Gouveia e Melo tenta capitalizar o fator Maduro
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Em meio a uma contagem de mensagens que busca associar o seu perfil a cenários de crise global, a equipa de Henrique Gouveia e Melo aposta numa leitura estratégica: capitalizar a ação dos EUA na Venezuela para favorecer o candidato. A linha de campanha aponta que, entre os cinco nomes na corrida, ele seria o mais preparado para lidar com um mundo de incerteza internacional, capaz de apoiar o Governo, sugerir caminhos aos parceiros europeus ou até encontrar-se com Donald Trump na Sala Oval. No arranque oficial da campanha, ao abordar a captura de Maduro, Gouveia e Melo admitiu possuir conhecimentos e capacidades que, do seu ponto de vista, outros não teriam no âmbito geopolítico internacional.
Essa narrativa percorreu várias frentes. Logo nas primeiras intervenções da campanha, o almirante reforçou essa leitura em cenários distintos: depois de falar na Feira do Relógio, em Lisboa, e de subir ao púlpito em Castro Daire, afirmou que a situação internacional é verdadeiramente preocupante. Ao lembrar que, há dois anos, já tinha emitido avisos que muitos concorrentes teriam desvalorizado, acrescentou: “No tempo de incerteza, venho oferecer confiança.” Voltaria a insistir, na única oportunidade de falar aos jornalistas no terceiro dia de campanha, que “tivemos um Presidente dos EUA a dizer que a Europa tem de mudar”, que o mundo está a mudar e que não se pode aceitar candidatos que apenas constroem generalidades e promessas vazias.
Mas a estratégia não se limita a uma só voz. O discurso é, na prática, uma operação coletiva: o mandatário concelhio André Marques da Cunha questionou quem Portugal esperaria cumprimentar ou receber como chefe de Estado a partir de janeiro ou fevereiro, caso o cenário internacional evoluísse. O advogado, antigo ministro e figura de referência para a equipa, sustenta que apenas Gouveia e Melo “poderá representar melhor Portugal, sem qualquer tipo de compromissos” e “poderá dizer sim ao interesse do país e dizer não, sem constrangimento, quando isso for exigido.”
Foi o veterano António Correia de Campos, antigo ministro da Saúde no Governo de José Sócrates, quem sublinhou o grau de cenarização da situação: “Imaginem que Portugal tivesse um primeiro-ministro de quem os EUA não gostavam”; segundo ele, teríamos aqui uma equipa altamente treinada e com equipamento sofisticado para nos proteger — ou, nas palavras dele, para nos “extraírem os nossos dirigentes”. Nesta situação internacional muitíssimo complexa, Correia de Campos considerou que Gouveia e Melo seria, entre os principais candidatos, “a pessoa mais bem preparada, de longe” para enfrentar tais dificuldades. Não poupou os adversários: ao percorrê-los um a um, afirmou que “mete medo” e que não é crível imaginar que Marques Mendes, Seguro ou Ventura enfrentem o que envolve um poderio das nações ou contribuam para uma decisão europeia inteligente que os integre — algo que ele entende como indispensável.
Nesse contexto, Maduro acabou por servir de catalisador para reforçar a percepção de vantagem de Gouveia e Melo. Desde o início do ano, o candidato tem insistido na necessidade de Portugal se preparar para a nova política da Administração Trump. “Vivemos tempos perigososos, com atores poderosos a tentar subverter a ordem mundial em função dos seus interesses”, escreveu em seus textos de leitura estratégica, ao mesmo tempo em que apontou para ameaças que vão além do Leste, como a perigosa pressão de Washington sobre a Gronelândia.
As outras frentes ativas em curso também aparecem no papel: além de defender que é o melhor para chefiar o Estado num cenário de crise internacional, Gouveia e Melo continua a atacar alguns oponentes, destacando Marques Mendes e Seguro como alvos. Por outro lado, mantém certa contenção com André Ventura: em vez de critiques duras, limitou-se a dizer que “André Ventura nunca será Presidente da República”, vendo nisso, segundo o seu argumento, um “perigo” menor.
Não é, porém, o único comportamento que chama atenção. O próprio almirante chegou inclusive a elogiar Marcelo Rebelo de Sousa, no timing em que o Presidente terá devolvido os três diplomas, e deixou claro que “quem decide sobre os ministros é o primeiro-ministro”. Diante de perguntas sobre eventuais falhas de gestão do incumbente, manteve a posição de quem prefere o silêncio estratégico: “A boa governação não se faz na televisão, faz-se no silêncio e na conversa entre gabinetes.” No fim das contas, o objetivo é recapturar uma noção de sentido de Estado e demonstrar que o candidato pode atuar como institucionalista, respeitando o eventual antecessor, evitando ataques pessoais no dia a dia do debate público.
Em termos práticos, o conjunto de ações parece desenhado para oferecer ao leitor comum uma leitura de “preparação” e estabilidade, sem rupture com o passado recente. No dia a dia da campanha, o foco é consolidar a imagem de que, em cenários de crise, o Brasil — ou, nesse caso, Portugal — precisa de alguém que conheça a geopolítica internacional e que não se perca em promessas vazias. No fim, a reflexão fica para o leitor: diante de um mundo em rápida mutação, o que muda na prática para quem vive no cotidiano e depende de decisões estáveis em áreas estratégicas?
- Frentes ativas: capitalizar o contexto internacional, projetar preparo geopolítico, manter distância de ataques pessoais e reforçar o discurso institucional.