Governo Lula celebra com cautela a queda do tarifaço de Trump e turbina aposta na diplomacia comercial
Dados mostram que estratégia de diversificar parceiros em meio a tarifaço ajudaram Brasil a ampliar exportações
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva encerrava, nesta semana, a sua visita que levou o governo brasileiro a Coreia do Sul e à Índia, quando veio a público uma notícia que interferia diretamente na cabeça de qualquer balanço econômico: o chamado tarifaço imposto pelo ex-presidente Donald Trump aos exportadores de várias nações, inclusive o Brasil, foi parcialmente derrubado pela Justiça americana. Em resposta, o que se viu nos bastidores foi de cautela e pragmatismo: autoridades evitaram celebrações muito efusivas, enquanto Trump sinalizou novas tarifas de até 15% em alguns setores, o que manteve o ambiente econômico internacional bastante instável. No Brasil, a reação foi manter o foco na relação com os Estados Unidos, mas com o pé atrás, conscientes de que ainda há números que pesam no câmbio entre comércio e emprego.
Na prática, a decisão não apenas abriu espaço para respirar, como acelerou a leitura do que já vinha sendo feito no dia a dia do governo: diversificar parceiros para compensar a pressão dos EUA sobre as exportações brasileiras. Em paralelo, Lula viajou para a Ásia para ampliar mercados, buscando reduzir o impacto da queda das vendas brasileiras aos Estados Unidos. Dados oficiais mostram que, mesmo com a queda de 6,6% nas exportações para o país norte-americano entre 2024 e 2025, o conjunto das exportações brasileiras cresceu cerca de 3%, sustentando uma performance que os técnicos preferem qualificar como resiliente em meio a turbulências.
A Índia, primeira parada de Lula na peregrinação asiática, registrou incremento considerável — o que ajudou a compensar parte do recuo nos EUA. As exportações brasileiras para a Índia subiram em torno de 30% no período, com o petróleo ocupando uma posição de destaque nesse fortalecimento. E não foi sorte de uma trajetória pontual: segundo análises oficiais, esse movimento de reorientar mercados ganhou corpo ao longo de 2024 para 2025, refletindo uma estratégia que não depende apenas de uma única vitrine.
No estudo mais recente da AMCHAM Brasil, divulgado no fim de 2025, ficou evidente o tamanho do impacto. O déficit da balança com os EUA, que já era sensível, agravou-se durante o tarifaço, levando o saldo para números muito mais negativos. Entre 2024 e 2025, as exportações brasileiras para os EUA recuaram, enquanto as importações norte-americanas aumentaram de modo significativo — um quadro que acabou elevando o déficit total para US$ 7,5 bilhões em 2025, ante US$ 0,3 bilhão em 2024. Além disso, a participação dos EUA no total de exportações caiu de 11,9% para 10,6%, mantendo o posto de segundo maior destino após a China, mas evidenciando a distância que o país ainda precisa percorrer para retornar aos níveis de antes do tarifaço.
Os números também mostram a outra face da moeda: as importações brasileiras de produtos norte-americanos avançaram 11,3%, totalizando US$ 45,2 bilhões, enquanto as exportações para os EUA caíram para US$ 37,7 bilhões em 2025, frente a US$ 40,4 bilhões no ano anterior. O retrato geral aponta para um ambiente em que setores específicos sofreram mais com o encarecimento de insumos e componentes — entre eles cerâmica, máquinas e equipamentos — levando algumas indústrias a buscar fábrica no exterior ou a acelerar investimentos para manter a produção no país.
No dia a dia, porém, a narrativa também traz outra perpectiva: a necessidade de ampliar o alcance de parcerias fora do eixo EUA-China. Entre 2024 e 2025, o volume total exportado pelo Brasil subiu de US$ 337 bilhões para US$ 348 bilhões, um ganho acima de três por cento que, somado ao aumento de clientes, reforçou a ideia de diversificação como alívio estratégico. A China manteve sua posição como principal destino, mas países como Argentina, Índia, Reino Unido e Paquistão entraram com força no mix de compradores. A Índia, por exemplo, elevou significativamente as compras de petróleo brasileiro, óleo de soja e algodão — números que ilustram a fatia crescente de produtores nacionais em mercados emergentes.
Essa virada para além dos tradicionais mercados também aparece na contabilidade de novos acordos. O Brasil, junto aos seus pares do Mercosul, avançou em tratados com a União Europeia, firmando acordos de livre comércio que consolidam uma nova rota de crescimento para os anos recentes. Além disso, o bloco assinou, no fim de 2025, um acordo com a EFTA, abrindo as portas para exportações em condições mais vantajosas com Noruega, Suíça, Liechtenstein e Islândia. Ao mesmo tempo, negociações com Canadá seguiram em andamento, projetando novas perspectivas para um acordo no estilo do firmado com a UE. E, para quem viaja pela diplomacia, Lula sinalizou que a agenda com Washington poderia ganhar um impulso com a eventual aceleração de conversas também em Mercosul, já que há sinais de que o tema pode ganhar ritmo durante encontros com autoridades dos EUA.
Entre os bastidores diplomáticos, há quem veja nessa guinada uma oportunidade de deixar a pauta de lado para manter o foco no que interessa ao leitor comum: a cooperação em temas estratégicos como combate ao crime organizado e o desenvolvimento conjunto de projetos ligados a minerais críticos e terres raras. A expectativa de uma reunião entre Lula e Trump, já anunciada para meados de março em Washington, reforça a ideia de que a agenda bilateral pode se tornar mais previsível, caso haja bom senso de ambas as partes. Enquanto isso, o governo americano já mostrou movimentos de alívio, removendo sanções a alguns ministros do STF e flexibilizando tarifas em setores específicos, abrindo espaço para conversas mais profundas sobre acordos comerciais e cooperação tecnológica.
No fim das contas, o momento parece indicar uma tendência: a queda parcial do tarifaço permitiu que o Brasil mantivesse a cabeça fria diante de um quadro internacional volátil. A aposta na diplomacia comercial — com foco em novos mercados, cooperação em minerais estratégicos e uma agenda mais pragmática com os EUA — pode se transformar em um eixo de crescimento que ajuda a amortecer o impacto de choques tarifários, protegendo empregos e consolidando um Brasil mais conectado ao restante do mundo.