Futebol empodera meninas indianas contra casamentos forçados

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Como o futebol está ajudando meninas a lutar contra os casamentos forçados na Índia

Duplas de irmãs de uma aldeia de Rajasthan mostram que esporte pode abrir portas e frear tradições que prendem jovens mulheres

Numa noite quente de verão, Nisha Vaishnav — então com 14 anos — treinava com a irmã Munna, de 18, quando perceberam que várias pessoas da vila as observavam sem qualquer hesitação. Não demorou para ficarem sabendo o motivo: tratava-se de uma família que procurava uma esposa para o filho, uma prática ainda comum na região, apesar da proibição legal. A mãe de Nisha também estava presente e, de início, não se opôs à ideia de casamento. Seguiram para a casa da família Vaishnav, na aldeia de Padampura, no noroeste da Índia, no estado de Rajasthan.

Minha mãe me pediu que tocasse os pés deles em sinal de respeito”, recorda Nisha. “Eu me recusei.”

No dia a dia da vila, as mulheres costumam receber olhares e pressões para manter práticas que limitam a autonomia feminina. Ainda que a lei proíba o casamento de meninas com menos de 18 anos e de meninos com menos de 21 na Índia, a realidade de prantear esse tabu continua no topo de muitos lares. De acordo com dados de Unicef, cerca de 25% das mulheres na Índia se casaram antes de atingir a idade legal. Contudo, é possível perceber uma mudança gradual nas últimas três décadas.

Na prática, porém, as mudanças acontecem de forma gradual e com resistência local. Em Rajasthan, onde Nisha vive, as taxas de casamento infantil costumam superar a média nacional, e as meninas enfrentam barreiras reais para recusar propostas ou desafiar a vontade dos pais. Foi nesse cenário que a história de Nisha começou a tomar contornos de desafio e transformação, impulsionada por um movimento que cruza esporte, direitos das mulheres e oportunidades de futuro.

Foi a irmã Munna quem apresentou o esporte à família Vaishnav em 2022, ao conhecer o Football for Freedom (Futebol pela Liberdade), uma iniciativa sem fins lucrativos dedicada a promover melhorias na vida de meninas por meio do esporte, com atuação em todo o estado. Munna, que tinha descoberto a prática um ano antes, passou a ser a principal defensora do projeto na aldeia, liderando a batalha para convencer autoridades locais de que as jovens deveriam poder viajar para torneios e usar shorts em campo — um rompimento com a visão de mulheres casadas que cobrem o rosto e vestem túnicas largas em público.

Nos primeiros dois ou três dias, as mulheres da aldeia apontavam para nós e diziam: ‘Olhem aquelas meninas mostrando as pernas’”, lembra Munna. “Nós as ignoramos, decidimos que não nos importávamos e continuamos usando shorts.”

O talento de Nisha logo ficou evidente: ela foi convidada a representar a equipe estadual de Rajasthan no Campeonato Nacional de Futebol em 2024. Além disso, adotou o corte de cabelo curto — um gesto simbólico de desafio a uma comunidade onde meninas casadas costumam manter os cabelos compridos como sinal de submissão. Quando surgiu a proposta de casamento vinda da família que a observava durante os treinos, Nisha deixou claro que ainda era jovem demais para casar e que pretendia seguir perseguindo seus sonhos no futebol. Cerca de um mês depois, a mesma família retirou a proposta.

Em 2025, Nisha e Munna também recusaram uma nova proposta de casamento conjunto feita por outra família, que envolvia as duas com o irmão mais novo. As irmãs deixaram claro que não aceitariam casamento infantil e que preferiam se dedicar às carreiras esportivas. Quando o pai de ambas perguntou se havia um namorado esperando por elas no treino, Nisha respondeu com firmeza: “Não há namorado. Eu vou jogar futebol — esse é o meu amor.”

Encontrar espaço para trabalhar com o futebol vai além de uma paixão — é uma rota de entrada no mercado de trabalho e uma forma de conquistar independência. No país, mulheres que se casam na infância correm maior risco de coerção sexual, gravidez precoce, desnutrição e problemas de saúde. Além disso, é comum que abandonem a escola precocemente, o que reduz as chances de melhoria de condições de vida a longo prazo. Para enfrentar esse ciclo, a equipe do Football for Freedom trabalha com famílias para reesclarecer riscos e apresentar caminhos de futuro mais estáveis.

