Europa mobiliza tropas à Groenlândia; Trump reforça interesse em “conquistar” ilha
Não houve avanços decisivos na reunião de Washington; o tema volta a acender tensões na Otan e entre aliados.
Um destacamento francês de 15 combatentes chegou nesta quinta-feira a Nuuk, capital da Groenlândia, em meio a uma onda de movimentos entre países europeus que preparam reconhecimento e eventual presença militar na região ártica. Além da França, Alemanha, Suécia, Noruega, Holanda e Reino Unido informaram missões de reconhecimento com destino à ilha, enquanto a atenção se volta para o que o presidente dos EUA, Donald Trump, tem reiterado sobre o território.
A Groenlândia, território autônomo dentro da Dinamarca, aparece no radar desde 2019, quando Trump revelou a ideia de comprar a ilha. Em 2025, ao retornar à Casa Branca, ele voltou a colocar o tema no debate, defendendo que os Estados Unidos precisam ter a posse do território por motivos de segurança nacional. Enquanto isso, o governo francês sinalizou que o contingente enviado será rapidamente reforçado com recursos terrestres, aéreos e marítimos, para o que se entende como um apoio político à Dinamarca e à Groenlândia.
O embaixador francês para Assuntos Políticos, Olivier Poivre d’Arvor, descreveu a operação como um “primeiro sinal” claro: “vamos mostrar aos EUA que a Otan está presente”, afirmou, reforçando o papel de aliança militar de 32 países nesse contexto. A movimentação acontece logo após uma reunião, na véspera, entre os ministros de Relações Exteriores da Dinamarca e da Groenlândia e o vice‑presidente americano, J.D. Vance, em Washington.
Ao saírem da Casa Branca, o ministro dinamarquês das Relações Exteriores, Lars Lokke Rasmussen, reconheceu uma “discordância fundamental” com os EUA sobre a Groenlândia. Ainda assim, a conversa resultou na criação de um grupo de trabalho de alto nível para discutir o futuro da região autônoma dinamarquesa. Rasmussen enfatizou que existem “linhas vermelhas” que não podem ser cruzadas, e que o objetivo é encontrar consensos nas próximas semanas. Ele também mencionou a abertura para que os EUA instalem bases adicionais na ilha, se assim for acordado entre as partes.
Em tom firme, o ministro ressaltou que, embora haja espaço para cooperação, não se vê uma solução simples, e a segurança regional continua no centro das discussões. Trump, de sua parte, voltou a reiterar que a Groenlândia é vital para a defesa dos Estados Unidos, mas não foi capaz de trazer um acordo concreto durante o encontro. O que ficou claro é que as conversas não apontaram para um avanço definitivo, ainda que exista boa vontade para manter o diálogo.
Entre as linhas da discussão, há quem reconheça que o debate não se resume a números ou bases: há uma percepção de que as tensões geopolíticas na região do Ártico se estendem a áreas além do Atlântico, envolvendo potências como Rússia e China. Ainda assim, as autoridades dinamarquesas disseram que as reportagens de que haveria presença de navios russos ou chineses ao redor da Groenlândia não refletem a realidade.
Para já, a sequencia prática envolve a formação de um grupo de trabalho que deverá se reunir nas próximas semanas para traçar caminhos possíveis. Enquanto isso, na prática, aumentam as missões de reconhecimento por parte de aliados europeus. A Suécia anunciou já seu compromisso de enviar forças ao território, a pedido de Copenhague. A Alemanha afirmou que enviará uma equipe de reconhecimento para avaliar condições e condições gerais para eventual apoio militar à Dinamarca na garantia da segurança regional. No mesmo dia, o secretário de Defesa do Reino Unido, John Healey, indicou que o país enviará um oficial como parte dessa equipe de reconhecimento. E não menos importante: Paris informou que o país planeja abrir um consulado na Groenlândia no próximo mês, com participação de autoridades que já estão a caminho da região.
O governo dinamarquês manteve a linha de cooperação estreita com aliados, dizendo que qualquer ampliação de presença militar na Groenlândia seria feita “em estreita cooperação com parceiros”. E, de acordo com autoridades locais, a tensão geopolítica que envolve a região ártica reforça a necessidade de um posicionamento claro entre defesa, diplomacia e soberania. No fim das contas, a pergunta que fica é simples: até onde a Groenlândia, com seu governo semi‑autônomo, pode se abrir para alianças estratégicas sem abrir mão de suas próprias referências? A resposta, ainda que complexa, começa a ganhar contornos com as próximas reuniões e com a evolução das decisões em Washington, Copenhague e as capitais europeias.
Enquanto o debate segue, as sondagens indicam um ceticismo considerável entre os habitantes da Groenlândia quanto à possibilidade de ficar sob controle estrangeiro. Em janeiro de 2025, uma consulta municipal mostrou apenas uma parcela muito pequena a favor da ideia, com a maioria expressando receio. Nos Estados Unidos, as opiniões também não são unânimes: a pesquisa Reuters/Ipsos divulgada na metade da semana apontou uma parcela significativa de céticos quanto à ideia de ocupar ou administrar a Groenlândia, o que adiciona uma camada de introspecção às posições oficiais de Washington.
Entre operações internacionais recentes, o foco geopolítico se estende a ações em outras frentes, como a Venezuela e a Síria, com Trump sinalizando que pode adotar medidas adicionais para conter movimentos de resistência no Irã. No entanto, no curto prazo, o que permeia é a ideia de que o Ártico está ganhando protagonismo estratégico, e a Groenlândia, com suas reservas naturais e posição geográfica, se transforma novamente em peça-chave nesse tabuleiro global.