Documento diz que Brasil tem base militar chinesa; Ministério da Defesa vai se explicar
Comitê Seleto sobre o Partido Comunista Chinês da Câmara dos Representantes dos EUA divulgou relatório que aponta 11 regiões latinas que teriam este fim
Um relatório do Comitê Seletivo sobre Competição Estratégica entre os EUA e o Partido Comunista Chinês aponta que a China vem ampliando a sua infraestrutura espacial na América Latina, usando projetos civis e comerciais como fachada para fortalecer o que especialistas chamam de consciência de domínio espacial. Entre os países citados, o Brasil aparece na lista, com a menção à chamada Estação Terrestre de Tucano, apresentada pelas partes envolvidas como empreendimento civil e científico, mas com leitura de uso dual que poderia favorecer atividades militares. Na prática, a leitura é de que tais instalações, ainda que civis em sua natureza oficial, poderiam alimentar capacidades estratégicas caso haja cooperação ou armazenamento de dados sensíveis.
No dia a dia da política externa, o tema ganhou tração na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (CREDN). O órgão aprovou um requerimento de informação dirigido ao Ministério da Defesa para esclarecer a situação da Estação Terrestre de Tucano, conforme a solicitação do presidente do Colegiado, Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL/SP). Em suas palavras, o presidente ressalta que o relatório do Comitê dos EUA analisa a expansão da infraestrutura espacial da China na região, com o objetivo de ampliar a consciência espacial das forças, algo que poderia ter implicações para a segurança do território nacional. Diante disso, defende-se o esclarecimento completo dos fatos pelo Ministério da Defesa, mantendo o tema sob vigilância institucional.
Segundo o relatório citado, há 11 instalações ligadas à China na América Latina, com menções específicas a locais no Brasil, na Argentina, na Venezuela, na Bolívia, no Chile e em outros países. O projeto Tucano, aponta-se, surgiu de um acordo de 2020 entre a startup brasileira Ayla Nanossatélites e a empresa chinesa Beijing Tianlian Space Technology. Detalhe importante: a localização exata da estação não é divulgada publicamente; sabe-se apenas que fica na região de Salvador (BA). Na persistente leitura dos autores do relatório, a parceria pode ter laços com operações militares, ainda que as peças oficiais descrevam atividades civis como base da cooperação.
Entre os dados complementares, destaca-se o laboratório conjunto de radioastronomia em Serra do Urubu, concebido em 2025 após acordo entre o CESTNCRI (Instituto de Pesquisa em Comunicação de Redes de Ciência e Tecnologia Elétrica da China) e as universidades federais de Campina Grande (UFCG) e da Paraíba (UFPB). A Beijing Tianlian, por sua vez, aparece ligada à Academia Chinesa de Tecnologia Espacial e à China Aerospace Science and Technology Corporation, entidades centrais para o programa espacial do país. A soma de alianças estratégicas assim é apresentada como um elo entre infraestrutura civil e a capacidade de apoio ao exército chinês, o que deixa espaço para interpretações sobre usos mistos no âmbito da defesa.
Além disso, a falta de informações sucintas sobre o uso real da estação preocupa deputados: o material oficial lista atividades de suporte a satélites de observação e a comunicações espaciais, sem detalhar operações específicas. O documento aponta, porém, que a Beijing Tianlian fornece comunicações de voz e dados entre satélites e o planeta — incluindo missões tripuladas e satélites voltados a reconhecimentos. A Alya Space, por sua vez, declarou que a estação poderia dar suporte à seu conjunto de satélites comerciais, a chamada Alya-1, voltado para observação da Terra. A leitura é de que o acordo entre as empresas envolve troca e armazenamento de dados por meio de redes de antenas conectadas, o que, segundo os parlamentares, ampliaria a cobertura orbital e o potencial de rastreamento de ativos espaciais.
Conforme o relatório, essa conectividade entre a estação e estruturas de defesa brasileiras representa uma “integração sensível” entre a infraestrutura e o aparato de segurança do Brasil. O comitê recomenda que o governo dos Estados Unidos reavalie a cooperação espacial com países que possuem infraestrutura chinesa e limite a expansão de tais estruturas no hemisfério ocidental. Em termos práticos, a preocupação seria ampliar a vigilância, o monitoramento e o eventual apoio a ações de defesa de outras nações, o que tem gerado debates entre autoridades brasileiras e especialistas em espaço.
Para os especialistas, no entanto, nem tudo é consenso. O Humberto Barbosa, do Lapis (Laboratório de Processamento de Imagens de Satélite) da Universidade Federal de Alagoas, minimiza a importância do relatório. Ele afirma que, mesmo diante de avanços tecnológicos entre EUA e China, não haveria necessidade de uma base fixa tão vulnerável em território brasileiro para fins militares, o que, para ele, desfigura o tom do que se apresenta como debate externo. Ainda segundo o pesquisador, é improvável que haja uma instalação chinesa com uso militar tão explícito no Brasil, e o tema revela mais uma figura de linguagem diplomática do que uma realidade operacional concreta.
Apesar das ressalvas, as dúvidas permanecem. Não há evidências públicas de uso militar da base em Tucano, e o próprio texto reconhece que as instalações são apresentadas como civis. A leitura dos autores, porém, parte de uma avaliação de capacidades técnicas e vínculos institucionais com a área espacial da China, que enfatiza a natureza civil-militar de políticas de cooperação. A Alya Space respondeu por meio de nota, destacando que opera de forma estritamente civil, com atuação alinhada à Agenda 2030 da ONU e com licenças para a operação de satélites, sem envolvimento com atividades militares. A empresa também reforçou seu compromisso com a conformidade regulatória brasileira e internacional, definindo seus objetivos em torno de monitoramento ambiental, análise territorial e tomada de decisão estratégica, com foco em desenvolvimento sustentável na economia espacial.
Por fim, o conjunto de autoridades e especialistas que participou do debate reforça que o tema requer acompanhamento cuidadoso. A Alya Space aponta que está em conformidade com as regras vigentes, apresentando um portfólio que envolve licenças da UIT para a operadora de satélites e uso orbital, além de projetos voltados ao uso responsável da tecnologia espacial. O tema segue em pauta, com autoridades nacionais acompanhando de perto as implicações de cooperações internacionais no espaço.