Padma Joshi, da Football for Freedom, ligada à ONG de direitos das mulheres Mahila Jan Adhikar Samiti, salienta que o objetivo é informar as famílias sobre tais riscos sem impor uma agenda estrita: “Quando começamos a conversar, nunca dizemos que estamos introduzindo o futebol para impedir o casamento infantil. Mas, ao longo do tempo, quando as meninas aprendem sobre seus direitos e os efeitos nocivos do casamento infantil, conseguem se posicionar”, explica. A líder ressalta ainda que o destaque no esporte pode abrir portas de emprego no setor público, já que estados reservam parte das vagas para atletas qualificados.

No dia a dia, a pobreza, aliada à tradição, explica boa parte da persistência do casamento infantil na Índia. Muitas famílias veem as meninas como um peso financeiro e, em alguns casos, os casamentos são combinados com homens de idade semelhante ou com homens adultos. Enquanto o matrimônio começa logo após a cerimônia, as responsabilidades passam para o marido e a nova vida, deixando as famílias de origem com pouca participação prática na vida da jovem.

Há uma história de família que revela o peso dessas escolhas: Nisha e Munna têm uma irmã mais velha que se casou em 2020, aos 16 anos, e a mãe delas, Laali, também foi noiva na infância. Quando as meninas defendem as próprias decisões, Laali admite que se preocupa com as filhas, mas que muitos moradores dizem que, se as meninas saem de casa, podem se deixar levar por más influências — por isso o casamento precoce é muitas vezes pretendido apenas “em silêncio”.

Para além da prática cultural, o arcabouço legal no país é claro. Facilitar o casamento infantil é crime, e adultos que promovem ou facilitam esse tipo de cerimônia, assim como responsáveis que autorizam ou negligenciam interromper o casamento, podem ser condenados a até dois anos de prisão, além de multas. Na prática, porém, é comum que testemunhas não estejam dispostas a colaborar com as autoridades, o que dificulta a aplicação da lei. Como explicam autoridades locais, quando há denúncia por parte dos noivos ou da noiva, o casamento pode ser anulado; caso contrário, ele pode já ter sido registrado quando atingirem a idade legal.

As estatísticas revelam a complexidade do cenário. Em 2021, foram notificados 1.050 casos de casamento infantil no país, contra 395 em 2017, de acordo com dados oficiais. Ainda assim, esse total representa uma pequena fração das aproximadamente 1,5 milhão de meninas com menos de 18 anos que se casam a cada ano, segundo estimativas da UNICEF. Contudo, a percepção de que a situação está piorando não é unânime: o aumento de notificações também reflete maior conscientização e fiscalização.

Entre as próprias protagonistas da história, Nisha, hoje com 15 anos, continua estudando e sonha com a chance de vestir a camisa da seleção nacional. Caso não alcance esse objetivo, a possibilidade de candidatar-se a vagas reservadas a atletas no serviço público permitiria que ela alcance independência financeira e liberdade para decidir o próprio caminho. Para competir por essas vagas, a atleta precisa manter o desempenho em nível estadual ou nacional até concluir a universidade.

Já Munna, agora com 19, conseguiu evitar o casamento infantil, mas o peso da pressão para arranjos não desaparece. Os sogros da irmã mais velha continuam insistindo em um enlace entre o filho deles e Munna, e ela enfrenta esse assédio com firmeza. Embora ainda não tenha alcançado o mesmo nível no futebol que a irmã, Munna se tornou mentora de novas gerações, ajudando a treinar meninas no projeto e concorre para concluir a universidade. O sonho é tornar-se professora de educação física, uma função que permitiria autonomia financeira e maior liberdade para decidir o próprio destino. Enquanto isso, ela orienta as jovens atletas a não aceitarem o casamento infantil, dizendo que independente de desfechos, o importante é “ajudar ninguém a perder a chance de ser alguém na vida, de realizar seus sonhos”.

No fim das contas, a história das irmãs Nisha e Munna expõe uma mensagem clara: o futebol pode ser mais do que um esporte. É uma ferramenta de empoderamento que, quando apoiada por políticas públicas, educação e comunidades engajadas, abre portas para que jovens mulheres escolham seus próprios caminhos — dentro ou fora de campo.

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Jornalista

André Santos

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