Como o Master invadirá o ano eleitoral
Se, em 2016, a blindagem do Centrão se deu pela derrubada de Dilma, a de 2026 pretende se dar pela derrota de Lula
A liquidação do Will, braço do Master que atua especialmente junto às camadas mais populares, amplia o raio de impacto do desmonte de uma instituição financeira cujos trâmites se entrelaçam com o Estado. Entre os três Poderes, aparecem informações que puxam o novelo, em um cenário que lembra a chamada Lava-Jato pela complexidade e pela mobilidade dos agentes envolvidos.
Na prática, não se resume a contratos públicos; trata-se de negócios alimentados por brechas regulatórias que permitiram ganhos astronômicos, lavagem de dinheiro e, em alguns casos, operações do crime organizado. As frestas foram se alargando à medida que o poder público passou a conviver com conivência de agentes — e, em muitos casos, com vínculos próximos a eles.
No dia a dia político, o Executivo surge como o Poder menos envolvido, mas justamente por isso é o que mais precisa se preocupar. A efeméride ganhou um ponto de interrogação: 2026 repetirá 2016? O país mudou, com Lula de volta à Presidência e outra natureza do caso, ainda que as sombras do passado tradicionais não tenham sumido. Não há contratos estatais explícitos, mas há negócios sancionados por brechas regulatórias que deixaram espaço para ganhos elevados, desvios de dinheiro e, às vezes, ligações com o crime organizado.
Quem investiga aponta que as brechas foram ampliadas pela conivência de agentes públicos e, de certa forma, por um ambiente que permitiu que mentes de dentro do sistema participassem da fatura. Enquanto isso, o Supremo Tribunal Federal, que em 2016 teve papel central, hoje se vê diante de um desafio ainda maior: a necessidade de afastar, desde o começo, ministros que possam comprometer a legitimidade do processo. A visita de Luiz Edson Fachin ao ministro Dias Toffoli, no Maranhão, deixou claro que a questão Toffoli é incontornável para o desenrolar do caso.
Nesse tabuleiro, aliados do Master no meio político trabalham para manter fôlego institucional em várias frentes, minimizando a chance de delações que possam atravessar o fio das investigações. O papel do TCU ficou exposto quando o ministro Jhonatan de Jesus questionou a liquidação do Master pelo Banco Central, recebendo, porém, críticas por ter acabado em posição desconfortável diante do cenário de crise institucional. Se ainda não houve um movimento semelhante no STF, isso pode ter relação com redes de apoio que existem dentro do próprio tribunal.
A origem da lama, segundo os relatos, está ancorada em disputas entre aliados de Daniel Vorcaro e o ex-sócio Augusto Lima. Ambos foram presos na mesma operação e, mesmo soltos com tornozeleira, seguem sob investigação. Lima é casado com uma ex-ministra de Jair Bolsonaro, e o ingresso de suas operações no Master ganhou impulso a partir de uma privatização na Bahia, durante a gestão petista. Essa relação sempre preocupou o Planalto, mas não travou o fluxo de negócios.
Um sinal claro dessa tensão foi a nomeação do ministro da Justiça, Wellington Lima e Silva. Antes de ocupar cargos sob Dilma Rousseff e Lula, Wellington foi indicado para chefiar o Ministério Público da Bahia pelo então governador Jaques Wagner. Em aúdio público após a primeira reunião no Planalto, ele mencionou que o Master foi um tema central, frase que ganhou retoque rápido por assessores. Se é verdade que nenhum ministério da Justiça controla a Polícia Federal, já se cogita que o chefe da Casa Civil, Rui Costa, possa manter uma esfera de informação que chegue perto do que ocorre na PF.
Na mesma linha, Lula pressionou por investigações com a mesma veemência que Dilma no início da Lava-Jato. A ideia é acelerar o fluxo de informações para que o andamento não seja calado por manobras de bastidores, ainda que o presidente alegue distância em relação a parte do enredo. O saldo é claro: a agenda de 2016, com a derrubada de Dilma, não pode se repetir sem ajustes, e o Centrão ganhou uma nova forma de blindagem que envolve Legislativo, Judiciário e Executivo.
Entre os petistas, o diário de bordo aponta para um único objetivo estratégico: manter uma imagem de força diante de investigações que, se avançarem, podem reconfigurar o cenário político. A tensão crescente entre Centrão e o governo atual tende a se intensificar quando o Congresso retornar do recesso, com a possibilidade de uma CPI ganhando corpo, apesar das incertezas sobre o seu desfecho e o peso político que cada líder pode ter de pagar.
Para além das questões institucionais, o desenho do jogo político passa pelas apostas em duas frentes: de um lado, uma política externa que ajude a capitalizar o acordo do Mercosul com a União Europeia diante das aspirações de Donald Trump; de outro, as próprias eleições presidenciais. Se, no passado, a blindagem andou ao longo da linha da derrubada de Dilma, hoje parece provável que a estratégia seja, de forma indireta, inviabilizar a continuidade de Lula no poder. E, no fim das contas, a defesa de que o Estado não pode abrir mão de apurar tudo continua sendo a âncora de convivência com a opinião pública.
No balanço, a aposta é simples: convencer o eleitor de que a continuidade de Lula equivale a entregar o Estado ao crime — e, nesse cenário, a PF precisa ir até o fim. O tempo dirá se a leitura do público procede, mas o que fica claro é que o caso Master já se tornou um termômetro sensível sobre como os poderes se articulam na prática no Brasil contemporâneo.