Eduardo Leite: Kassab deixa claro que não fica com Lula nem Bolsonaro

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Eduardo Leite: ‘Kassab tem deixado muito claro que não estaremos nem com Lula nem com Bolsonaro’

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O governador do Rio Grande do Sul encara um momento de encruzilhada que pode redefinir o caminho do PSD e, por extensão, a cena política nacional. Eduardo Leite tem interesse claro em concorrer à Presidência, mas depende de um aval ainda incerto do presidente do seu partido, Gilberto Kassab. Se a aposta não vingar, ele avalia a possibilidade de disputar uma das duas vagas de senador pelo RS, enquanto o cenário no estado segue um duelo intenso entre apoiadores de Lula e de Bolsonaro. No fim, pode ficar no cargo até o fim do mandato para apoiar a prática do seu vice e assegurar a continuidade do que considera um projeto transformador para o estado.

Um marco histórico para o RS, Leite foi o primeiro governador reeleito em quase um século no estado e também o primeiro a trocar de partido durante o mandato: em maio deixou o PSDB, ingressou no PSD e passou a defender uma visão nacional que não se rende a nenhum dos extremos. Ele deixou claro que não se sente representado por Lula nem por Bolsonaro, embora reconheça que o governo atual tenha abrigo para integrantes do seu partido — uma prática que ele classifica como parte da lógica de um sistema político brasileiro cada vez mais complexo.

Em entrevista ao jornal, Leite conta que tem se mantido firme na ideia de que, para avançar, o PSD precisa de uma mesa de diálogo aberta e de decisões tomadas no momento certo. A avaliação é de que, localmente, a candidatura ao Senado seria natural — mas tudo depende de uma conjuntura nacional. Caso não haja um projeto nacional que ele possa liderar, ele admite direcionar seus esforços para o Estado com o objetivo de preparar a melhor transição para seu eventual sucessor. No dia a dia, esse seria o foco central do seu mandato, com a construção de alianças que sustentem esse projeto que já mudou a realidade gaúcha.

Kassab tem reiterado que, em 2026, não haverá aliança com Lula nem com Bolsonaro. Diante disso, Leite explica que a política é feita também de pragmatismo: nem toda relação de governabilidade é sinônimo de apoio irrestrito a um projeto nacional, e sim um movimento para manter a agenda pública em funcionamento, especialmente em áreas críticas para a população. “Não é apenas resistência ou oposição simples; é uma via que precisa manter o país em movimento, com o centro buscando soluções que unam discurso firme com responsabilidade social”, diz.

Sobre o futuro do PSD, o governador lembra que há dois nomes na mesa para disputar o Planalto: ele e o governador do Paraná, Ratinho Júnior. Segundo Leite, a decisão não exigirá prévias ou disputas internas abriu espaço para um entendimento entre as lideranças, sempre priorizando o interesse nacional e a unidade do partido. A ideia é evitar confrontos dolorosos e privilegiar um caminho de consenso que permita ao PSD ter papel relevante no cenário político, não apenas como figura de apoio, mas como força capaz de oferecer uma alternativa consistente aos eleitores.

Questionado sobre o seu passado eleitoral, Leite recua de qualquer ideia de “campanha casada” com Bolsonaro em 2018 e esclarece que, em 2022, optou pelo voto neutro. Ao falar sobre a presença de ministros de seu partido no governo Lula, ele reconhece que o PSD teve essa participação por conta de circunstâncias envolvendo governabilidade. Ainda assim, reforça que o propósito é manter um centro político ativo, que não se reduza a apoiadores de um único campo político, mas que busque um caminho diferente para o país — o que o PSD, pela posição de Kassab, pretende consolidar.

Para Leite, o “centro” que defende não significa ficar acima de tudo: é ter posição clara sobre os temas, sem abrir mão de dialogar com diferentes correntes. Entre as bandeiras, ele defende um Estado menor, com muita presença em áreas-chave como saúde, educação e segurança, mas com abertura para privatizações onde for eficiente. Ao mesmo tempo, não abre mão de programas de transferência de renda que protejam quem está na base da pirâmide. No seu entendimento, é possível conciliar firmeza no combate ao crime com políticas voltadas à população vulnerável — e isso não configura contradição, mas equilíbrio entre segurança pública e justiça social.

No que diz respeito à segurança gaúcha, Leite aponta resultados expressivos do seu governo: relata redução significativa de homicídios, de roubos de veículos e de furtos a pedestres, bem como a modernização do sistema prisional. Entre as medidas, destaca a construção de novas unidades prisionais em cidades como Caxias do Sul, Rio Grande, Alegrete, Passo Fundo, São Borja e Erechim, além de iniciativas para desativar drones que tentam burlar a prisão e a instalação de bloqueadores de celulares. Ele ressalta que, mesmo diante de críticas de defensoria pública ou de familiares de detentos, o objetivo é manter a lei e a segurança como prioridade, sem abrir mão da dignidade humana.

Falando sobre a percepção pública, Leite reconhece que as avaliações variam conforme a metodologia, lembrando que foi o primeiro governador gaúcho a ser reeleito. Mesmo diante de críticas e de momentos de crise fiscal, as leituras de aprovação apontam para um desempenho que ele considera sólido, levando em conta os desafios climáticos, econômicos e agrícolas que o estado enfrentou nos últimos anos. Ele também revela orgulho por ter sido o primeiro governador reeleito do RS, um indicativo de que seus pares enxergam mudanças reais em curso.

Por fim, o governador comenta um tema especialmente sensível: a pauta LGBT. Como o primeiro governador do país a se declarar publicamente gay, Leite afirma que políticas públicas de diversidade já estão no centro da gestão, com delegacias da diversidade, ações voltadas à inclusão de pessoas transexuais no serviço público e programas de qualificação profissional. Ele diz acreditar que a visibilidade pública da orientação sexual pode ajudar a reduzir preconceitos e a promover um ambiente mais aberto em diferentes esferas da sociedade, sem abrir mão de responsabilidade e compromisso com a cidadania.

No balanço, o que fica é uma imagem de política em transformação: Eduardo Leite posiciona-se como um agente de uma terceira via que busca unir consistência programática a uma leitura social do país. O caminho para 2026 ainda está aberto — e, para leitores atentos, a leitura é simples: o centro pode ser, sim, protagonista de uma nova narrativa, desde que mantenha o equilíbrio entre a firmeza necessária e a sensibilidade para quem precisa de proteção e oportunidades.

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Jornalista

Fernanda Costa

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