Lula e von der Leyen celebram assinatura UE-Mercosul após 25 anos

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Com von der Leyen, Lula comemora assinatura do acordo UE-Mercosul: ’25 anos de espera’

Pacto cria maior zona de livre comércio do mundo e será firmado no sábado em Assunção, mas ainda enfrenta desafios cruciais no Parlamento Europeu

Numa reunião movimentada pela véspera da assinatura, o presidente Lula recebeu no Rio de Janeiro a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, sinalizando o fechamento de um acordo que ficou no papel por mais de duas décadas. O pacto promete consolidar uma maior zona de livre comércio global, reunindo cerca de 720 milhões de pessoas e um produto interno bruto de US$ 22 trilhões, mas precisa atravessar ainda entraves no Parlamento Europeu para ganhar vida plena.

O clima entre os dois lados é de celebração, porém o caminho até a assinatura em Assunção não está livre de dificuldades. A implementação depende de aprovação legislativa na União Europeia, o que pode levar meses e não está assegurado, diante de resistências em parte das vozes dentro da instituição.

Amanhã, em Assunção, União Europeia e Mercosul vão celebrar uma parceria que pode ser história, reunindo uma enorme base de consumidores e abrindo caminho para uma cooperação ampla”, destacou Lula, ao mencionar que o acordo surgiu após 25 anos de negociação. Ele ressaltou que o entendimento ultrapassa a esfera econômica, estimulando a democracia, direitos humanos e proteção ambiental como pilares da relação entre os blocos.

Von der Leyen, por sua vez, celebrou a construção de uma “geração inteira” de cooperação e agradeceu a Lula pela liderança na condução das tratativas. “Agradeço por conduzir negociações com firmeza para entregar esse acordo histórico”, afirmou a chefe da Comissão Europeia, destacando o espírito de parceria que envolveu as conversas ao longo de mais de duas décadas.

A reunião ocorreu no dia que antecede a cerimônia de oficialização, que envolve o bloco formado por Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai (com a participação mais recente da Bolívia) e os 27 membros da União Europeia, em Assunção, capital paraguaia. O Brasil ocupa, desde 2025, a presidência rotativa do bloco, e Lula não participará da solenidade: a delegação ficará a cargo do ministro de Relações Exteriores, Mauro Vieira.

No horizonte, os próximos passos apontam para uma negociação histórica que já dura mais de 20 anos. A Comissão Europeia negocia com o Mercosul desde 1999, buscando criar, na prática, a maior área de livre comércio do planeta, com mais de 700 milhões de consumidores e a promessa de eliminar tarifas sobre boa parte do comércio bilateral. Para alguns governos europeus, como Alemanha e Espanha, o acordo é visto como estratégia vital para abrir novos mercados, compensar perdas decorrentes de tarifas norte-americanas e reduzir a dependência da China, mantendo ainda o acesso a minerais críticos. Por outro lado, a França tem manifestado preocupações sobre impactos no setor agrícola local, o que alimenta a oposição interna.

Um capítulo técnico importante é a aprovação provisória, facilitada pelo Chipre, que preside a União Europeia e utilizou uma manobra legal para permitir a aplicação inicial do acordo antes da análise do Parlamento Europeu. A decisão, porém, gerou controvérsia, já que a entrada em vigor plena depende da anuência de, pelo menos, um país do Mercosul. Dessa forma, o acordo está sujeito a incertezas: sem a aval final, ele não pode entrar em vigor como um tratado completo.

No geral, ainda há um longo caminho pela frente. A aprovação final do Legislativo europeu pode exigir tempo e convocações, com aproximadamente 150 eurodeputados já sinalizando resistência e até mesmo a possibilidade de questionar juridicamente certos pontos. Nesse cenário, a leitura mais comum é de que a votação tende a ser apertada, aumentando o suspense sobre o desfecho na prática.

Entre os desdobramentos esperados, há a expectativa de que a União Europeia adote uma posição firme para avançar com a aprovação, ainda que grupos ambientalistas europeus e alguns setores agrícolas peçam cautela. O presidente da Comissão de Comércio do Parlamento Europeu, Bernd Lange, transmitiu confiança de que o acordo deverá obter o aval final entre abril e maio, abrindo caminho para a implementação gradual, caso aprovado.

Para o cotidiano do brasileiro que consome, produz e negocia com o exterior, o que está em jogo não é apenas uma conta de números. Trata-se de um patamar de cooperação mais amplo, com promessas de mais diálogo político, padrões elevados de direitos trabalhistas e proteção ambiental que, na prática, podem influenciar decisões de investimento, empregos e preços no dia a dia.

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Jornalista

Fernanda Costa

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