Novo mangá do criador de Gantz é a coisa mais inesperada e perturbadora lançada em muito tempo
Hiroya Oku nos presenteia mais uma vez com uma de suas ideias malucas
Quem acompanha o trabalho de Hiroya Oku, criador de Gantz e Inuyashiki, sabe que suas narrativas costumam puxar para o fora do comum. Em Kanreki Hime, o título que está chamando atenção entre leitores, o autor mergulha em um território diferente, sem abrir mão de sua assinatura visual intensa. A trama gira em torno de um grupo de cinquentões apaixonados por anime e mangá que, de forma surpreendente, quase não construiu relacionamentos com mulheres ao longo da vida. E há um componente ainda mais singular: a presença de uma linda jovem — embora haja um porém nessa última parte — que promete mexer com o que conhecemos sobre desejos, idade e identidade.
No centro da história, seis homens com mais de meio século descobrem uma droga que os transforma em belas jovens. A transformação, descrita com o tom provocativo característico de Oku, coloca cada um deles diante de uma nova realidade física e social. E, para acelerar a narrativa, eles decidem, em uma noite, adquirir a substância e dá-la aleatoriamente a um dos membros da própria família. O efeito impulsiona uma cadeia de situações improváveis que cobre família, amizade e limites morais, tudo em uma linha que oscila entre o humor ácido e o desconforto ético.
A premissa joga com uma queixa antiga de muitos leitores: a falta de experiência romântica pode levar a caminhos inusitados quando a fantasia encontra a vida real. Por isso, a obra é descrita como perturbadora e, ao mesmo tempo, potencialmente hilariante, prometendo desdobramentos que vão da comédia ao absurdo. No dia a dia, isso representa uma espécie de experimento social que, segundo os responsáveis pela obra, pode gerar consequências tão imprevisíveis quanto divertidas. Mas o que isso muda na prática para os fãs de mangá e anime?
No conjunto, Kanreki Hime se apresenta como uma aposta ambiciosa de Oku, que mantém o foco na insanidade criativa que já o revelou em trabalhos anteriores. A ideia de transformar personagens de meia-idade em jovens mulheres abre espaço para explorar temas como envelhecimento, desejo e os limites da ficção. Embora a narrativa prometa risos, há a promessa de tocar em feridas reais — a percepção de si mesmo e a forma como o entorno reage a mudanças tão radicais. Se você gosta de histórias que desafiam convenções e provocam debates, esta pode ser a leitura que surpreenderá pelo tom e pela coragem de ousar.
No fim das contas, o que resta para o leitor comum é a curiosidade. Será que a comédia derivada dessa premissa consegue sustentar a crítica sem perder o lado humano? A resposta parece depender da maneira como Oku amarra os personagens, a viabilidade de cada transformação e, principalmente, do modo como a juventude forjada pela droga se refletirá nas relações cotidianas. E você, toparia conhecer esse experimento literário que promete rir e rever de cabeça para baixo a nossa relação com a idade, a beleza e a imaginação?