materiais ou consequências graves para a população. E, no balanço, a possibilidade de uma transição liderada por Delcy Rodríguez permanece entre os cenários mais viáveis, com a expectativa de novas eleições caso esse caminho se confirme.

No fim das contas, a situação na Venezuela permanece aberta. Maduro continua ausente do sistema de governo consolidado, mas o país ainda não vivenciou a transição plena que muitos desejavam. Enquanto parte da oposição se mantém no exílio e luta para manter a chama de mobilização, outras vozes tentam ajustar estratégias para manter a pressão por transparência, liberdades e vida democrática. E você, leitor, o que leva a acreditar que a Venezuela evoluirá de forma mais estável nos próximos meses?

O que achou deste post?

Jornalista

Carlos Ribeiro

AO VIVO Sintonizando...