Hospitais estão sobrecarregados com protestos em massa no Irã, dizem médicos
O Irã acusa os EUA de fomentarem protestos; Donald Trump fez um alerta ao governo de Teerã.
Em dois hospitais de Teerã, médicos relatam que as equipes trabalham com o tempo curto diante do fluxo intenso de feridos provocado pelos protestos que varrem várias cidades do país há semanas. O Hospital Farabi, maior centro oftalmológico da capital, está em estado de crise: as emergências operam perto do limite e cada atendimento requer rapidez e coordenação, enquanto relatos de uma ala de traumatologia de Shiraz repetem esse cenário de sobrecarga.
Na prática, isso acontece em meio a uma escalada diplomática: na última sexta-feira, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse que o Irã está em “grandes apuros” e classificou o risco de violência como real, advertindo que Teerã não deveria começar a atirar, sob pena de retaliação americana. Em resposta, o Irã enviou uma carta ao Conselho de Segurança da ONU responsabilizando Washington pela transformação das manifestações em atos “subversivos violentos” e vandalismo generalizado.
Nesse contexto, líderes internacionais fizeram questão de defender o direito de protesto pacífico. As manifestações ganharam corpo em dezenas de cidades, e diversas organizações de direitos humanos registraram números dolorosos: pelo menos 50 manifestantes mortos, com 15 membros das forças de segurança entre as vítimas, segundo a HRANA. Já o Iran Human Rights (IHRNGO), com base em apuração na Noruega, elevou o total a 51 mortos, entre eles nove crianças. A BBC Persian confirmou identidades de oito entre as vítimas já identificadas e de 22 pessoas cuja ligação com as famílias já foi confirmada.
- Mortos entre manifestantes: 50 (HRANA) / 51 (IHRNGO), incluindo nove crianças
- Feridos graves chegando a hospitais com traumas na cabeça e nos olhos, sobrecarregando equipes médicas
- Atingidos por detenções em massa e prisões: mais de 2.311 pessoas, segundo o monitoramento de Direitos Humanos
Familiares ouvidos pela BBC, via transmissão via satélite, relataram que o fluxo de feridos é intenso, com relatos de muitos atingidos por armas de fogo. Em Shiraz, um médico descreveu um quadro de várias entradas de pacientes críticos, com ferimentos críticos na cabeça e nos olhos — imagens que mostram como a violência tem impactado diretamente o atendimento médico no dia a dia das unidades hospitalares.
No cenário internacional, a resposta foi de preocupação e cobrança. O porta-voz da ONU, Stéphane Dujarric, sublinhou o direito das pessoas de se manifestarem pacificamente e a obrigação dos governos de protegê-lo. Um grupo de líderes europeus — Emmanuel Macron, Keir Starmer e Friedrich Merz — publicou uma declaração conjunta cobrando das autoridades iranianas a proteção da população e a garantia de expressão e reunião sem medo de represália.
Do lado interno, o líder supremo Aiatolá Ali Khamenei manteve um tom firme em discurso televisivo, afirmando que a república islâmica chegou ao poder com o sangue de centenas de milhares de pessoas e não recuará diante daqueles que a contestam. Em pronunciamentos posteriores a uma base de apoiadores, transmitidos pela TV estatal, ele reforçou que o Irã não hesitará em lidar com os “elementos destrutivos”.
Nos bastidores diplomáticos, o embaixador do Irã nas Nações Unidas acusou os EUA de interferência “por meio de ameaças, incitação e encorajamento à instabilidade e à violência”. Enquanto isso, Reza Pahlavi, filho do último xá, descreveu os protestos como “magníficos” e pediu que a mobilização se intensifique. O ex-embaixador britânico no Irã, Simon Gass, advertiu que não há uma oposição organizada suficiente para oferecer uma alternativa ao regime, mas ressaltou que os protestos atuais parecem mais amplos e incluem cidadãos que enfrentam dificuldades econômicas sem precedentes.
Quanto aos desdobramentos imediatos, Trump reforçou que o governo americano acompanha de perto a situação no Irã e que qualquer intervenção não envolve tropas no solo, reiterando que pode agir “de forma contundente onde dói”. Em resposta, as autoridades dos EUA disseram que o chanceler iraniano, Javad Araghchi, chegou a declarar que Israel e Washington estariam alimentando os protestos — uma leitura que o Departamento de Estado retrucou como tentativa de desviar a atenção dos problemas internos do regime.
À medida que a situação perdura, o aparato de segurança iraniano pressiona os protestos com avisos legais e ações coercitivas, prometendo medidas firmes contra quem violar a ordem pública. O Conselho Supremo de Segurança Nacional ressaltou que serão tomadas medidas legais decisivas contra os manifestantes, descrevendo-os como vândalos armados que perturbam a paz. O braço de inteligência da Guarda Revolucionária Islâmica reiterou que não tolerará “atos terroristas” e garantiu que continuará atuando “até a derrota completa do inimigo”.
As notícias que chegam de campo apontam para uma Marcha de solidariedade que se espalha entre cidades e que, mesmo diante de censura e bloqueios de comunicação, não cede. No fim das contas, o que está em jogo não é apenas a contestação ao governo, mas o tipo de país que muitos iranianos desejam — uma nação que respeite a liberdade de expressão, mesmo quando as divergências aparecem com força.