Liderança de projetos ainda é masculina, afirma diretor de One Piece

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“Projetos costumam ser liderados por homens”: diretor de One Piece revela a dura realidade que ainda permanece na indústria dos animes

Goro Taniguchi gostaria de mudar como histórias são protagonizadas

Em entrevista recente, Goro Taniguchi, conhecido por dirigir One Piece: Red e pela franquia Code Geass, encara uma realidade dura que ainda marca a indústria dos animes: a forma como as narrativas são concebidas, quem as comanda e para quem realmente são feitas. O cineasta aponta que o setor continua a segmentar grande parte de seus projetos por demografias e faixas etárias, o que acaba levando a protagonismos fortemente masculinos, mesmo quando há figuras femininas relevantes ao redor da trama.

No enfrentamento a esse quadro, Taniguchi apresenta L’etoile de Paris en fleur, seu novo filme que coloca duas jovens no centro da história. A narrativa se passa em Paris, em 1912, acompanhando Fujiko, uma sonhadora que almeja se tornar artista e, ao mesmo tempo, deseja ser uma boa esposa que apoie o marido. Ao reencontrar Chizuru após cinco anos, as duas embarcam juntas na missão de transformar esse sonho em realidade. Para orientar os passos de Chizuru, Fujiko recorre a Olga, uma ex-bailarina russa que atua como mentora, ensinando as artes e a disciplina necessária para o sonho se tornar concreto. Olga, por sua vez, é mãe de Ruslan, um menino que vive no mesmo edifício e cujos destinos acabam se entrelaçando pela coincidência de pequenas escolhas no dia a dia.

O projeto não se prende a fórmulas de ficção científica ou robôs, como costuma acontecer em muitos títulos de anime. Taniguchi afirma ter buscado uma abordagem mais humana, capaz de dialogar com um público amplo e diverso, sem se enquadrar rigidamente nos padrões de shoujo ou shounen que costumam ditar o tom de muitos lançamentos. Na prática, ele aponta um ângulo diferente que pode abrir espaço para narrativas mais abertas, com protagonistas femininas fortes ocupando lugares centrais ou desempenhando papéis que dialoguem com diferentes perfis de público, sem perder a qualidade de produção.

Essa visão aparece em meio a uma reflexão mais ampla sobre a indústria. No dia a dia, as lideranças costumam permanecer sob a influência de decisões tomadas por homens, o que, segundo o cineasta, pode limitar o alcance de novas perspectivas narrativas. Além disso, não faltam sinais de que a produção de anime enfrenta entraves: grande parte dos títulos é adiada ou sofre com crises de cronograma, um tema que ganhou ainda mais espaço quando figuras como Hideaki Anno, criador de Neon Genesis Evangelion, levou a público a preocupação com o estado da animação japonesa e pediu apoio governamental para enfrentar os desafios da área.

Para os fãs e leitores, o cerne da discussão fica no seguinte ponto: mudanças no eixo de protagonismo podem favorecer histórias mais diversas, com personagens femininos ganhando protagonismo ou, pelo menos, ocupando papéis centrais bem estruturados. A proposta de Taniguchi, ao mesclar referências históricas com uma leitura contemporânea de público, cria um convite para repensar o que consumimos, como consumimos e quem comanda esse consumo. No fim das contas, é um chamado para ampliar os horizontes da narrativa, sem perder a qualidade da aventura e da fantasia que movem a indústria e o interesse do público.

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Jornalista

Carlos Ribeiro

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