A campanha internacional para salvar o campo de futebol usado por crianças palestinas que Israel ameaça demolir
Um clube de futebol recebeu a ordem de remover o campo de jogo, que segundo Israel foi construído ilegalmente; caso contrário, será demolido
No coração da Cisjordânia, perto de Belém, existe um modesto campo de grama sintética que virou espaço de treino para mais de 200 jovens do campo de refugiados de Aida. Nascido em 2020, o espaço fica ao longo do muro que separa Israel da Cisjordânia e hoje enfrenta a sombra de uma demolição. A mobilização internacional para salvá-lo ganha peso justamente porque a história funciona como símbolo: o futebol, para crianças de uma realidade tão conturbada, ainda promete oportunidades e pertencimento.
Não é apenas uma disputa de obras: é uma conversa sobre identidade, território e como a paz — ou a sua ausência — se reflete no cotidiano das famílias. No cenário global de confrontos que se ampliaram após o ataque de 7 de outubro de 2023 e a guerra em Gaza, a situação do campo de Aida lembra que o esporte pode ser um refúgio, mesmo quando tudo ao redor parece desfazer sonhos. Na prática, as crianças que cobram pênaltis sob o sol, no treino diário, vivem a tensão de um espaço que pode desaparecer.
Do ponto de vista técnico, a disputa está embalada por mapas e pelo que as partes consideram domínio de território. A Cisjordânia foi dividida, nos moldes dos Acordos de Oslo, em áreas A, B e C. Belém aparece como Área A, sob controle civil da Autoridade Palestina, mas as áreas ao redor — até os limites da cidade — aparecem nos mapas como Área C, onde Israel detém controle civil e, na prática, maior influência administrativa. O campo, plantado entre o muro e a periferia da cidade, está na linha de frente dessa novela de classificaçõ es, com Israel alegando que foi ergido em terreno ainda sob o seu controle total.
Em 3 de novembro de 2025, chegou a notificação de demolição, sob a alegação de que o campo foi construído sem as licenças necessárias. O clube conseguiu uma prorrogação de sete dias, após a intervenção de um advogado, mas o prazo expirou em 19 de janeiro de 2026. Como costuma acontecer nesses casos, a decisão final fica a cargo dos donos da obra (que podem demolir por conta própria) ou das autoridades israelenses, que poderiam fazê-lo à força, com o custo arcando, em última instância, com os próprios ocupantes do espaço.
Para quem observa de perto, o contexto não é apenas burocracia. Naya, uma menina de 10 anos, disse, em 2025, vestindo a camisa do Brasil com o nome de Neymar nas costas: “Aqui construímos nossos sonhos”. E Mohammed, outro jovem, revelou que ficou “muito mal” ao saber da demolição, porque o campo representa uma ligação afetiva profunda e um espaço de pertencimento. A comunidade reagiu com força: vídeos circulam nas redes, petições já reuniram centenas de milhares de assinaturas e apoio internacional não tem faltado. O clube diz que, graças à intervenção jurídica, houve outrora uma prorrogação, mas o futuro continua incerto.
Entretanto, a narrativa não se esgota no campo. O entorno é uma história de ocupação complicada: o muro que define a linha de fronteira está ligado a uma série de questões administrativas sobre as quais as autoridades israelenses e palestinas divergem. As Forças de Defesa de Israel (FDI) explicaram, em nota, que “ao longo da cerca de segurança, existe uma ordem de confisco e uma proibição de construção; portanto, a construção na área foi realizada ilegalmente”. Enquanto o desfecho não chega, as crianças de Aida seguem treinando, alimentando a esperança de que a pressão internacional possa, de algum modo, fazer a diferença.
Além disso, não se trata de uma história isolada. O episódio reflete um debate mais amplo sobre o planejamento de assentamentos na Área C, que ampliam o controle israelense em áreas de alta sensibilidade. Em setembro, o premiê Benjamin Netanyahu assinou um acordo para avançar com um grande empreendimento de moradia entre Jerusalém Oriental e Maale Adumim. Se concretizado, o projeto encorajaria uma divisão física da Cisjordânia, o que, para os palestinos, seria um duro golpe nas perspectivas de um Estado próprio. Embora haja defensores da anexação, Netanyahu afirmou que “não haverá um Estado palestino”, o que alimenta ainda mais as tensões. Nesse pano de fundo, Belém e o espaço esportivo infantil mostram que o cotidiano pode se tornar palco de disputas que vão muito além das linhas de tiro.
Para as crianças de Aida, o campo é mais do que treino: é lugar de sonho, de disciplina e de encontro com a sensação de comunidade. No dia a dia, compreender a distância entre a alegria de uma partida e o peso das decisões políticas pode parecer muito, mas é justamente nesse fio que a leitura de mundo se constrói. No fim das contas, a história exige de cada leitor uma reflexão sobre o que fazemos, juntos, para manter vivo o espírito de um esporte que, em qualquer canto do mundo, costuma ser sinônimo de esperança.
- Localização: campo ao lado do muro, na periferia de Belém, dentro do território do campo de refugiados de Aida
- Data e prazos: ordem de demolição emitida em 3 de novembro de 2025; prorrogação de sete dias; vencimento em 19 de janeiro de 2026
- Contexto jurídico: Área A vs Área C; Oslo; a configuração administrativa da Cisjordânia
- Resposta da comunidade: petições, vídeos e apoio internacional; pressão pública
- Desdobramentos: o destino do campo depende de decisões administrativas e de como o mundo reage