Epstein elogiou Bolsonaro com Steve Bannon: jogo mudou

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Epstein trocou elogios sobre Bolsonaro com Steve Bannon: ‘Mudou o jogo’

Novos documentos sobre caso Epstein foram divulgados pelo governo dos EUA nesta sexta-feira, 30/01.

Documentos do Departamento de Justiça dos EUA, tornados públicos recentemente, revelam uma troca de mensagens atribuídas a Jeffrey Epstein e Steve Bannon, com várias referências elogiosas ao ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro. Entre os trechos divulgados, surge a expressão em inglês “the real deal”, usada por Epstein ao se referir ao líder brasileiro, além de comentários que insinuam uma parceria ou alinhamento entre os dois ao longo de 2018. No caldo da conversa, os nomes de Bolsonaro aparecem como ponto central de um diálogo que cruza política, estratégia e redes de influência, tudo sob o guarda-chuva de documentos judiciais norte-americanos.

O material remete a um momento central da política brasileira: a véspera do segundo turno das eleições de 2018. Naquele período, Bolsonaro disputava a presidência contra o petista Fernando Haddad, tendo obtido números que hoje, à luz dessas mensagens, ganham contornos de avaliação de cenário e de trajetória. O retrato montado pelos trechos revela, de forma contextualizada, como a comunicação entre Epstein e Bannon dialogava com o atual líder do PL, ainda que, segundo as próprias falas, haja cautela quanto à participação direta de Bannon na campanha. “Eles me querem como conselheiro. Devo fazer isso?” pergunta Epstein, e a resposta de Bannon não é direta, mas aponta para um tipo de envolvimento estratégico que cruza fronteiras pessoais e políticas.

Ao contrário de uma linha de apoio formal, as mensagens destacam uma relação de proximidade entre os dois, em que Bannon afirma que estava próximo ao universo que orbitava o ex-presidente. Em contrapartida, Epstein oferece uma leitura provocativa sobre o que pode significar apoiar Bolsonaro, mencionando até o conceito de “reino no inferno” em tom de provocação filosófica. Em linguagem que misturada com o jargão político, o diálogo revela não apenas elogios, mas também uma anuência ambígua com a ideia de participação na cena brasileira, ainda que com ressalvas em relação à montagem de uma aliança explícita.

Além disso, as informações destacam que Bannon chegou a declarar apoio explícito a Bolsonaro naquele ano, o que reforça a percepção de que o então estrategista de Trump via potencial em uma figura brasileira para o cenário regional. Isso, por sua vez, alimenta debates sobre como as redes globais de atuação de Epstein e de figuras do espectro político de direita dialogavam com situações nacionais de governos emergentes. E no meio de toda a narrativa, surge a menção ao Lula em um contexto de diálogos entre Epstein e o filósofo Noam Chomsky, o que adiciona camadas de complexidade às relações entre personagens centrais do período.

Em outro trecho, o empresário volta a falar de uma eventual ida de Bannon ao Brasil para apoiar Bolsonaro, associado a uma leitura de que tal visita poderia favorecer a imagem pública do então candidato e a dinâmica de alianças que se desenhava. Epstein, por sua vez, sugere que, se a vitória de Bolsonaro parecesse certa, seria oportuno manter a imagem alinhada com o movimento, o que lembra a lógica de branding político que circula entre consultorias e redes internacionais. O equilíbrio entre avaliação de risco e interesse estratégico fica explícito quando Epstein comenta sobre o impacto de uma presença em terra brasileira para a “marca” de Bolsonaro.

Entre os trechos mais comentados, está uma passagem na qual Epstein afirma não ter ficado satisfeito com Bolsonaro chamando de “fake news” uma associação com Bannon. O clima de ponderação e cautela parece ser uma linha comum nesses diálogos, que incluem ainda referências ao papel da família Bolsonaro e aos sussurros de que o então candidato contava com a colaboração de figuras externas. Em meio a isso, Eduardo Bolsonaro, filho do presidente à época, aparece em relatos à imprensa sobre a disponibilidade de Bannon para atuar nos bastidores — uma narrativa que Bolsonaro, na resposta pública, tentou minimizar dizendo que a parceria não existia.

Vem à tona, nessa construção narrativa, a expressão de Bannon de que “o Jair está nos bastidores” e que ele próprio não tinha quem o defendesse, o que adiciona uma faixa de leitura sobre as tensões entre influência, segurança e autopreservação no cenário político. A conversa ainda revela que Bannon, embora impressionado com a “dinâmica jovem” da campanha de Bolsonaro, enfatizava que sua atuação pública deveria ser cuidadosa; e Epstein, não por acaso, sinalizava a necessidade de evitar choques com Noam Chomsky em encontros que pudessem expor dissidências entre ideias de esquerda e o que se entendia como propostas de Bolsonaro.

O conjunto de mensagens também aponta para uma relação mais ampla entre Epstein e Chomsky, com indicações de que Epstein poderia ter utilizado habilidades financeiras para facilitar acordos, inclusive oferecendo estadia em suas casas. Em uma linha de diálogo, Henry “lado a lado” com Chomsky, Epstein sinalizava que o amigo de Lula seria um interlocutor que merecia cuidado, ao mesmo tempo em que prometia manter a coordenação por e-mail para facilitar o diálogo entre as partes. O conteúdo, ainda, sugere que Chomsky mantinha trajetória próxima aos vínculos com Epstein, o que ajuda a entender o mapas de relações que circulavam quanto ao debate sobre trabalhadores, impostos e políticas públicas.

Por fim, a leitura dessas mensagens traça um retrato de uma relação entre Epstein e Bannon que envolve não apenas avaliações sobre Bolsonaro, mas também uma tentativa de traduzir esse relacionamento em estratégias que cruzam fronteiras geográficas, econômicas e ideológicas. No dia a dia, o material alimenta a discussão sobre como redes de influência operam nos bastidores da política, criando cordões de ligação que ultrapassam o tempo e o espaço. E a grande pergunta que fica é simples: até que ponto tais contatos influenciam decisões públicas e percepções eleitorais?

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Jornalista

Mariana Silva

Personal organizer que adora soluções práticas para casa. Especialista em maximizar espaços pequenos com produtos inteligentes.

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