Delcy Rodríguez inicia reformas na Venezuela e reaproxima país dos EUA um mês após prisão de Maduro
Há um mês, Nicolás Maduro e a esposa, Cilia Flores, foram capturados pelos EUA. Desde então, mudanças sob o comando de Delcy Rodríguez ganham contornos de agenda com foco econômico, jurídico e diplomático, com a reabertura de canais com Washington e mudanças na legislação setorial.
Assumindo o comando como presidente interina após a saída de Nicolás Maduro, Delcy Rodríguez vem promovendo um conjunto de medidas que, na prática, visam flexibilizar setores da economia, liberar parte de presos políticos e reacender relações com os Estados Unidos. Entre os gestos anunciados, destacam-se a libertação de presos políticos, a recuperação de laços diplomáticos com Washington e uma reforma da Lei de Hidrocarbonetos que promete atrair investimentos ao país. Ainda assim, analistas advertem que os movimentos parecem mais ajustes estratégicos do que passos concretos rumo à democratização.
Na prática, a agenda ganhou contornos diplomáticos decisivos. Delcy Rodríguez se reuniu com Laura Dogu, encarregada de negócios dos EUA na Venezuela, em busca de uma reabertura da Embaixada dos Estados Unidos em Caracas. A expectativa é que os Estados Unidos voltem a ter presença formal no país, após o rompimento ocorrido anos antes. Além disso, a reunião com Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional, e o próprio pedido de retomada de medidas de cooperação sinalizam uma tentativa de estabelecer um caminho estável entre as duas nações. Como parte desse cronograma, o ministro da Comunicação, Miguel Pérez Pirela, comunicou que o encontro integra a agenda bilateral de trabalho entre Caracas e Washington, com sinais de uma estratégia de transição delineada por Washington.
Para analistas, porém, as perspectivas de uma redemocratização vão depender de como o governo interino converterá promessas em ações com prazo claro. “Um mês após a saída de Maduro para os EUA, o cenário na Venezuela vem evoluindo de forma surpreendente em áreas como economia e justiça,” observa a analista Luz Melly Reyes. “O que vemos é uma combinação de ajustes táticos para abrir fluxo de recursos” e “financiar a continuidade do governo”, avalia ela. Em resumo, o atual desenvolvimento é visto mais como uma estratégia de sobrevivência econômica do que como uma transformação institucional profunda.
O advogado Ali Daniels, diretor da ONG Acesso à Justiça, reforça que, embora algumas medidas pareçam positivas, a execução continua restrita. “A reforma da Lei Orgânica de Hidrocarbonetos”—explicou—“introduzem mudanças radicais na indústria petrolífera, mas o alcance da anistia é ainda incerto. Muitos ex-prisioneiros libertados continuam sob condições que limitam liberdades públicas e o direito de falar abertamente sobre o tema.”
Em termos internos, a Venezuela tem passado por reorganizações significativas. Delcy destituiu aliados próximos de Maduro em áreas estratégicas e manteve quem poderia facilitar o diálogo, incluindo mudanças de cargos de peso. Entre as novidades, a nomeação de Daniella Cabello, filha de Diosdado Cabello, como ministra do Turismo, é cercada de controvérsia por sua relação familiar e pelas sanções que já pesavam sobre ela. Paralelamente, Calixto Ortega trocou de posição para liderar a nova direção de investimentos, com foco em atrair capital externo para o país.
No front econômico, a reforma da Lei de Hidrocarbonetos é apresentada como um ponto central para destravar o setor. O setor petrolífero, base da economia venezuelana, poderia ver maior participação privada e estrangeira, com regras mais flexíveis para exportação e investimento. Segundo o economista José Guerra, há duas novidades importantes: empresas petrolíferas ganham a possibilidade de exportar barris que antes eram vendidos com desconto para o mercado chinês, recebendo algo próximo de valores de mercado; e a nova lei busca atrair investidores, abrindo espaço para participação privada e estrangeira. Ainda assim, há ressalvas sobre a forma como o dinheiro circula: o fluxo financeiro continua a depender de decisões externas, principalmente dos Estados Unidos, o que gera dúvidas sobre a continuidade das entregas de dólares ao país.
Em termos sociais, relatos de melhoria são, ainda que modestos, perceptíveis. ouvida por leitores, uma funcionária pública descreve uma expectativa real de investimentos na infraestrutura elétrica, tema que ainda causa interrupções em várias regiões. Um psicólogo local aponta que, um mês depois, a atmosfera no país parece mais estável e com uma sensação de esperança de que a situação econômica possa evoluir. Nesse contexto, há quem veja sinais de que o país caminha para uma convivência mais pacífica entre setores, ainda que o caminho para uma democracia plena permaneça incerto e dependente de termos de anistia e de implementação de medidas concretas.
No fim das contas, o que está em jogo é uma tentativa de equilibrar reformas com contenção de riscos econômicos e políticos. O anúncio de uma possível anistia geral — que cobriria todo o período de violência política desde 1999 — acendeu avaliações sobre o que realmente será permitido no futuro. Enquanto isso, o debate sobre o real alcance dessas medidas permanece aberto: serão suficientes para consolidar uma transição democrática duradoura ou apenas sinalizam uma etapa adicional de ajustes para manter o país estável enquanto as crises se desenrolam?