Como os EUA vendem petróleo venezuelano e canalizam recursos para o governo de Delcy Rodríguez
Desde a derrubada de Nicolás Maduro, Washington comanda a comercialização do petróleo venezuelano e a gestão das receitas geradas. Entenda como funciona esse arranjo e quais questões ele levanta.
Entre surpresa, dúvidas e um misto de esperança e cautela, a população venezuelana viveu acontecimentos que mudaram o cenário econômico no início de 2026. Em 3 de janeiro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o país assumiria o controle da indústria petrolífera venezuelana. “O negócio do petróleo na Venezuela tem sido um fracasso”, disse ele, prometendo levar grandes companhias petrolíferas americanas para investir, consertar a infraestrutura e gerar lucro para todos. Os venezuelanos, que sempre viram o petróleo como uma identidade nacional, reagiram de modo diverso: reconhecem a importância do recurso, mas observam que décadas de desinvestimento e sanções dificultaram o setor.
Pouco tempo depois, sinais de mudança apareceram no dia a dia: o país recebeu a visita de Chris Wright, chefe da área de energia dos EUA, que se reuniu com Delcy Rodríguez para indicar que os Estados Unidos pretendem mudar a relação com Caracas, com foco em “comércio, paz, prosperidade, empregos e oportunidades” para o povo venezuelano, em parceria com Washington. Na prática, o que se desenha é um novo desenho para a indústria petrolífera venezuelana, ainda envolta em incertezas e controvérsias.
Mas afinal, o que significa esse controle americano sobre a extração e venda do petróleo venezuelano? A dúvida acompanha quem observa os movimentos desde as prisões de autoridades venezuelanas e a reconfiguração das relações internacionais. A resposta não é simples, mas já começa a ficar clara nas próximas peças do tabuleiro.
Foi em 6 de janeiro, apenas três dias após a prisão de Maduro, que Trump anunciou que o governo interino liderado por Delcy Rodríguez entregaria entre 30 milhões e 50 milhões de barris de petróleo aos EUA. A venda ocorreria a preços de mercado, com a renda destinada a favorecer o povo venezuelano e repassada sob controle para financiar o funcionamento do governo. No dia seguinte, o Departamento de Energia americano confirmou que o petróleo seria negociado nesse patamar, sinalizando que o mecanismo não seria permanente, mas temporário para estabilizar a economia no curto prazo.
A PDVSA, estatal venezuelana, confirmou as negociações, mantendo que o acordo é estritamente comercial, com regras de legalidade e transparência que beneficiariam ambas as partes. O Departamento de Energia informou que contactou grandes empresas de comércio de commodities e bancos para viabilizar a operação, aproximando o petróleo venezuelano de refinarias na Costa do Golfo. Em seguida, vieram à tona as empresas envolvidas: Vitol e Trafigura, duas das maiores no setor, com capacidade de colocar o petróleo no mercado rapidamente. Em termos de operação, parte do petróleo passou por serviços de armazenamento e, segundo a imprensa, foi negociado com margens que favoreceram compradores na região.
No discurso de política externa, o secretário de Estado Marco Rubio explicou que essa venda emergencial ajudaria a evitar o colapso de armazenamento da Venezuela, que já não tinha espaço para estocar petróleo devido a bloqueios marítimos e à necessidade de obter recursos para o funcionamento do governo. A ideia era fornecer dinheiro de forma imediata para pagar salários, serviços de segurança e funções básicas do Estado, além de manter uma transição para um sistema mais estável de venda de petróleo a longo prazo. O objetivo declarado foi que o recurso financeiro entre as mãos do governo venezuelano fosse utilizado para manter a máquina pública funcionando, não para alimentar antigos esquemas de corrupção.
Para que o dinheiro fluísse à economia, houve um roteiro de curto prazo: os fundos estariam disponíveis por meio de leilões promovidos pelo BCV, com aquisições viáveis por quatro bancos venezuelanos. Em termos de critérios, especialistas destacam que o controle de quem recebe moeda estrangeira obedeceria a uma divisão prévia de uso: 80% destinado a setores prioritários (alimentação, remédios), 15% para outros setores produtivos e 5% para pessoas físicas. Tudo isso pretendia estar alinhado com os acordos com os EUA, segundo Rubio, com auditorias a posteriori financiadas com recursos venezuelanos.
No desenrolar, o dinheiro já começou a circular. Em 14 de janeiro, ficou registrado que a primeira venda de petróleo venezuelano já havia renderam cerca de US$ 500 milhões (aproximadamente R$ 2,6 bilhões). O montante não ficou sob controle direto das autoridades venezuelanas; ele foi encaminhado a uma conta do Banco Central venezuelano nos Estados Unidos, para depois chegar a uma conta no Catar — operando como um fundo fiduciário entre os EUA e o governo de Delcy Rodríguez. A ideia era que esse dinheiro, sob supervisão, pudesse financiar operações básicas e ainda abrir espaço para conversões cambiais, sempre com autorização prévia do fundo fiduciário.
Enquanto isso, a prática de alocação de moeda continuará ocorrendo por meio de leilões do BCV, com participação condicionada a documentação de quem busca dólares para comprar bens no exterior. O próprio mecanismo pretendia respeitar regras de custo, liquidez e transparência, mas a crítica de especialistas aponta que ainda não há clareza sobre quem aprova as operações, como a taxa de câmbio é definida e como as decisões são monitoradas ao longo do tempo. Ainda assim, já se observa que o BCV negociou, via esse sistema, cerca de US$ 800 milhões, com projeção de chegar a US$ 1,4 bilhão no primeiro trimestre de 2026 — um volume que, aliás, pode sinalizar um ritmo de entrada de moeda estrangeira que descontraia a pressão cambial no curto prazo.
Para alguns analistas, esse movimento representa um avanço em relação ao cenário anterior, em que as sanções dificultavam a venda de petróleo bruto e os recursos chegavam de modo opaco, por intermediários e, às vezes, sem fio direto para a economia real. Ainda assim, existem perguntas relevantes: quanto dinheiro pode de fato chegar aos andares da administração pública para ampliar a oferta de medicamentos, energia e serviços? E quais salvaguardas vão impedir desvios de recursos? A complexidade do arranjo indica que, por enquanto, há ganhos de estabilidade, mas também muitos cuidados pela frente.
Na avaliação de especialistas, o caminho ainda é longo. Enquanto o objetivo é conter a inflação, estabilizar o câmbio e permitir que o setor privado funcione com mais previsibilidade, também é essencial que a gestão receba rigidez para que os recursos cheguem a necessidades básicas sem favorecer práticas antigas. Em síntese, o melhor cenário seria ver o dinheiro promovendo melhoria real nos serviços públicos e, no médio prazo, uma recuperação sustentável da produção — algo que, para o leitor de hoje, pode significar mais confiabilidade no dia a dia da economia venezuelana e menos incerteza para a vida cotidiana.
Por fim, especialistas ressaltam que, embora haja sinalizações positivas, o caminho ainda é cheio de observações críticas. A condução desses recursos precisa de transparência maior, regras claras para participação, e uma auditoria contínua que realmente mostre como o dinheiro está sendo gasto: se vai para abastecer hospitais, comprar remédios, financiar infraestrutura energética ou sustentar salários. Enquanto isso não ficar plenamente resolvido, o debate continua, com o objetivo de transformar o que hoje é uma operação de crise em uma estratégia estável de desenvolvimento — para o bem do povo venezuelano e de quem observa o cenário internacional com atenção.