Brasil é o país da comédia, das historinhas novelescas, fazer terror não é fácil’: a escritora brasileira finalista de um dos mais importantes prêmios do mundo
Ana Paula Maia é a única representante do Brasil e da América Latina entre os seis finalistas do International Booker Prize.
Em mais uma atraente reviravolta da literatura brasileira no circuito internacional, Ana Paula Maia integra o grupo seleto de finalistas do International Booker Prize, reconhecido por premiar obras de ficção traduzidas para o inglês publicadas no Reino Unido ou na Irlanda. O romance que a levou tão longe é a versão em inglês de Assim na terra como embaixo da terra, lançado no Brasil em 2017 pela editora Record e traduzido como On Earth As It Is Beneath. A narrativa mergulha no cotidiano de uma colônia penal em seus dias finais, que vai se transformando, pouco a pouco, em um espaço de extermínio sob a mão de um carcereiro brutal.
Nascida em Nova Iguaçu, no estado do Rio de Janeiro, Maia é a segunda brasileira a chegar à lista final do Booker, após Itamar Vieira Junior, com Torto Arado, em 2024. Em entrevista à BBC News Brasil, a autora lembrou que a participação entre os finalistas traz uma satisfação quase infância: “Adoro estar entre os finalistas com um livro que é visto como terror”. O reconhecimento internacional, contudo, não é uma novidade para ela: ao longo de mais de duas décadas, a escritora construiu uma carreira marcada por uma prosa que mistura noir e faroeste, explorando realidades nascidas em abatedouros, presídios, crematórios e estradas esquecidas.
Atualmente com 48 anos, Maia aponta que seu público começou a crescer especialmente após a obra ganhar versões em espanhol. Ela também observa que o olhar externo costuma ler seus livros de modo distinto do leitor brasileiro: no nosso país, o terror ainda enfrenta resistência, o que, segundo ela, dificulta alcançar maior visibilidade. “Fazer terror aqui não é simples; quando virar literatura, fica ainda mais desafiador”, resume a autora, sem esconder que prefere apostar em camadas mais perturbadoras do que tonar o conteúdo mais suave.
No dia a dia da escrita, Maia diz que o sobrenatural e a brutalidade aparecem de forma quase inexorável: “é o que eu sei fazer”, e ela não consegue se imaginar escrevendo outra coisa. Para a autora, esse mergulho emocional não é apenas estético, mas político e filosófico: a partir de um espaço de confinamento, de opressão e de poder, a obra oferece uma leitura sobre a natureza humana e as dinâmicas de violência que atravessam a sociedade.
Além de lançar romances como Assim na terra como embaixo da terra, Maia acumula trabalhos que chegaram ao cinema — com Enterre Seus Mortos (adaptação de uma de suas obras) — e projetos para TV como a série de terror folclórico Desalma, produzida para a Globoplay. Em entrevistas, a escritora costuma falar sobre a ligação entre o território brasileiro e o que escreve, destacando que a literatura de horror latino-americana tem ganhado destaque justamente por falar de políticas, ditaduras, violência, patriarcado e questões de gênero.
O universo do Booker Prize costuma apresentar uma mistura de línguas e estilos, e, neste ano, a lista reúne obras em alemão, búlgaro, francês e mandarim. O anúncio do vencedor de 2025 está marcado para o dia 19 de maio, em Londres, e faz parte de uma tradição que já contemplou nomes como Margaret Atwood, Olga Tokarczuk, Han Kang e Philip Roth. Ao comentar as chances da brasileira, Maia enfatizou o papel de uma leitura que valoriza o sobrenatural como espelho de tempos conturbados — uma leitura internacional que, segundo ela, reconhece a força de uma escrita que fala de confinamento, resistência e brutalidade com a mesma intensidade com que trata a condição humana.
Para Maia, o segredo está justamente nessa troca entre o local e o universal: “quando a ciência não dá conta de explicar tudo, o sobrenatural tende a ocupar o espaço”, elapondera. E, no Brasil, esse espaço exige coragem: a escritora relembra que, daqui, a cada passo, o leitor encontra resistência, mas também uma base fiel de fãs que a acompanha com atenção contínua, sempre em busca do próximo título.
Assim, em meio a uma trajetória marcada pela observação aguda do cotidiano e pela construção de personagens que não se encaixam nos esquemas tradicionais, Maia reforça a ideia de que a literatura pode (e deve) falar sobre a sociedade por meio do horror — e que é nessa conversa entre o local e o global que as vozes das mulheres latino-americanas ganham justamente o espaço que merecem. No fim das contas, a finalista do prêmio internacional consolidou não apenas o valor estético de seu trabalho, mas também a percepção de que o Brasil tem contribuído com uma expressão única e necessária ao panorama mundial da ficção.