Dilemas da política externa de Trump revelados pela tensão com o Irã

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Os dilemas da política externa de Trump expostos pela tensão com o Irã

A disposição do presidente de deslocar o poderio militar para várias partes do mundo contrasta com sua busca pela paz e por ser “negociador-chefe” do planeta.

Na última quinta-feira, durante a primeira reunião do Conselho da Paz, a coalizão criada por ele para estabilizar o Oriente Médio, Donald Trump lançou mais um ultimato ao Irã. O momento parecia unir o tom de ameaça com a retórica de diplomacia, revelando os impulsos contraditórios que guiam a sua política externa no segundo mandato.

O eixo da tensão fica justamente entre Washington e Teerã. A escalada pode desembocar na maior campanha aérea já registrada nos últimos anos, caso as coisas escapem do controle. Trump sinalizou que prefere uma saída diplomática, por meio de um acordo que encerre o programa nuclear do Irã. Uma autoridade da Casa Branca chegou a declarar, na véspera, que seria “muito inteligente” para o Irã chegar a esse acordo.

Mas, apesar das declarações pró‑diplomacia, a retórica do presidente nas últimas semanas tem sido cada vez mais contundente contra o regime islâmico. A fricção com Teerã expõe uma clara contradição entre uma busca por soluções pacíficas e a disposição de empunhar a capacidade militar com mais frequência do que muitos de seus apoiadores tinham imaginado.

A situação em torno do Irã é o ponto mais delicado. O país, pressionado por sanções e mobilização popular, sinaliza abertura a negociações sobre o enriquecimento de urânio. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos defendem que Teerã também restrinja seu programa de mísseis balísticos e o apoio a grupos aliados na região, o que tem emperrado as conversações indiretas entre os dois países.

As negociações parecem estagnadas, mas Trump não explicou por que um novo ataque seria útil neste momento, menos de um ano após o que ele chamou de bombardeio de 2025 que atingiu instalações nucleares iranianas. Diferentemente do que aconteceu na Venezuela, os objetivos mais amplos do líder americano no Irã permanecem envoltos em mistério. Será que há, de fato, a intenção de promover uma mudança de regime, ou apenas de impor condições mais duras para uma eventual transição?

Além disso, o governo americano teme uma resposta iraniana que vise bases militares em território aliado, o que levaria a uma escalada com consequências imprevisíveis para a região, já de olho em outros objetivos estratégicos, como a reconstrução da Faixa de Gaza. Enquanto isso, Israel aparece como participante provável de qualquer nova operação, com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu mantendo reuniões com Trump para alinhavar ações futuras.

O discurso oficial sobre o próprio eleitorado também pesa. O segundo mandato vem com expectativas de clarificar como uma eventual intervenção exterior se encaixa na agenda doméstica, com Trump enfrentando pressões para justificar qualquer movimento militar diante de uma base que, ao mesmo tempo, o apoia e exige resultados em áreas como economia e imigração. E, no radar, está a percepção pública de que o líder pode se colocar como candidato ao Nobel da Paz, ao mesmo tempo em que utiliza o poder militar internacional para alcançar seus objetivos.

Para além das curiosidades, há uma dúvida prática: se a estratégia de confrontação não oferece as respostas esperadas, qual seria o desfecho possível para a política externa de um presidente que não parece manter uma linha única entre firmeza e negociação? Desde que retomou a cadeira presidencial, Trump tem figurado como um negociador global, assinando acordos e conduzindo cúpulas que o colocam no centro dos debates sobre a economia mundial. Suas ações, que já passaram pela Venezuela, pela atuação na região do Caribe e até pela especulação sobre outros territórios, alimentam uma percepção de que ele prefere uma posição de protagonismo nas relações internacionais, ainda que isso gere dúvidas em casa.

No tom das palavras dele, o mundo terá de esperar para ver o que virá. “Precisamos chegar a um acordo substancial”, disse, acrescentando que, sem isso, “coisas ruins irão acontecer”. No dia a dia, o que está em jogo é justamente a possibilidade de conseguir um acordo que desarme as tensões, sem rupturas abruptas que mergulhem a região em conflitos de difícil reversão.

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Jornalista

Renata Oliveira

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