Maduro detido: quem compõe o núcleo de poder na Venezuela hoje

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Maduro capturado: quem é quem agora no núcleo de poder na Venezuela

Ao longo da última década, alguns dirigentes do chavismo se tornaram peças fundamentais que influenciam e orientam o governo de Nicolás Maduro na Venezuela. A BBC detalha quem são eles e por que eles acumulam tanto poder no governo do país.

Ao longo dos últimos anos, Nicolás Maduro soube manter o controle interno do chavismo, rodeado por uma geração de herdeiros políticos que ocupam cargos estratégicos. No entanto, na madrugada de 3 de janeiro de 2026, esse equilíbrio foi colocado à prova quando uma operação dos Estados Unidos levou Maduro e a esposa dele, Cilia Flores, à prisão. Com o principal rosto do regime temporariamente fora de cena, o que resta para sustentar o funcionamento do poder chavista? É justamente essa a pergunta que guia este mergulho pelas figuras que, de forma contínua, moldam as decisões de governo, política externa e estratégias de segurança do país.

Delcy Rodríguez surge como peça-chave no tabuleiro venezuelano não apenas por ser irmã de Jorge Rodríguez, mas pela trajetória que a levou a ocupar, ao longo dos anos, postos de grande alcance. Atualmente vice-presidente e, interinamente, presidenta da Venezuela, ela acumula também o cargo de ministra do Petróleo. A ascensão aconteceu após Maduro assumir o poder, quando Delcy ocupou várias funções de alta responsabilidade no Executivo, incluindo ministérios de Comunicações, Economia e Relações Exteriores. Foi ela ainda a primeira presidente da polêmica Assembleia Nacional Constituinte eleita em 2017. Entre momentos de diplomacia e tensão, Delcy protagonizou situações que marcaram a relação entre o chavismo e a comunidade internacional, como o episódio conhecido como “Delcygate” (quando aterrissou em Madrid para encontros com o ministro espanhol dos Transportes, em choque com regras Schengen). Ela também foi alvo de sanções de União Europeia e dos EUA, que apontam violações de direitos humanos e o enfraquecimento da democracia, posicionando‑a como uma das vozes mais visíveis do núcleo no poder. Em síntese: é uma figura aparentemente prática, mais operacional do que ideológica, e seu papel é fundamental para a continuidade da maquinaria estatal.

Diosdado Cabello permanece como uma das vozes mais influentes do chavismo. Desde o histórico momento em que Chávez designou Maduro como seu substituto, Cabello assumiu uma posição que muitos descrevem como de “número 2” do movimento. Seu histórico inclui uma trajetória militar marcada por episódios passados, participação direta em decisões centrais e uma presença constante em diversos cargos dentro do governo e do PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela). Cabello foi ministro do Interior e Justiça, atuou como presidente da Assembleia Nacional e ocupou funções de destaque na estrutura partidária. Mesmo com rumores de rivalidade com Maduro, a leitura dominante entre analistas é a de que Cabello trabalha alinhado ao líder—com a ressalva de que pode expressar, em certos momentos, visões divergentes. Além dos cargos, ele também comanda um programa semanal de televisão no canal estatal, expondo sua visão política e mantendo uma presença contínua na vida pública. As sanções dos EUA, associando-o a atividades ilícitas e corrupção, reforçam a visão de que Cabello é uma figura que, mesmo sob pressão, permanece integrada ao círculo de decisões.

Vladimir Padrino López é a expressão da força física por trás das políticas do chavismo. Nomeado ministro da Defesa em 2014, ele se tornou a figura que mais tempo permanece à frente das Forças Armadas, mantendo o cargo por mais de dez anos. O histórico dele inclui participação no golpe de 2002 contra Chávez, quando comandava uma unidade de blindados que se manteve fiel ao governo. Pesquisas e relatos destacam que, sob sua gestão, as Forças Armadas passaram a ter papel central na elaboração de políticas de segurança e em áreas correlatas da gestão pública. Especialistas destacam que Padrino conseguiu harmonizar as várias correntes dentro das Forças, evitando confrontos internos que pudessem desestabilizar o governo. Hoje, segundo analistas como Sebastiana Barráez, os militares ocupam espaços significativos no governo—de modo que “as Forças Armadas, hoje, são Padrino López. E Padrino López é Maduro.”

Jorge Rodríguez aparece como o estrategista que conecta bases políticas a decisões administrativas. A figura já ganhou projeção nacional desde seus primeiros passos da carreira, passando pela organização de plebiscitos e pela condução de eleições. Ele foi reitor do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) em 2003, presidente da Assembleia Nacional e prefeito de Caracas por longos anos. Hoje, ele atua como articulador político central do governo de Maduro. Além de ter sido ministro das Comunicações, sua trajetória combina atuação institucional com experiência eleitoral, o que o coloca entre as lideranças com potencial de condução futura. Analistas observam que ele pode ser, de fato, o enquadrador intelectual do chavismo após uma fase de desgaste intelectual dentro do próprio aparato governamental. Em suas próprias palavras, ele demonstra, ao longo de sua carreira, uma combinação de habilidades técnicas e político‑estratégicas que o destacam como possível sucessor futuro.

Entre as linhas de força que movem o governo, vale menção a iniciativas que expandiram o controle militar sobre setores estratégicos. Em 2016, Maduro criou a Camimpeg, uma empresa de atuação militar com autorização legal para explorar petróleo, e concedeu aos militares o domínio de áreas como o Arco Mineiro—região sul do país rica em ouro e outros recursos. Tais decisões reforçam a percepção de que, no dia a dia, as Forças Armadas ocupam espaço não apenas na arena de defesa, mas também no eixo econômico, político e de governança. No debate público, especialistas ressaltam ainda que a relação entre o Palácio de Miraflores e o conjunto de comandantes das forças é desenhada para manter a coesão do regime, ainda que ajustes de poder ocorram conforme as necessidades políticas.

No fim das contas, o que emerge é um núcleo de poder bem estruturado, com líderes que possuem formação sólida, currículo de governo e laços profundos com a história do chavismo. São figuras que, entre acertos estratégicos e tensões periódicas, cumprem o papel de manter o governo funcionando, mesmo diante de surpresas como prisões, sanções e mudanças súbitas no cenário internacional. A leitura que fica para o leitor é simples: o poder já não depende apenas do líder central, mas de uma rede de articuladores que, em conjunto, mantêm o tabuleiro em movimento, definindo um rumo que pode trazer consequências diretas para a vida cotidiana na Venezuela e, por consequência, para as relações do país com o resto do mundo.

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Jornalista

André Santos

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