Flávio Bolsonaro aponta futuro; PT insiste no passado, diz Paulo Tarso

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Flávio Bolsonaro sintetiza o futuro, e o PT ainda faz propaganda do passado, diz Paulo de Tarso, marqueteiro político

Para o veterano da comunicação política, o PT precisa preparar sua militância para um eventual segundo turno. Ele traça o cenário atual, onde o discurso do futuro parece vencer a cada passo, e a direita ganha espaço no debate público.

O cenário internacional, em especial o impulso do projeto Maga (Make America Great Again), ganhou espaço no PAINEL político brasileiro e acabou mexendo na popularidade de Lula, segundo Paulo de Tarso da Cunha Santos. Há mais de 40 anos atuando como marqueteiro, Tarso já coordenou campanhas para nomes do PT e de outras siglas. Hoje, ele observa que iniciativas administrativas, como programas sociais e grandes investimentos, não conseguem mais capturar a atenção do eleitor com a mesma força de antes. “O povo está cansado da pressa que a democracia liberal impõe”, aponta o especialista, lembrando que obras públicas costumam levar anos para ficarem prontas e, nesse ritmo, dão a impressão de inércia.

As sondagens recentes confirmam essa leitura. Em uma rodada da Quaest coordenada pela Genial, Lula aparece com chances de vitória menor do que no passado, dependendo do conjunto de adversários, enquanto o senador Flávio Bolsonaro aparece como um nome capaz de mudar o ritmo da campanha. Na prática, o quadro aponta para um segundo turno em que os dois pré-candidatos chegam com cenário de empate técnico em cenários distintos. Em um desses cenários, o relógio eleitoral marca 41% para cada lado.

Tarso reitera que não se trata apenas de vencer no primeiro turno. “A propaganda do PT, centrada em medidas assistenciais, não funciona com a mesma eficiência de antes”, afirma. E ele traz números que ajudam a entender o pulso do julgamento público: por exemplo, 51% desaprovam o governo Lula, 44% aprovam; entre quem recebe o Bolsa Família, a desaprovação sobe para 38%. Além disso, a extensão de benefícios como a isenção do Imposto de Renda não mexeu na renda de 48% dos entrevistados, enquanto 34% afirmaram que a renda aumentou, mas não significativamente. “O Flávio é um sujeito novo, que sintetiza o futuro e o antipetismo”, resume Tarso, destacando que a campanha precisa mirar o porvir, não apenas mostrar o que já foi feito.

Entre os ensinamentos da carreira de Tarso, destaca-se a ideia de que a vitória de uma campanha não depende apenas do vencedor imediato. “A vitória real pode ser a de credenciamento: levar o candidato a sair da eleição com respaldo para voos futuros”, afirma. Ele cita Marina Silva, em 2010, como exemplo de liderança que começou com 4% e terminou com 20% dos votos. Essa visão é comparada à trajetória de Lula, que, segundo Tarso, passou por várias tentativas até ser percebido como alguém escalado para jogar na seleção, pela opinião pública. O marqueteiro ressalta que o legado de uma campanha não se mede apenas pelo desempenho no pleito, mas pela força duradoura que ela confere ao candidato para novos embates eleitorais.

Para as eleições deste ano, Tarso aponta a importância de um balanço entre televisão, rádio e internet. Segundo ele, embora a internet tenha papel decisivo, não há como subestimar o peso de cada meio; um erro em qualquer um deles pode custar a vitória. “No fim das contas, a combinação certa de meios decide o ritmo da disputa”, resume. E acrescenta que os debates continuam valiosos para fixar o conceito entre diferentes públicos, ainda que, hoje, sejam cortados pela internet, o que demanda adaptação rápida das estratégias de comunicação.

O jingle “Lula Lá” aparece como peça-chave de uma campanha que nasceu para mobilizar a militância, com um tom próximo de cântico. Tarso explica que o objetivo não era universalizar a canção para televisão, mas criar identificação entre apoiadores. A composição, marcada por uma cadência repetitiva e um tom quase gospel, acabou virando referência de mobilização, lembrando que a publicidade política pode funcionar de formas diferentes conforme o ritmo do período eleitoral. Em sua leitura, a capilaridade da rede e da televisão torna difícil prever qual mote campeia com mais eficácia, exigindo de um planejador uma atuação híbrida e eficiente em diversas plataformas.

Quando o assunto é educação e formação cívica, o marqueteiro evidencia um ponto central: o PT precisa ampliar o foco em educação para a liberdade, citando Paulo Freire como referência. A ideia é que o país avance não apenas em produção de riquezas, mas também em saberes que possam sustentar políticas públicas com o tempo. “A grande tarefa do Brasil no próximo decênio é educar o cidadão para entender as demandas de um projeto de nação”, afirma, sugerindo uma convergência entre esquerda e direita em torno de um plano para o Brasil.

Sobre o futuro imediato de Lula, Tarso diverge de prognósticos otimistas. Ele não endossa o discurso de que o presidente deva vencer logo no primeiro turno. “A vitória pode nascer do segundo turno, desde que haja preparação para um confronto prolongado”, afirma. Para ele, o governo atual tem potencial, mas falta verniz na comunicação que o envolva: é preciso construir sonhos e realizar promessas com a devida delicadeza, sem perder a dimensão de realismo. A esse respeito, o veterano da política de campanhas ressalta que o PT precisa dialogar com o conjunto da sociedade, não apenas com a base fiel.

Ao longo da conversa, Tarso também deixa claro que não faria campanha para todas as forças da direita. Ele conta que, em sua trajetória, recusou trabalhar para figuras que não representavam seus valores, incluindo adversários considerados extremistas. “Não trabalharia para a extrema-direita, nem por um cachê alto o suficiente para justificar tal compromisso”, diz, revelando uma bússola ética que o orienta em meio a contratos e propostas diversas. Além disso, ele admite que já se arrependeu de apoiar candidatos que acabaram envolvendo-se em casos de corrupção, lembrando que a política é um terreno desafiador e que, mesmo com bons planos, o resultado pode desvirar.“

Entre as reflexões finais, Tarso prevê que o ciclo atual pode sinalizar o fim da era Lula. O caminho, afirma, passa pela construção de um projeto nacional mais amplo, que dialogue com o país que busca inovação tecnológica, educação de qualidade e unidade política. E se o PT não estiver pronto para esse movimento, afirma o marqueteiro, pode ser engolido pela História. Enquanto isso, a política continua sendo um jogo de olhos postos no futuro, com cada discurso carregando a promessa de transformar o cotidiano do eleitor.

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Jornalista

Renata Oliveira

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