Pode demorar, mas não dura

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Mesmo que demore não dura

Quem porá fim a esta operacionalidade política inviável com três grandes blocos de peso quase igual que animam o parlamento e desanimam a política? Não se sabe, sabe-se que não pode durar.

A ideia de que basta aguardar por Antonio José Seguro para tudo se resolver é, no mínimo, curiosa — e perigosa, porque funciona como um fixo que não resolve nada. O país continua marcado por uma fragmentação profunda, instituições fragilizadas como há décadas não se via desde 1974, a autoridade do Estado sob pressão constante e um sistema de partidos que parece ditar a própria improdutividade. A política dialoga com três grandes blocos de peso quase igual que ocupam o parlamento e corroem a confiança pública. Além disso, o ar mediático está contagiado pela prática do desrespeito, enquanto o universo político parece ter perdido, de forma graduada, as boas maneiras. Os desastres naturais recentes, de dimensão incomum, ampliaram o cenário em que, ao invés de se concertarem, tudo parece dissolver-se em acusações e desacertos. Não está claro o que realmente passa na cabeça de cada lado — parece o fim de algo semelhante aos destroços deixados pela força das águas quando elas se foram.

No meio desse cenário, a oposição não parece menos conflituosa: de um lado, o PS que se ancora em António José Seguro, o que alguns encaram como um improvável “salvador” capaz de impedir um naufrágio político. Por outro lado, surgem as perguntas sobre o papel do Presidente da República eleito, que parece ter espaço para influenciar o rumo do Governo — com a incógnita de até que ponto essa influência é real ou apenas simbólica. O PS deixa entrever que pode continuar a oferecer colaboração ao Executivo, contanto que haja fidelidade ao guião que as próprias propostas definiram. E, no fim das contas, resta a dúvida: a cooperação pode existir sem ceder terreno às próprias bandeiras ou o entendimento ficará supeditado às condições que o partido considera indispensáveis?

Enquanto isso, André Ventura retorna ao plenário com uma energia que parece quase teatral. O tom alto, o histrionismo e a retórica desproporcional criam um ambiente de choque constante, onde críticas se misturam a ficções e ações passam a ter uma leitura coletiva. Diante do país, ele acabou por colocar no centro da discussão a responsabilidade de governar — sugerindo que o chefe do governo é responsável por rebanhos de danos a pessoas comuns. O efeito é claro: o radicalismo do Chega tende a inflar o confronto com o PSD, e a pergunta que fica é se esse embate se consolidará ou se encontrará um freio em algum ponto. Enquanto isso, o essencial parece ser a perspectiva de uma mudança de prática política que não se apega a velhos padrões, ainda que o preço para chegar lá pareça alto.

Quase ninguém discorda de que a liderança sindical está em posição de reflexão; porém, a leitura sobre a Secretaria Geral da UGT gera dúvidas: que tipo de UGT está surgindo? A crítica já não basta; é preciso discutir o que fazer com a reforma trabalhista e como negociar de forma eficaz com quem está no governo. A leitura pública é de que a troca de argumentos com a ministra da área não tem sido simples: a negociação, que começou em tom de campanha, às vezes parece ter deslocado parte da decisão para a própria esfera sindical. A desenvoltura de Seguro, ao atacar a reforma de uma forma que poderia sustentar o seu partido, pode ter fortalecido a UGT nesse embate, ou pode ter contribuído para uma perda de identidade da própria reforma. No fim, o desfecho pode caminhar para a descaracterização da proposta ou para uma morte prematura, enquanto o país fica cada vez mais pequeno e mais complexo de entender.

E o que pensar do Presidente eleito? Ele conseguiu conquistar o voto público por parecer, desde o princípio, uma pessoa normal — alguém com família, carreira e vida pública de aspecto estável. Agora sabe que precisa ocupar seu espaço e, mais importante, que terá de lidar com um cenário de instabilidade estrutural provocada pelo atual sistema de partidos. A seus olhos, a prioridade é criar as condições para uma maioria estável e coerente — o que, por si, já é uma tarefa de alta complexidade. Além disso, ele reconhece a necessidade de restaurar a autoridade do Estado e de buscar consensos em política externa, num momento de reconfiguração geopolítica e de uma Europa que tenta se reprogramar. É uma agenda pesada, que exige tempo, precisão e, acima de tudo, uma leitura clara do que o país realmente precisa para avançar.

No fim das contas, o país parece encolher diante de um quadro que oscila entre promessas ambíguas e perguntas sem respostas. A relação entre os atores políticos — cada vez mais reativos a surpresas do dia a dia — faz com que o leitor comum se pergunte: a quem realmente interessam as reformas se o custo é a estabilidade? A resposta, como tudo na política, fica em suspenso por mais algum tempo. O que fica claro é que é preciso menos espetáculo e mais leitura realista das forças em campo, para que a nação não continue a se mover em direção a uma solução que não chega. Enquanto isso, o país observa, com curiosidade, aquele que parece ter a missão de unir o que hoje está dividido, e cada leitor precisa decidir, no seu cotidiano, o que significa realmente ter uma vida pública estável e confiável.

  • Fragmentação institucional e a sensação de “barca” governamental sem rumo
  • Três blocos de peso quase igual que moldam o parlamento
  • PS e António José Seguro como âncora da oposição
  • André Ventura e a retórica que inflama o confronto
  • UGT, reforma trabalhista e o papel do sindicalismo na negociação

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Jornalista

Sarah Martins

Jornalista especializada em lifestyle e decoração. Responsável por criar guias, tutoriais e reviews que realmente ajudam nas escolhas.

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