Qual a situação de Cuba após queda de Maduro e por que governo de esquerda do México passa a ser chave
A BBC analisa a situação atual da economia cubana, os possíveis impactos das mudanças ocorridas na Venezuela e se pode realmente haver um colapso econômico na ilha, como prevê Donald Trump.
A captura do ex-presidente Nicolás Maduro abriu uma fase de incertezas que vão além da Venezuela. Em paralelo, curtos embates entre Washington e Havana repercutem em uma ilha que já enfrentava fortes dificuldades econômicas há anos. Desde o noticiário sobre a intervenção em Caracas no início de janeiro, Donald Trump insistiu que a sobrevivência econômica de Cuba depende fortemente do petróleo venezuelano. Para ele, se esse abastecimento for cortado, o regime cubano entrará em colapso sem necessidade de ações militares. Em Havana, o governo rejeita a ingerência externa e promete se defender, mas não descontrói as afirmações de que a economia cubana atravessa uma crise de ritmo acelerado.
Economia no limite e energia como fio condutor
A atual gestão cubana reconhece que não se trata apenas de mais uma crise passageira, mas de um acúmulo de distorções, adversidades, dificuldades e erros que se agravaram com o embargo econômico aplicado pelos Estados Unidos durante décadas. A piora histórica da produção, a recessão prolongada e os cortes de energia se entrelaçam: em muitos pontos do país, o fornecimento de eletricidade oscila entre várias horas sem luz e períodos em que o serviço retorna de forma intermitente. No dia a dia, isso se traduz em transporte mais lento, fábricas que param e famílias que sofrem com a falta de remédios, alimentos e serviços básicos.
Para entender o mapa da dependência energética, é útil lembrar que Cuba precisa de aproximadamente 110 mil barris diários de petróleo para funcionar com normalidade, mas a produção interna fica em torno de 40 mil, exigindo grandes volumes importados. As fontes de combustível têm, há tempos, um eixo muito claro: a Venezuela e o México. A soma de fatos aponta para a busca contínua de um equilíbrio que aparecia cada vez mais difícil de manter.
A história com a Venezuela é a mais emblemática. Nos primeiros anos do século 21, Havana recebia em torno de 100 mil barris/dia de petróleo venezuelano, apoiando não só o sistema elétrico, mas também as áreas de transporte e indústria. Ao longo dos anos, esse fluxo foi sendo reduzido gradualmente — com estimativas variando — até ficar em patamares modesto para os padrões de uma vez tão próximo. Em 2025, pesquisas apontaram quedas para faixas entre 18 mil a 30 mil barris/dia, com a média em torno de 27 mil barris diários, segundo dados de embarques, documentos e cálculos da PDVSA. A Reuters reforça esse recuo, ao indicar que esse volume cobriu aproximadamente metade do déficit energético da ilha.
No caso mexicano, a situação tem outra face. A petroleira estatal Pemex, por meio de suas operações, informou que sua unidade Gasolinas Bienestar enviou para Cuba, entre janeiro e setembro de 2025, algo próximo de 17,2 mil barris/dia de crude e 2 mil de derivados, num montante que beirou os US$ 400 milhões de valor, segundo informações regulatórias norte-americanas. A imprensa local revelou que os embarques do petróleo mexicano para Cuba teriam registrado alta de até 121% nos dez primeiros meses de 2025, frente ao mesmo período de 2024. Diante disso, a pergunta que surge é inevitável: como Cuba consegue pagar por esse petróleo quando a economia está tão fragilizada?
O governo do México, por meio da presidente Claudia Sheinbaum, sustenta que os envios ocorrem por dois caminhos: contratos estabelecidos e ajuda humanitária. Ela afirma ainda que “não está sendo embarcado mais petróleo do que o que historicamente é enviado” e que não há embarques específicos adicionais, mas não é possível confirmar com total clareza se parte do petróleo está sendo remunerada ou se continua a haver algum tipo de compensação em serviços médicos. Cuba, por sua vez, envia profissionais da área médica ao México; dados oficiais apontam que, nos últimos sete anos, foram concedidos cerca de 3.650 vistos para médicos cubanos, embora não se saiba se essa cooperação envolve remuneração em petróleo.
