Maduro quer pagar honorários de advogado com recursos venezuelanos

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Maduro quer pagar advogado com fundos venezuelanos

O drone de sanções, a defesa insistente e a dúvida do tribunal: o que muda na prática quando o dinheiro do país é usado para custear a defesa de um ex-presidente?

Sentado ao lado da companheira, Nicolás Maduro manteve uma postura serena na segunda audiência de um tribunal norte-americano desde a sua detenção. Nesta quinta-feira, durante uma sessão que durou menos de uma manhã, o advogado dele pediu o arquivamento do caso, alegando que o casal não dispõe de recursos para pagar os custos do processo em razão das sanções impostas pelos EUA à Venezuela. A possibilidade de desbloquear, ainda que parcialmente, fundos venezuelanos para financiar a defesa foi o tema que dominou o debate no Tribunal de Manhattan.

A análise começou com atraso de cerca de 45 minutos, consequência de um pequeno atraso do veterano juiz Alvin Hellerstein. A defesa argumentou que Maduro e Cilia Flores não lutavam apenas por uma defesa competente, mas por uma defesa escolhida por eles próprios, e por isso teriam direito a usar fundos não contaminados para custear o advogado. No centro da fala, ficou a insistência de que o dinheiro disponível no país não poderia ser bloqueado de forma a inviabilizar a atuação de seus representantes legais.

O advogado Barry Pollack, já com notoriedade em casos de alto perfil como o de Julian Assange, explicou que seus clientes não tinham condições de arcar com as despesas do julgamento e que caberia ao governo venezuelano auxiliar na tarefa. “Eles têm todo o direito de usar os seus fundos para pagar pela defesa”, afirmou, reforçando o pedido para o arquivamento como resultado possível dessa linha de ação. O tom era de insistência, mas também de explicação prática sobre as dificuldades provocadas pelas sanções.

Enquanto a audiência transpirava nos fones de tradução que convertiam o inglês para o castelhano, Maduro seguia o desenrolar da conversa com a mulher ao lado, às vezes sussurrando orientações ao seu advogado. A cena, descrita pela CNN, também revelou momentos em que o casal anotava trechos importantes do que era discutido entre a defesa e a vara federal. A cada pedido feito pela defesa, o juiz pareceu ouvir com curiosidade, principalmente quando questionou os procuradores sobre as tentativas de aplicar sanções para bloquear o financiamento da defesa venezuelana.

Os representantes da acusação defenderam o alinhamento com a posição do governo dos Estados Unidos, sustentando que havia justificativas sólidas para manter as sanções. Ainda assim, o magistrado não deixou de observar o que poderia ocorrer caso fosse mantida a linha que impediria o uso de fundos venezuelanos. Em certo momento, Hellerstein deixou claro que, apesar das pressões, o casal não apresentava evidência de ameaça à segurança nacional no momento da sessão. A fala do juiz abriu espaço para que os defensores reiterassem: se os recursos estivessem disponíveis, eles poderiam, sim, financiar a defesa sem depender do governo ou de terceiros sancionados.

Entre acusações e defesas, um dos argumentos que voltou à tona foi o de que Maduro e Flores teriam conhecido, desde o início, as consequências das sanções, incluindo a limitação de acesso a recursos. O advogando responsável por representar o casal argumentou que os acusados não tinham acesso aos seus próprios fundos para custear a defesa, o que justificaria, na prática, a liberação de recursos venezuelanos sob o crivo do tribunal. Mesmo assim, o juiz deixou claro que não iria arquivar o processo, sinalizando manter a discussão em aberto até uma decisão final, com a promessa de uma rápida manifestação sobre a utilização dos fundos para custear a defesa.

No desfecho da sessão, ficou a sensação de que a decisão exigirá um caminho cuidadoso entre o cumprimento das sanções e a garantia de um direito básico: defesa adequada. O juiz Hellerstein ressaltou que qualquer desfecho passaria pela avaliação da administração de Donald Trump, sugerindo que o veredito final dependeria de uma articulação entre o judiciário federal e a esfera executiva. A pergunta que ficou pairando é a seguinte: se a prática de liberar fundos, mesmo sob sanção, é factível, e que consequências isso pode ter para o andamento do caso e para a estratégia da defesa?

Durante a sessão, houve referências a um conjunto de temas que vão além do expediente jurídico: a relação entre sanções, financiamento de defesa e o papel do Estado em proteger seus interesses enquanto as partes impactadas lutam por direito a defesa. Em meio a isso, Maduro recebeu calor institucional enquanto aguardava um desfecho que, no dia a dia, pode ter impactos significativos para a diplomacia e para a narrativa internacional em torno de sua situação. E por aqui, a curiosidade fica no ar: como será a próxima etapa desse contencioso? Qual será o equilíbrio entre sanções, fundos e a garantia de um julgamento justo?

À saída do tribunal, a temperatura no entorno não se aquietou. A poucos passos do edifício, manifestantes e apoiadores cruzaram-se em uma cena com interesses divergentes. Houve quem dissesse que a detenção de Maduro representa uma mancha na política venezuelana, enquanto outros viam no ex-presidente um símbolo de resistência frente a pressões internacionais. Entre relatos de moradores da cidade e turistas que presenciaram o movimento, surgiram depoimentos emocionados. “À nossa frente, muitos casacos e bandeiras com cores próprias, mas ninguém realmente venezuelano em solo americano parece compreender nossa dor”, desabafou um residente nos arredores, que preferiu manter-se anônimo.

Como ressaltado por outros relatos, a cobertura de jornalistas ali e em outros veículos descreveu uma concentração de pessoas com motivações contrárias, que acabou levando a confrontos isolados, contidos pela polícia. No âmbito das redes, imagens e mensagens de apoio e de crítica circularam, ajudando a moldar a percepção pública sobre o caso. Em meio à atmosfera tensa, personagens do cotidiano — como Wilmer Contreras, que reside em Nova York, e Olga Clavo, outra venezuelana ouvida pela imprensa — descrevem o episódio como um marco na experiência de quem vive entre duas realidades.

No balanço final, o que fica para o leitor comum é a ideia de que uma decisão sobre o uso de fundos venezuelanos pode redefinir o ritmo desse processo e, de quebra, o tom das discussões internacionais sobre sanções, direitos de defesa e soberania econômica. Enquanto o tribunal não anuncia um veredito, o tema segue aquecendo o debate público, com perguntas tão simples quanto o impacto prático: o que isso muda no dia a dia de quem assiste e torce por desfechos menos complexos e mais claros?

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Jornalista

Fernanda Costa

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