Lula aponta as consequências arriscadas de uma intervenção na Venezuela: catástrofe humanitária e precedente perigoso
A tensão entre EUA e Venezuela volta a assombrar a região, com o Brasil monitorando o cenário e buscando evitar desdobramentos que afetem a fronteira e a vida de imigrantes
Durante a Cúpula do Mercosul, realizada em Foz do Iguaçu, o presidente Lula deixou claro que uma intervenção armada promovida pelos Estados Unidos na Venezuela seria, na prática, uma catástrofe humanitária para o Hemisfério Sul e abriria um precedente perigoso para o mundo. “Passadas mais de quatro décadas desde a Guerra das Malvinas, o continente volta a ser assombrado pela presença militar de uma potência extrarregional”, afirmou, ressaltando que os limites do direito internacional estariam sendo desafiados por esse tipo de ação.
No bate-papo com a reportagem, a avaliação de parte do governo brasileiro aponta para um cenário que, segundo a leitura de bastidores, remete aos desfechos de Libia e Iraque após a queda de seus regimes, com guerras civis e consequências profundas para a região. Ainda conforme essa visão, a estratégia norte-americana tem privilegiado a pressão econômica sobre a Venezuela, dificultando a exportação de petróleo — a principal fonte de renda — como forma de pressionar o regime, em vez de uma ofensiva direta com navios e aeronaves no Caribe.
Enquanto isso, a tensão entre Washington e Caracas aumentou nos últimos dias, com declarações públicas de que o bloqueio naval poderia fazer parte de um conjunto de medidas para isolar o país. Em tom duro, o presidente Donald Trump afirmou que a Venezuela está cercada pela maior força naval já reunida na história da região, prenunciando um choque que, para muitos, poderia exceder o plano militar tradicional e afetar milhões de pessoas que dependem do petróleo venezuelano.
Entre as preocupações do Palácio do Planalto está a hipótese de um colapso abrupto de Maduro, o que poderia abrir um vácuo de poder pouco previsível e com desdobramentos incertos para a governabilidade do país vizinho. Nesse cenário, a ideia de uma crise humanitária na fronteira, com um aumento repentino de imigrantes venezuelanos em estados limítrofes como Roraima, ganha contornos reais no dia a dia brasileiro. Vale lembrar que, desde 2018, o Brasil já opera a Operação Acolhida, uma ação de assistência humanitária que recebeu mais de 125 mil imigrantes.
Segundo interlocutores do presidente Lula, a conversa com Nicolás Maduro, na semana passada, não tinha como objetivo mediar a crise, mas o Brasil, por ter contato direto agora com os dois lados — Venezuela e Estados Unidos —, acredita estar num papel que pode facilitar um eventual caminho de negociação. Ainda assim, a fonte destacou que não houve oferta de asilo político a Maduro durante as conversas.
Em relação às ações militares em curso, as informações indicam que a ofensiva americana no Caribe ganhou corpo com envio de unidades aéreas, navais e até um submarino, ao longo de agosto. Em setembro, ataques aéreos passaram a visar embarcações que operavam na costa venezuelana, sob o discurso de combate ao tráfico de drogas. Estima-se que dezenas de pessoas tenham perdido a vida nesses ataques. A narrativa oficial dos EUA é de que a Venezuela seria responsável pela exportação de drogas para o território americano, uma acusação que encontra resistência entre autoridades venezuelanas.
No fim de novembro, o acento da força de ataque se manteve com uma impressionante presença de navios de guerra na região, incluindo porta-aviões e destróres, além de unidades anfíbias preparadas para desembarcar milhares de soldados. Imagens de satélite mostraram pelo menos seis embarcações militares na área. O porta-aviões USS Gerald R. Ford, o maior navio da Marinha norte-americana, ficou a cerca de 120 quilômetros ao sul da República Dominicana e, no mês seguinte, mudou de posição, mantendo a pressão na região.
Enquanto a crise se intensifica, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas pediu, em contato com Maduro, uma desescalada imediata para preservar a estabilidade regional. A posição da ONU reforça a busca por contenção e diálogo diante de um cenário que, no dia a dia, poderia impactar diretamente a vida de moradores de fronteira e de comunidades que já enfrentam desafios com a migração.
No balanço final, a percepção de autoridades brasileiras é de que a situação exige muita calma, coordenação regional e canais de comunicação abertos para evitar que decisões externas provoquem uma crise ainda maior. No país, o receio não é menor: manter a estabilidade na área vizinha é essencial para a convivência pacífica entre povos, bem como para a proteção de comunidades que convivem com fluxos migratórios intensos.
- Catástrofe humanitária como consequência de intervenção externa
- Precedente perigoso no direito internacional
- Estratégias dos EUA passam pela pressão econômica e bloqueios
- Operação Acolhida já acolheu mais de 125 mil imigrantes venezuelanos