Lula participa hoje de cúpula de IA na Índia
O presidente Lula desembarcou nesta quarta-feira (18) em Nova Déli. O primeiro compromisso é previsto para esta quinta-feira (19).
A Cúpula de Impacto da Inteligência Artificial, realizada na Índia, chega com tom mundial e contexto estratégico: são cinco dias de debate em Nova Déli, reunindo presidentes, primeiros-ministros, executivos de tecnologia, pesquisadores e líderes da sociedade civil. A pauta é ampla e gira em torno de segurança, governança e cooperação global para moldar o futuro dessa tecnologia, especialmente no Sul Global.
No centro das conversas, o discurso de Lula traz uma leitura clara: a IA carrega um duplo impacto. Por um lado, avanços que elevam a produtividade de indústrias, serviços públicos, saúde e energia; por outro, riscos que não podem ser ignorados. O presidente destacou que toda inovação de grande alcance traz questões éticas e políticas, lembrando que alguns caminhos podem gerar consequências muito negativas, como uso autônomo de armas, discurso de ódio, desinformação e violações de privacidade. Em suas palavras, conteúdos falsos manipulados por IA podem distorcer processos eleitorais e colocar a democracia em risco.
Além disso, Lula traçou a imagem de uma IA que exige regulação. Ele defendeu que regulamentar as big techs é indispensável para ampliar direitos humanos no espaço digital, manter a integridade da informação e proteger as indústrias criativas. O dirigente alertou que quando poucos controlam algoritmos e infraestrutura digital, não se trata apenas de inovação, mas de dominação econômica e tecnológica.
No discurso, o tema também ocupou espaço para discutir o modelo de negócio dessas plataformas: depende da exploração de dados pessoais, da renúncia à privacidade e da monetização de conteúdos que amplificam tendências radicais. A avaliação é de que o regime de governança da IA deverá definir quem participa, quem se beneficia e quem fica à margem.
Em termos de posicionamento, o Brasil defende uma governança que reconheça a diversidade de trajetórias nacionais e garanta que a IA fortaleça a democracia, a coesão social e a soberania dos países. No dia a dia da cúpula, a presença brasileira sinaliza um engajamento amplo para moldar padrões globais de IA, preservando a autonomia estratégica do Brasil.
Outro ponto da agenda foi a reunião com o CEO do Google, Sundar Pichai. O encontro ressaltou a importância do Brasil para a atuação da empresa no país, incluindo a inauguração de um Centro de Engenharia em São Paulo e parcerias com o setor público. Do lado do governo, Lula apresentou visões sobre projetos para atrair investimentos no setor de data centers e reforçou a preocupação com os riscos associados às IA. Segundo o relato de Lula, Pichai mostrou-se disponível em ampliar a parceria com o Brasil e desenvolver ações conjuntas com o setor privado.
Entre os compromissos da comitiva brasileira, destaca-se o discurso de quinta-feira, seguido, na sexta-feira (20), por um evento paralelo intitulado “IA para o bem de todos”, com a participação de ministros de várias pastas para apresentar as perspectivas do Brasil. No sábado (21), o presidente fará uma visita de Estado à Índia e deverá manter encontros com lideranças indianas, incluindo o primeiro-ministro Narendra Modi, para alinhar cooperação em comércio, defesa, tecnologia, avanços digitais, energia e finanças, entre outros tópicos de interesse comum. E, ao longo da próxima semana, o programa prevê encontros com o presidente sul-coreano e a participação em um fórum empresarial com mais de 200 executivos brasileiros, ampliando o foco em inovação e investimento.
Entre os desdobramentos da parceria com a Índia, circula a ideia de uma Parceria Digital Brasil–Índia para o Futuro, que incluiria programas de infraestrutura pública, identidade digital, pagamentos digitais, compartilhamento de dados e uma rede aberta de IA para ações climáticas em países em desenvolvimento. A colaboração também miraria avanços em grandes modelos de linguagem, cooperação em semicondutores e governança de internet com respeito a direitos autorais. O objetivo é evitar que o Sul Global fique aquém na corrida tecnológica, garantindo que o Brasil tenha voz ativa no desenho dessas novas tecnologias e, sobretudo, que o desenvolvimento seja mais inclusivo e justo para a população.
No âmbito de minerais críticos, o governo brasileiro sinaliza um memorando de entendimento com a Índia, buscando ampliar o processamento interno e reduzir a dependência externa, sem firmar acordos que criem exclusividade. O movimento faz parte de uma estratégia mais ampla para reforçar a soberania tecnológica e econômica, com foco em setores estratégicos como defesa, tecnologia de ponta e transição energética.
No fim das contas, a participação do Brasil nesta cúpula coloca a IA no centro de uma agenda de governança que visa equilibrar inovação, direitos e oportunidades, garantindo que o país tenha protagonismo na construção de regras que promovam desenvolvimento, inclusão e proteção aos cidadãos.