Os motivos pelos quais Lula ainda não faturou politicamente com a isenção do Imposto de Renda
Datafolha mostra que eleitor que ganha entre dois e cinco salários mínimos prefere Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao atual presidente
Nova leitura sobre a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5.000 por mês aponta que o benefício ainda não moveu a popularidade de Lula entre o público de renda mais próxima da classe média. Além disso, crises públicas recentes, o tempo que o dinheiro demora a chegar para quem é beneficiado e o perfil desse eleitorado ajudam a compreender o cenário que se desenha no dia a dia das urnas.
Os números chegaram com destaque na sondagem Genial/Quaest, divulgada recentemente, que mostra que não houve melhora na avaliação do governo com a nova tabela do IR. Na faixa estudada, 62% dizem não ter sido beneficiados pela medida e 36% afirmam ter recebido o benefício — índices que recuaram ligeiramente em relação à rodada de fevereiro, que era 63% e 34%, respectivamente. No mesmo grupo, a rejeição ao governo cresceu: 54% desaprovam Lula, contra 41% que aprovam. O efeito não chegou a encorajar o apoio dentro do recorte de renda analisado.
No campo eleitoral, o Datafolha, em nova amostra dentro dessa camada, aponta que a aprovação de Lula permanece estagnada e a simulação de segundo turno contra Flávio Bolsonaro (PL) mostra queda em comparação com meses anteriores. A leitura é de que, entre eleitores com renda entre dois e cinco salários mínimos, Flávio apareceria com 48% frente a 40% de Lula — empate técnico, segundo a margem de erro de quatro pontos. Em dezembro, a vantagem era de 47% para Lula e 40% para Flávio, mantendo o mesmo estrato e o mesmo intervalo de erro.
Essa faixa de renda tem mostrado a dificuldade de Lula de transformar expectativa em adesão real, e a partir daí surgem explicações sobre o cenário desanimador. O cientista político Marco Antônio Teixeira, da FGV, aponta que uma sequência de crises associadas ao governo dificulta a consolidação de uma imagem mais positiva entre esse eleitorado, ainda que haja entregas populares em políticas públicas. “>O escândalo do INSS, a questão do Lulinha e toda a trama em torno ao Carnaval criaram uma agenda negativa que ocupou espaço e afastou esse grupo da leitura positiva do governo<”, avalia o especialista.
Para o também cientista político Rodrigo Prando, da Universidade Mackenzie, o atraso na percepção de benefícios também pesa. “Há uma questão de timing: o dinheiro demora para aparecer no bolso do trabalhador, e, em muitos casos, o ganho não chega a impactar o 14º salário esperado por quem está sem carteira assinada. Mesmo com a isenção anunciada, o efeito prático no ano eleitoral ainda não foi sentido”, avalia. Além disso, vale lembrar que a isenção de IR para quem ganha até R$ 5.000 por mês foi aprovada em 2025, mas não vale para a declaração a ser entregue em 2026 — e, em 2025, a faixa de isenção era até dois salários mínimos por mês.
Especialistas ressaltam ainda que a rejeição permanece maior entre a classe média que fica mais perto do patamar de renda analisado, fortalecendo a percepção de que o eleitorado, de fato, tende a mirar candidatos ligados a outras correntes políticas. Segundo Prando, “historicamente Lula tem apresentado melhor desempenho entre as camadas mais pobres, enquanto Flávio ou Bolsonaro costumam ir melhor nessa faixa intermediária. Isso explica, em parte, o resultado dentro de dois a cinco salários mínimos”.
Diante desse conjunto de fatores, o tema volta a soar como um recado sobre comunicação política: é preciso traduzir, de forma mais clara, o que o governo entrega de fato para esse público, não apenas sob a ótica de números, mas no cotidiano das contas. O recado dos especialistas é claro: o efeito prático da isenção ainda está em construção, e o cenário pode exigir ajustes de abordagem ou timing para que haja reversão de percepção antes das próximas decisões eleitorais. No fim das contas, a leitura é de cautela, com a expectativa de que mudanças na comunicação pública possam, aos poucos, resgatar apoio entre a faixa de renda mais sensível ao tema.