Crises da semana apontam que a ‘química’ entre Trump e Lula acabou?

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Crises da semana colocam à prova a tal “química” entre Lula e Trump

Designação de facções, investigação comercial e o visto do assessor de Washington: analistas veem sinais de que a relação permanece sob pressão, especialmente com as eleições no horizonte

Foi uma semana de reviravoltas na relação entre Brasil e Estados Unidos. Depois de meses em que a cooperação parecia ganhar impulso — com elogios públicos, ligações entre os presidentes e encontros presenciais marcados, além de avanços em tarifas e em sanções — a leitura atual mostra que o cenário permanece tenso e cheio de perguntas. No dia a dia, brasileiros e americanos convivem com sinais que apontam tanto para continuidade quanto para incerteza sobre o futuro dessa parceria.

O atrito começou a ganhar contorno com a possibilidade de uma decisão dos EUA de classificar as facções criminosas PCC e CV como entidades terroristas. Em Brasília, não faltaram alertas de que esse movimento poderia ter efeitos práticos — e políticos — dentro de um contexto eleitoral. A ideia gerou desconforto no governo brasileiro, que prefere tratar as facções como organizações criminosas sem estender esse enquadramento a um patamar que poderia abrir espaço para pressões externas ou ações militares relacionadas ao tema.

Na prática, o que se viu ao longo da semana foi uma nova rodada de tensões envolvendo o comércio. Na sexta-feira, os norte-americanos anunciaram uma ampliação de uma investigação sob a seção 301 de sua legislação comercial, envolvendo dezenas de países e blocos econômicos, com o objetivo de apurar se parceiros como o Brasil cumprem regras contra o uso de trabalho forçado. A leitura comum é de que esse movimento pode abrir caminho para tarifas adicionais sobre produtos brasileiros, elevando o custo da relação econômica entre as duas nações.

Outra ela da semana veio com o anúncio de que o Brasil revogou o visto de entrada para Darren Beattie, assessor do Departamento de Estado apresentado como “assessor para o Brasil”. A justificativa oficial foi que Beattie pretendia encontrar-se com Jair Bolsonaro, que cumpre pena, o que o Itamaraty viu como uma possível ingerência na política interna. O episódio levou Lula a comentar o caso publicamente, provocando o debate sobre onde termina a diplomacia e onde começa a provocação.

A BBC News Brasil ouviu diplomatas e especialistas para entender o que está de fato acontecendo com a tão comentada “química” entre Lula e Trump. As visões variam. Um diplomata diz que ainda é cedo para cravar o fim dos bons laços, enquanto outro aponta que os episódios recentes podem ter sido usados por setores alinhados à direita dentro do Departamento de Estado para buscar distanciamento entre os dois governos. Entre os especialistas, há quem aponte que o contexto internacional — especialmente a crise no Irã — ajuda a explicar movimentos que, a princípio, poderiam embaraçar a relação bilateral. Por outro lado, há quem defenda que a tal química era mais retórica do que uma base sólida para uma colaboração duradoura, principalmente porque Brasil e EUA hoje operam com agendas diferentes.

Mercados, diplomacia e eleições: como entender tudo isso? Alguns analistas argumentam que a crise no Oriente Médio e a proximidade das eleições, tanto no Brasil quanto nos EUA, criam um cenário instável que aumenta os cuidados de Brasília e de Washington com o timing de qualquer aproximação futura. O fato é que, mesmo sem uma ruptura clara, o relógio está correndo. A próxima janela para uma reunião entre Lula e Trump poderia reativar a relação; o obstáculo é a necessidade de manter a cooperação estável sem que a dinâmica eleitoral contamine o diálogo entre os dois governos.

Para Dawisson Belém Lopes, da UFMG, a ideia de que houve uma “química” entre os dois chefes deve ser encarada com parcimônia: trata-se de um intervalo que pode ter sido, em grande parte, um momento de linguagem — um gracejo retórico — sem que operações diplomáticas cruciais estivessem completamente consolidaradas. E, na prática, ele alerta para a continuidade das tensões mesmo sem uma crise aberta. Já Oliver Stuenkel, da FGV, aponta que não se pode ignorar que a atual gestão de Washington é muito centralizada, o que dificulta antever próximos passos e pode explicar a falta de previsibilidade no relacionamento com o Brasil. Em síntese, não há consenso de que a parceria esteja abalada, mas sim de que ela permanece sob alerta.

Por outro lado, Christopher Garman, da Eurasia, vê o quadro como um movimento estratégico, em que o Irã ocupa boa parte da agenda externa dos EUA e abre espaço para que vozes contrárias a uma aproximação com o Brasil atuem com mais independência. Nesse cenário, ele aposta que uma conversa direta entre Lula e Trump ainda seria crucial para manter o canal aberto e reverter atritos pontuais. No fim das contas, o que parece claro é que o clima de incerteza não some, e que as próximas semanas vão exigir muito da diplomacia brasileira para manter o relacionamento no eixo, especialmente com as eleições batendo à porta.

No centro da discussão está a necessidade de manter a relação útil e estável, sem ceder a pressões externas ou transformá-la em palco de disputas eleitorais. Ainda que não haja confirmação de que houve uma ruptura na ligação entre Lula e Trump, o conjunto de decisões e declarações recentes faz com que analistas recomendem cautela e muita habilidade para navegar esse novo capítulo. E, para quem acompanha de perto a cena, fica a pergunta que não quer calar: até onde essa química pode resistir quando as eleições chegam e o clima internacional segue dinâmico?

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Jornalista

Sarah Martins

Jornalista especializada em lifestyle e decoração. Responsável por criar guias, tutoriais e reviews que realmente ajudam nas escolhas.

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