Isis Broken reflete sobre maternidade e carreira musical: ‘Lancei meu disco com apoio do governo Bolsonaro’
Na indústria do audiovisual há alguns anos, ela é uma referência quando o assunto é arte e transgeneridade
Com 31 anos e origem no Sergipe, Isis Broken se tornou, nos últimos tempos, uma voz marcante tanto na música quanto na atuação, especialmente por atravessar fronteiras entre arte e identidade trans. Em entrevista reveladora, ela conta como foi crescer em uma região onde sonhar alto exigia coragem e, ao mesmo tempo, como a maternidade se conectou a uma trajetória de palco e tela. A história dela faz parte de uma série que destaca pessoas trans em diferentes áreas, mostrando que talento, estudo e persistência podem desenhar caminhos até então improváveis.
O percurso não veio de forma simples. O desejo de ser artista esteve sempre presente, mas exigiu vir a público com uma presença firme, sobretudo diante de um ambiente onde ser trans ainda é visto com resistência. Nesse sentido, Isis relembra a atmosfera de família dedicada às artes: o avô repentista e cordelista, a mãe professora e o pai grafista ajudaram a moldar uma visão de mundo em que a arte pulsava diariamente. No dia a dia, essa herança cultural ajudou a transformar obstáculos em passos de avanço, mesmo quando a família recebia olhares tortos por apostar na carreira artística de uma mulher trans.
No entanto, a artista não esconde os percalços. A desconfiança de quem vem de um estado menor do país, a falta de oportunidades e o preconceito foram barreiras reais, que ela enfrentou com trabalho intenso e uma formação dedicada. Nesse período, o que se tornou um marco para a sua expressão artística foi justamente a capacidade de quebrar barreiras. Como ela mesma diz, cada conquista foi fruto de muita dedicação aos estudos de artes cênicas e de uma disciplina que a ajudou a manter o foco mesmo diante das críticas.
Em meio a esse percurso, houve um momento de virada que acabou gerando um debate público inédito para a artista: o lançamento do seu primeiro disco, Bruxa Cangaceira, que chegou a ser descrito, de forma irônica, como financiado pelo governo. O causo ganhou contornos de polêmico, com Isis comentando que a produção foi viabilizada dentro de um projeto de captação da época. Em diferentes momentos, ela reforçou que não se tratava de adesão a uma linha política específica, mas sim do fato de ter conseguido viabilizar um trabalho artístico que carregava a marca de uma identidade que não cabia nos padrões vigentes. ‘Morte ao governo que pagou esse disco’ foi uma linha de abertura que ela utilizou para provocar reflexão sobre o peso da visibilidade trans na cultura brasileira, num contexto de debate público acirrado.
Além da música, Isis ganhou espaço na televisão e em canais de prestígio da indústria audiovisual. Ela participou de projetos que ajudaram a ampliar o protagonismo de pessoas trans na tela, com participações em programas do GNT e do Canal Brasil, entre outros da família Globosat. Mas foi na continuidade de papéis no cenário nacional que a atriz e cantora consolidou sua relevância: a trajetória no formato de atuação rendeu convites para trabalhos como Histórias Impossíveis e Falas de Orgulho, abrindo caminho para uma presença cada vez mais sólida na TV. Em todos os projetos, o que se destacou foi a preparação técnica, o domínio do ofício e a busca constante por papéis que dessem vez à diversidade.
Um capítulo de destaque veio com o documentário Apolo, que acompanha a história de Isis e de seu marido durante uma gestação trans durante a pandemia. Além de ampliar a visibilidade, o filme lhe rendeu reconhecimento em premiações importantes, incluindo o Festival do Rio, onde foi premiado como Melhor Longa-Metragem Documentário e também pela Trilha Sonora Original, assinada pelo músico Plínio Profeta. Na prática, é a soma de uma vida que reúne arte, coragem, movimento e desejo de transformar a representação na prática, no set e no set de filmagem.
Maternidade travesti é missão, um lema que Isis traz com orgulho para a sua vida. O impacto da chegada de Apolo não se ficou apenas no campo pessoal: ele passou a simbolizar uma nova forma de ver a parentalidade, mostrando que o afeto pode se expressar sem os velhos estereótipos. O filme celebra a criança como uma presença luminosa que irradia educação e respeito, desmentindo narrativas de deturpação e reforçando uma leitura mais ampla de famílias LGBTs. A artista ressalta que o trabalho que desenvolve no set é também uma forma de ampliar o debate sobre a diversidade, lembrando que cada papel alcançado é uma barreira a menos para a próxima geração.
Com esse repertório, Isis Broken se posiciona não apenas como atriz e música, mas como uma referência para a representatividade no audiovisual. Ela aponta que durante muito tempo havia pouca presença de pessoas trans na televisão e no cinema, e que as oportunidades costumavam vir sob moldes de comédia ou de estereótipos, o que dificultava a construção de uma imagem autêntica e respeitosa. Hoje, a visão é outra: cada projeto é uma oportunidade de ampliar o espaço para protagonistas trans, avançando em direção a um cenário mais inclusivo. Assim, ela questiona o que muda na prática quando se percebe que a representatividade é menos uma pauta e mais uma realidade cotidiana.
No horizonte, a artista procura entrelaçar cada vez mais suas duas maiores paixões: o ofício do palco e a maternidade. Diante disso, já se vislumbra a possibilidade de um filme que conte a história de Apolo ou até mesmo novas leituras de projetos que unam as experiências de vida e a expressão artística de forma orgânica. Quem é Isis Broken hoje? Um exemplo de coragem, estudo e talento que transforma cada desafio em uma oportunidade de ampliar
a diversidade na cultura brasileira, estimulando novas vozes e abrindo espaço para que futuras gerações possam sonhar sem limites.
- Participação em programas de TV de destaque (GNT, Canal Brasil, Globosat).
- Consolidação da presença com papéis relevantes em Histórias Impossíveis e Falas de Orgulho.
- Reconhecimento internacional e nacional com o documentário Apolo, premiado no Festival do Rio pela Melhor Longa-Metragem Documentário e pela Melhor Trilha Sonora Original (Plínio Profeta).
- Lançamento de Bruxa Cangaceira, disco que teve viabilização durante o periodo do governo anterior, marcando um momento de debate sobre financiamento público à cultura.
- Compromisso contínuo com a representatividade trans no audiovisual, defendendo que cada personagem na tela é um passo a menos no caminho para a próxima geração.