“Macho alfa”: oficial cobrava que a esposa PM fosse “fêmea beta obediente e submissa”
Mensagens obtidas pela investigação mostram que o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto se apresentava como um macho alfa e exigia que a sua esposa, a soldado Gisele Alves Santana, fosse “obediente e submissa”. O material, extraído de conversas de WhatsApp, integra o inquérito da Polícia Civil que investiga a morte ocorrida em 18 de fevereiro, no apartamento do casal, no Brás, em São Paulo. Segundo os investigadores, as mensagens revelam um padrão de conduta controladora e autoritária. Em uma delas, o oficial afirma: “Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa” — com visão de provedor e de autoridade de Macho Alfa.
Além disso, o conteúdo traz imposições sobre a rotina da vítima, incluindo restrições a roupas e a contatos sociais. “Não cumprimentar homens com beijo no rosto e abraços” aparece como diretriz entrelaçada à dinâmica do relacionamento. Em outra passagem, o coronel afirma: “Lugar de mulher é em casa cuidando do marido e não na rua caçando assunto”. A investigação aponta ainda para regras rígidas, alimentadas por discursos que remetem a visões reducionistas de gênero, associando poder econômico à submissão feminina.
Na prática, as mensagens exibem uma lógica de controle, com frases que deixam clara a ideia de que, enquanto a esposa vivesse sob o “comando” dele, tudo seguiria do jeito dele. “Mulher casada comprometida e que o marido é o único provedor do lar tem regras a cumprir”, escreve o militar — e, em outro trecho, ele vincula a necessidade de relações íntimas à contribuição financeira dele: “Eu contribuo com o dinheiro, sou o provedor. Você contribui com carinho, atenção, amor e sexo.”
Para o Ministério Público, o conjunto de mensagens reforça a motivação de um crime marcado pela violência de gênero. A denúncia sustenta que o oficial matou a esposa por ciúmes e possessividade e tentou simular suicídio, manipulando a cena. A Justiça aceitou a denúncia e decretou a prisão preventiva do tenente-coronel, que permanece detido no presídio militar Romão Gomes. O caso deve ser julgado pelo Tribunal do Júri, responsável por crimes dolosos contra a vida, e a Promotoria pleiteia uma indenização mínima de R$ 100 mil à família da vítima. A defesa sustenta que as acusações devem ser analisadas pela Justiça comum, negando as acusações.
O episódio se insere num contexto de endurecimento das leis contra o feminicídio, que passou a prever penas ainda mais severas no Brasil. No final das contas, leitores são convidados a refletir sobre como tais relatos repercutem no cotidiano, na forma como enxergamos relacionamentos e na responsabilidade de autoridades que lidam com casos de violência de gênero.