Escândalo do Master é ruim para Lula, mas não muda rumo da eleição, diz fundador de instituto de pesquisa
Para analista político e fundador do instituto Ideia, Maurício Moura, eleitoras da periferia e pessoas fora das bolhas política decidirão a corrida presidencial
Independentemente de quem vencer as eleições deste ano, a disputa promete ser acirrada. Maurício Moura, doutor em Economia e Política e criador do instituto Ideia, aponta que algo entre 4 milhões e 5 milhões de eleitores pode decidir o futuro presidente do Brasil, decidindo se Lula merece seguir no cargo ou se outro candidato deve ocupar o lugar dele. Segundo ele, 3% a 4% dos eleitores que votaram em Lula em 2022 hoje veem o governo com ressalvas, ou até acreditam que ele não merece continuar no poder. Esses eleitores, afirma, serão o fio condutor da eleição.
Para Moura, a explosão do caso envolvendo o Master tende a influenciar pouco a nível presidencial, mas pode agitar o cenário no Senado. Ele ressalta que a Câmara alta costuma pautar o impeachment de ministros do Supremo, e esse tema pode ganhar corpo na corrida porque o eleitor já não está tão próximo de descrições anticorrupção como em 2018. No entanto, a avaliação é que o movimento não tende a transformar drasticamente o panorama para o Palácio do Planalto.
Na prática, Moura compara o cenário com eleições passadas: a Operação Lava Jato só teve impacto relevante anos depois, em 2016 e 2018, e não de forma abrupta nas eleições anteriores. Embora haja sinais de desgaste do governo atual — com governadores mantendo boa avaliação em muitos estados e marcando continuidade — ele vê uma eleição de continuidade, em que o custo de vida e a inflação pesam sobre o eleitorado. O balanço é de que esse escândalo não tem potencial de mudar a trajetória ampla da eleição, ainda que respingue no governo.
Em entrevista, Lula catalogou o episódio como o “ovo da serpente” de Bolsonaro e do ex-presidente do BC, Roberto Campos Neto. Moura, por outro lado, aponta que parte do eleitorado teme que todo mundo esteja envolvido em corrupção, especialmente quem ganha com salários baixos e vive com dívida. Esse público, segundo ele, costuma estar nas periferias urbanas, em áreas do Sudeste e Nordeste, e representa o elo decisivo entre 2022 e este pleito. O perfil é claro: mulheres com renda entre dois e cinco salários mínimos, que costumam ter várias fontes de renda, e que estão longe das bolhas políticas tradicionais.
Quanto à comunicação de Lula, Moura explica que a estratégia de “Lulinha Paz e Amor” funciona mais para a militância do que para influenciar esse grupo decisivo. O foco da campanha para esse público é a rotina diária: custo de vida, emprego e perspectivas de renda. A desaprovação da gestão atual vem principalmente de quem já foi atingido pelo aumento do custo de vida, além de quem votou nele em 2022, mas hoje não vê mais melhoria suficiente. É justamente esse segmento que, na visão do analista, pode desequilibrar a balança.
Essa leitura leva a uma constatação sobre o custo de vida: a chamada affordability — a capacidade das famílias de fechar o mês no positivo — é o tema que bate na porta de quem está endividado e sente que o dinheiro não acompanha o ritmo dos gastos. Mesmo com empregos em alta e salários médios subindo, a percepção de aperto persiste. E, nesse contexto, Moura vê a eleição como uma de oposição, com mais gente desaprovando o governo do que aprovando sua continuidade. A abstenção, aliás, é um ingrediente que não pode ser ignorado: historicamente, o PT é mais impactado por esse fenômeno entre eleitores de menor renda e escolaridade.
Quando o assunto é o papel da oposição, o analista explica que há dois caminhos: um outsider com musculatura, e o líder da oposição, Flávio Bolsonaro, com a vantagem de ser reconhecido pelo sobrenome. Ainda assim, ele alerta que muita gente não sabe o nome de nenhum candidato ainda espontaneamente, o que reforça o conceito de antipetismo de chegada: eleitores que se movem para o lado que parece ter mais chance de derrotar o Lula no segundo turno. A partir disso, Moura aponta que a eleição pode se decidir entre três ou quatro pontos percentuais, muito próxima, com diferentes cenários de aliança e mobilização.
Do ponto de vista econômico e de mercado, a visão é de pragmatismo. O exterior tende a ver Lula de modo mais contido, como líder que não representa riscos radicais, ainda que haja cautela sobre questões fiscais. No âmbito interno, porém, a tensão é maior, com a expectativa de que o novo mandato não desfaça completamente as preocupações com as contas públicas. E, embora o cenário externo tenha potencial de influenciar, Moura sustenta que não há uma figura que substitua a relevância de uma combinação de políticas para manter o equilíbrio fiscal sem frear apostas de crescimento.
Outro ponto, que ele destaca, é a presença da tecnologia e a possibilidade de campanhas serem influenciadas por IA e desinformação. Mesmo com o policiamento das bolhas, Moura acredita que o efeito não deve ser definitivo nesta eleição, justamente pela polarização já estabelecida e pela dificuldade de desconstruir uma imagem consolidada de Lula e de Bolsonaro no imaginário do eleitor.
No que diz respeito ao mercado de capitais, a percepção internacional sobre o Brasil é menos tempestuosa que a percepção doméstica. O externo tende a enxergar o governo atual como mais pragmático, o que reduz a ansiedade de rupturas políticas. Já o mercado interno mantém um olhar crítico sobre a condução fiscal, o que não impede, contudo, que o país siga com políticas estáveis, ainda que sem garantias de o segundo mandato trazer grandes mudanças.
Em meio a esse cenário complexo, vale o fechamento com uma reflexão para o leitor: as próximas semanas vão medir, acima de tudo, a capacidade de reconciliação entre promessa econômica, desgaste político e a eventual capacidade de mobilizar quem sempre fica de fora das discussões intensas. E, no fim das contas, o que parece certo é que a eleição será decidida por um espaço muito estreito — um gap de três a quatro pontos que pode emergir de decisões pequenas, mas decisivas, do cotidiano dos eleitores.