No debate público, a visão de especialistas mira não apenas os números, mas o efeito prático disso tudo: se o fornecimento venezuelano diminuir ou se o México reduzir o repasse sem substituição, o país fica vulnerável a apagões cada vez mais frequentes, com impactos diretos na produção industrial, no comércio e na vida cotidiana. Esse cenário já chamou a atenção de autoridades e legisladores dos Estados Unidos, que sugerem que mudanças no relacionamento com o México — inclusive no âmbito do acordo comercial T-MEC — poderiam ocorrer caso o petróleo seja oferecido de forma gratuita a Havana por meio de isso ou daquilo. Em resumo, a dinâmica energética cubana está cada vez mais entrelaçada com questões geopolíticas.
Desafios sociais, econômicos e a migração
Além do mapa energético, Cuba enfrenta uma crise econômica de longo prazo que se tornou mais aguda com a queda prevista — ou pelo menos temida — de fontes de renda e energia. O peso da inflação vem se refletindo no custo de vida, e números de junho de 2025 mostram uma aceleração de preços ao consumidor de aproximadamente 14,75% em relação ao ano anterior. A indústria, a agricultura e o turismo — pilares tradicionais da economia — seguem sob pressão. A produção industrial de 2024 foi a mais baixa em quatro décadas, e as projeções para 2025 sinalizam novos recuos, principalmente por conta da redução no abastecimento de insumos, combustíveis e devido aos custos de energia que elevam o custo de produção e o transporte. O turismo, que já foi uma importante fonte de divisas, encerrou 2025 com menos de 2 milhões de visitantes, o que representa o patamar mais baixo em décadas.
A combinação de dificuldades energéticas, falta de medicamentos, quedas de fornecimento e inflação afeta diretamente o abastecimento de alimentos e serviços essenciais. Em paralelo, a ilha enfrenta uma significativa saída de pessoas: desde a pandemia, estima-se que cerca de 2,7 milhões de cubanos migraram, reduzindo a população de mais de 11 milhões para algo entre 8 e 9 milhões. Esse êxodo não apenas reduz o contingente de trabalhadores qualificados, mas também desidrata a capacidade de inovação e de reinvenção da economia local.
Perspectivas para 2026 e o papel de potenciais aliados
Os analistas costumam dizer que o cenário de 2026 não aponta para um “caso de colapso imediato” — o que não significa que esteja tudo sob controle. O governo cubano projeta uma recuperação modesta, incluindo um crescimento de cerca de 1% do PIB, caso haja recuperação do turismo, das exportações, da produção, dos serviços e do acesso a fontes de financiamento. No entanto, muitos especialistas cautelam: é improvável que esse objetivo seja atingido com a atual configuração de laços econômicos e com os entraves estruturais que persistem. A crise energética continua como o maior gargalo, principalmente se houver redução adicional do petróleo venezuelano — o que pode colocar o sistema elétrico sob pressão extrema e comprometer o transporte e a produção de bens básicos.
A visão de alguns analistas é especialmente realista: sem uma resposta externa significativa, Cuba pode se ver Isolada ainda mais financeiramente, sem acesso a novos empréstimos em condições favoráveis, e com dívidas crescentes para credores internacionais. A depender do contexto geopolítico, parceiros tradicionais como Rússia e China têm apresentado assistência limitada, e o peso dessas relações não tem, até o momento, permitido reverter de forma substancial a trajetória de estresse econômico. Em termos de política pública, as autoridades ressaltam que a tenacidade de curto prazo será testada, mas não se descarta a possibilidade de ajustes que atenuem parte do peso social da crise.
E no fim das contas?
Especialistas destacam que a elevação das tensões externas não muda o fato central de que Cuba depende de petróleo importado, principalmente em uma conjuntura em que a produção interna não consegue atender a demanda. O desafio crucial é manter o abastecimento de energia de forma estável, ao mesmo tempo em que se tenta manter o funcionamento de serviços básicos e, quem sabe, abrir algum espaço para o turismo e a indústria de menor intensidade de energia. A dissonância entre narrativa oficial e o humor do cotidiano dos cubanos — com apagões, prateleiras vazias e incerteza sobre o futuro — continua a moldar a percepção pública de como o país pode atravessar esse momento sem precedentes.
A BBC News Mundo solicitou entrevista com autoridades cubanas para ouvir sua leitura da situação, mas não houve resposta até a publicação. Enquanto isso, o debate sobre o papel de Cuba no tabuleiro regional — e sobre como o México de esquerda pode influenciar esse caldo — permanece carregado de perguntas, sem respostas fáceis. No dia a dia, o leitor pode se perguntar: o que tudo isso muda na prática para quem vive em Cuba ou para quem acompanha de perto as relações entre México, Venezuela e Estados Unidos?