EUA se preparam para atacar o Irã?

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Os Estados Unidos estão se preparando para atacar o Irã?

Imagens de satélite mostram um aumento constante e significativo do poderio militar americano na região. Quais seriam os planos de Donald Trump para Teerã?

No começo deste mês, o tom de Washington já parecia indicar uma escalada. O presidente Donald Trump enviou uma mensagem direta aos iranianos que resistem ao regime, dizendo que “a ajuda está a caminho”. A partir daí, o deslocamento de forças para o Oriente Médio ganhou ritmo — slow, mas constante — alimentando a sensação de que uma nova ofensiva não está restrita a rumores.

É sabido que os Estados Unidos são a máquina militar mais poderosa do mundo. O país já deixou claro, no passado recente, que tem capacidade de agir de forma contundente. Em junho do ano anterior, por exemplo, realizou a chamada Operação Hammer da Meia-Noite, atingindo instalações nucleares no Irã com mais de 100 aeronaves, incluindo jatos furtivos B-2 que partiram rumo ao território iraniano com bombas de precisão antibunker — tudo, aparentemente, sem qualquer perda.

Agora, a pergunta que fica é simples: os EUA estão se preparando para atacar o Irã de novo? A resposta parece se aproximar de sim, especialmente diante da última postagem de Trump sobre o tema nas redes sociais. Ele advertiu Teerã de que, se não houver acordo para limitar seu programa nuclear, “o próximo ataque será muito pior”. Além disso, o presidente ressaltou que uma “armada de grandes proporções” está em caminho, pronta para cumprir rapidamente a missão com velocidade e violência, se for necessário. O tom lembra, de certa forma, mensagens que antecederam ações passadas, inclusive na Venezuela, quando a população teve de lidar com as consequências de ações americanas destinadas a capturar Nicolás Maduro.

Enquanto o relógio aponta para o tempo de negociação, também há quem defenda que a mesa de talks possa ser usada como caminho diplomático, ainda que com prazos cada vez mais curtos. Trump, por sua vez, convidou Teerã para sentar à mesa, mas deixou claro que o tempo estaria “acabando”. No centro do debate está uma pergunta de prática: o que está por vir, no dia a dia, para quem vive na região e para quem acompanha de longe?

As últimas semanas trouxeram relatos de inteligência que, embora públicos, chamam atenção por indicar uma movimentação relevante de aeronaves na região. O Pentágono não detalha as decisões operacionais, mas a BBC Verify conseguiu acompanhar o trajeto de jatos de combate F-15, aviões de reabastecimento e aeronaves de transporte que chegaram ao Golfo. Além disso, houve observação de aeronaves espiãs e drones próximos ao espaço aéreo iraniano, segundo serviços de monitoramento como o FlightRadar24. A leitura é de que parte dessas plataformas pode estar carregando novos sistemas de defesa antiaérea, uma pista de que os EUA pretendem se proteger de retaliações ou de ações contra seus aliados na região.

O Reino Unido também intensificou a presença, enviando um esquadrão de jatos Typhoon para a área. E, no terreno da prática militar, a Operação Espartano Ágil — nome oficial de um grande exercício — busca demonstrar a capacidade de destacar, dispersar e sustentar o poder de combate aéreo em toda a área de responsabilidade do Comando Central dos EUA. A leitura é de que a demonstração não é apenas simbólica: é uma leitura de campo sobre o que o poder americano pode fazer, quando e se for preciso.

Para acompanhar esse movimento, especialistas como Stefan Watkins observaram navios e aeronaves, mantendo um registro das etapas da operação. Entre as surpresas, destacaram-se as aeronaves “espiãs” e de alerta precoce que marcaram presença durante a operação anterior e que reapareceram no radar. Entre os modelos enxergados estão o RC-135, o E-11A BACN e o E-3G Sentry, sinais que, para alguns analistas, “podem indicar que o ataque pode chegar mais cedo do que se espera”.

Outra peça fundamental do tabuleiro é o grupo de ataque do USS Abraham Lincoln, que já circulava pelo Indo-Pacífico e recebeu ordens para retornar ao Golfo. Embora não tenha divulgado publicamente a localização, o registro recente de um V-22 Osprey entrando em Omã, depois de decolar de perto do litoral do Golfo, sugere que a frota pode estar operando próximo de pontos estratégicos no Golfo Pérsico. E o conjunto de forças que compõe o grupo de ataque é robusto: cerca de 70 aeronaves, com jatos F-35 de última geração, três destróieres armados com mísseis Tomahawk e, ainda, um submarino nuclear que também opera a mesma arma, geralmente acompanhado por dois destróieres adicionais já posicionados na região. Em resumo, ter uma grande frota a postos é, segundo o entendimento de Trump, “algo que vamos ver o que acontece”.

Mas quais seriam, de fato, os alvos, caso o optado seja o ataque? O especialista Matthew Savill, do Rusi (Instituto Real dos Serviços Unidos), aponta que, com a posição militar atual na região, os Estados Unidos teriam margem para mirar quase qualquer alvo no Irã, inclusive instalações profundas, que exigiriam o emprego de bombardeiros de longo alcance como o B-2. Ainda assim, fica a pergunta prática: qual seria o alvo imediato?

Ele cita, em primeiro lugar, a possibilidade de atacar instalações militares iranianas específicas — o que incluiria baterias de mísseis balísticos e os sistemas costeiros que poderiam representar uma ameaça. O Irã mantém missiles de curto e médio alcance e uma produção de drones de longo alcance que preocupa alguns aliados na região, que já deixaram claro que não vão apoiar novos ataques. No segundo eixo, Savill aponta a hipótese de mirar no próprio aparato de poder, incluindo estruturas da Revolucionary Guard Corps (IRGC) e, possivelmente, milícias que atuam contra manifestantes. No entanto, partir para o assassinato de líderes iranianos é uma estratégia arriscada e de consequências complexas.

É relevante lembrar que Israel já tentou ações contra autoridades iranianas em conflitos recentes, tendo até rastreado guarda-costas para descobrir suas localizações. Ainda assim, Savill ressalta que o Irã provavelmente aumentou a segurança e dispersou seus líderes desde então. Assim, embora os EUA pudessem acessar posições-chave, o efeito agregado de cada ataque é incerto e pode se estender por meses — ou até anos — até que haja uma mudança significativa no equilíbrio regional.

Interessante é observar que Trump já demonstrou disposição para usar o poder militar, mas, historicamente, evita entrar em conflitos longos e prolongados. Ao mesmo tempo, ele não descartou uma saída diplomática que exigiria que o Irã aceitasse limitar seu programa nuclear. Para Savill, o desafio contemporâneo é simples na ideia, mas complexo na prática: o presidente precisaria ponderar entre o impulso de parecer decisivo e a efetividade real de ações que possam acelerar mudanças sem desencadear uma escalada descontrolada.

No fim das contas, o que parece claro é que a região vive uma fase de alta tensão, onde o diálogo permanece como alternativa — ainda que com o tempo cada vez mais curto. Para o leitor comum, a história não é apenas sobre políticas externas e manobras estratégicas: é sobre como uma sequência de decisões pode afetar a vida cotidiana, a segurança de aliados e a estabilidade de um território que, no dia a dia, já convive com várias frentes de tensão.

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Jornalista

Renata Oliveira

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